Aeroportos se tornam novos alvos para detenções e deportações de imigrantes com vistos expirados
O Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) dos Estados Unidos intensificou suas operações em aeroportos, visando estrangeiros com vistos americanos vencidos, mesmo aqueles que possuem processos de imigração em andamento ou são cônjuges de cidadãos americanos. A nova estratégia expande significativamente o número de pessoas passíveis de deportação, com agentes à paisana abordando indivíduos em balcões de check-in e portões de embarque.
As ações, que já ocorreram em pelo menos 15 aeroportos nas últimas semanas, têm gerado apreensão e vídeos viralizados nas redes sociais, mostrando encontros tensos entre passageiros e agentes. Essa expansão se baseia em um acordo prévio entre a Administração de Segurança de Transportes (TSA) e o ICE, que agora parece abranger um contingente muito maior de indivíduos em situação migratória irregular.
A mudança representa uma alteração drástica nas prioridades de fiscalização, que antes focavam em indivíduos com ordens de deportação ou com histórico criminal. Agora, a permanência no país após o vencimento do visto, mesmo em processos legais de extensão ou aguardando green cards, pode levar à detenção, conforme informações obtidas pelo New York Times.
Expansão da fiscalização: de ordens de deportação para vistos vencidos
Originalmente, a colaboração entre a TSA e o ICE, iniciada em maio de 2025, focava em identificar indivíduos com ordens de deportação. O ICE fornecia nomes à TSA, que cruzava as informações com seus bancos de dados e reportava correspondências para possível prisão. Essa prática era uma novidade, pois anteriormente o governo federal evitava envolver a TSA em fiscalização imigratória para não prejudicar as viagens domésticas.
No entanto, documentos do Departamento de Segurança Interna (DHS) e entrevistas com advogados de imigração revelam que o programa foi expandido para incluir pessoas com vistos vencidos. Este grupo é consideravelmente maior, com centenas de milhares de imigrantes e visitantes ultrapassando o prazo de seus vistos anualmente. Muitos desses indivíduos vivem em uma “zona cinzenta legal”, aguardando extensões de visto ou green cards, e frequentemente possuem autorizações de trabalho.
Anteriormente, essas pessoas não eram priorizadas para deportação, a menos que cometessem crimes, e raramente eram detidas enquanto seus processos corriam. A administração atual, sob Donald Trump, considera todas as permanências após o vencimento do visto como ilegais, intensificando a campanha de deportação em massa.
Estratégias de detenção em aeroportos e o impacto nos passageiros
Os agentes do ICE, muitas vezes disfarçados, têm abordado alvos diretamente nos aeroportos, em momentos cruciais como o check-in ou o embarque. Essa tática visa capturar indivíduos antes que eles consigam deixar o país ou transitar entre cidades. As prisões têm ocorrido de forma discreta em alguns casos, mas em outros, sob os olhares de passageiros que registram os momentos em vídeo.
Um porta-voz do DHS declarou que o governo está “trabalhando diligentemente para garantir que estrangeiros em nosso país ilegalmente não possam mais voar, a menos que seja para fora do nosso país para se autodeportarem”. A agência não confirmou oficialmente a expansão do programa, mas a pressão por um aumento nas detenções em todo o país é evidente, com o governo estabelecendo uma meta de 2.000 prisões de imigrantes por dia.
Essas ações têm gerado vídeos que circulam amplamente nas redes sociais. Um deles mostra a detenção de Chantal Morales Rojas, equatoriana de 27 anos, em Denver. Ela foi abordada por agentes à paisana enquanto embarcava em um voo. Apesar de ter entrado legalmente no país com um visto J-1 e estar com um pedido de permanência em andamento, seu visto expirou em janeiro de 2025.
Casos emblemáticos e o alerta para viajantes com status migratório pendente
Os advogados de imigração relatam uma ampla gama de perfis entre os detidos. Há engenheiros aguardando a extensão de vistos de trabalho, recém-casados com cidadãos americanos e até mesmo indivíduos com pedidos de asilo em andamento, como o caso de uma mulher ugandense em cadeira de rodas, portadora de anemia falciforme. Em outra situação, um cidadão australiano com visto vencido foi detido em Las Vegas e, após ser liberado inicialmente para “desescalar a situação”, foi detido no dia seguinte em Los Angeles.
Charles Kuck, advogado de imigração com 38 anos de experiência, expressou surpresa com a intensidade e o alcance das novas táticas: “Em 38 anos praticando direito imigratório, eu nunca tinha visto isso”, afirmou. Ele ressaltou que a situação está afetando muitas pessoas.
Diante desse cenário, advogados como Shannon Shepherd, vice-presidente da seção de Chicago da Associação Americana de Advogados de Imigração, têm alterado suas recomendações. Se antes aconselhavam que viagens domésticas eram seguras com um documento de identidade válido, agora o alerta é para que pessoas em processo de mudança de status evitem qualquer tipo de viagem aérea.
Visto vencido: a nova linha vermelha para detenção e deportação
A administração Trump considera a permanência nos Estados Unidos após o vencimento do visto como uma violação direta das leis do país. Essa postura amplia drasticamente o número de pessoas sujeitas a ações de fiscalização, pois anualmente centenas de milhares de estrangeiros ultrapassam o prazo de seus vistos. Muitos desses indivíduos estão em processo de regularização, aguardando a decisão sobre seus pedidos de green card ou extensões de visto, e possuem autorizações de trabalho, o que os colocava em uma zona de relativa segurança no passado.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) reiterou que a mulher equatoriana detida, Chantal Morales Rojas, estava “em violação às leis de nossa nação”. Apesar de ter entrado legalmente e estar com um processo em andamento, a expiração de seu visto J-1 foi o gatilho para a ação do ICE. Ela foi posteriormente liberada mediante fiança de US$ 3.000, mas a detenção levanta questionamentos sobre a necessidade e a legalidade dessas abordagens em aeroportos.
A advogada de Morales Rojas, Laura Lichter, entrou com uma ação contestando a detenção e a falta de um mandado de prisão adequado, além da ausência de uma determinação individualizada de que a detenção era necessária. O caso destaca a complexidade e as controvérsias em torno da aplicação das leis de imigração sob as novas diretrizes.
Advogados contestam a legalidade e a necessidade das prisões em aeroportos
A estratégia de deter indivíduos em aeroportos, mesmo aqueles com processos migratórios legais em andamento, tem sido alvo de críticas por parte de advogados de imigração. Ghassan Shamieh, um advogado em São Francisco, descreveu a rede de fiscalização como “muito mais ampla” do que antes, ressaltando que os alvos não são apenas pessoas com antecedentes criminais, mas sim “pessoas com solicitações legítimas pendentes”.
O caso de Chantal Morales Rojas exemplifica essa preocupação. Sua advogada, Laura Lichter, enfatizou que Morales Rojas viveu abertamente nos EUA com o conhecimento do governo sobre seu caso pendente, passou por verificações de antecedentes e possuía autorização de trabalho enquanto aguardava a análise de seu pedido. “O processo que ela está seguindo é completamente legal”, afirmou Lichter, questionando a abordagem do ICE.
A ação movida por Lichter busca contestar a legalidade da detenção de Morales Rojas, argumentando que a falta de um mandado de prisão adequado e de uma avaliação individualizada da necessidade de detenção violam os direitos de sua cliente. A situação em aeroportos se torna um ponto de tensão, onde a fiscalização imigratória colide com o direito de locomoção e os processos legais em curso.
O impacto na vida de imigrantes e a recomendação de cautela
A intensificação das ações do ICE em aeroportos gera um clima de medo e incerteza para a comunidade imigrante, especialmente para aqueles que estão em processo de regularização. A possibilidade de serem detidos a qualquer momento, mesmo em trânsito interno, restringe a liberdade de movimento e pode ter sérias consequências para seus processos migratórios e suas vidas.
A recomendação de advogados como Shannon Shepherd, para que indivíduos em processo de mudança de status evitem viagens aéreas, reflete a gravidade da nova política. O que antes era considerado um procedimento rotineiro e seguro, como pegar um voo doméstico, agora pode se tornar uma armadilha, levando à detenção e ao início de um processo de deportação.
Essa nova fase da fiscalização imigratória levanta debates sobre a eficácia e a humanidade das políticas de imigração, bem como sobre o equilíbrio entre a segurança nacional e os direitos dos indivíduos que buscam uma vida melhor nos Estados Unidos. A expansão do alcance do ICE para aeroportos sinaliza um endurecimento significativo nas práticas de imigração do país.
Pressão governamental por mais detenções e a meta ambiciosa do ICE
O aumento das prisões em aeroportos ocorre em um contexto de forte pressão da Casa Branca sobre o ICE para elevar o número de detenções em todo o país. O Secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, prometeu “aumentar a pressão nas ruas”, estabelecendo uma meta ambiciosa de 2.000 prisões de imigrantes por dia, o dobro do ritmo registrado no início do ano.
Essa meta desafiadora impulsiona a busca por novas estratégias de fiscalização, e os aeroportos se tornaram um terreno fértil para alcançar esses objetivos. A capacidade de deter indivíduos em pontos de trânsito estratégico permite ao ICE impactar um grande número de pessoas, incluindo aquelas que poderiam ter passado despercebidas em outras circunstâncias.
A expansão da fiscalização para pessoas com visto vencido, mesmo com processos pendentes, é uma forma de ampliar o escopo de atuação e atingir a meta estabelecida. Essa abordagem, no entanto, levanta preocupações sobre a possibilidade de detenções indevidas e o impacto desproporcional sobre indivíduos que estão tentando seguir as regras e regularizar sua situação nos Estados Unidos.
O futuro da fiscalização imigratória e o alerta para viajantes
A nova estratégia do ICE em aeroportos representa um marco na fiscalização imigratória dos Estados Unidos. Ao mirar ativamente pessoas com vistos vencidos, mesmo aquelas em processos legais, o governo amplia drasticamente seu alcance e o número de indivíduos sujeitos à deportação.
Para os imigrantes e visitantes que se encontram em situação migratória irregular ou com processos pendentes, a situação exige extrema cautela. A recomendação de evitar viagens aéreas, mesmo domésticas, torna-se um conselho prudente diante da nova realidade imposta pelas ações do ICE.
A controvérsia em torno dessas detenções em aeroportos, com vídeos chocantes e contestações legais, sugere que o debate sobre as políticas de imigração nos Estados Unidos continuará intenso. A linha entre a aplicação da lei e a proteção dos direitos individuais em processos migratórios se torna cada vez mais tênue, com os aeroportos emergindo como palco de novas e tensas operações de fiscalização.