O Irã vive um momento de tensão, com protestos e repressão violenta em diversas regiões do país. Contudo, a possibilidade de uma nova revolução encontra um grande obstáculo crucial: a ausência de uma liderança coesa para a oposição.
Essa lacuna na oposição iraniana tem um impacto direto na capacidade de mobilização e união de forças contra o governo. Sem uma figura central, os múltiplos interesses se fragmentam, dificultando a formação de um movimento frontal e unificado.
A análise é da professora Priscila Caneparo, doutora em Direito Internacional e docente da Ambra University, conforme entrevista concedida à CNN Prime Time, onde detalhou os desafios e perspectivas para o futuro do país.
Por que a falta de um líder da oposição dificulta a mudança no Irã?
Segundo Priscila Caneparo, apesar dos intensos protestos e da violenta repressão por parte do regime, não há uma figura que esteja realmente encabeçando a oposição no Irã. A especialista explica que, embora se mencione Reza Pahlavi, filho do último Xá, ele não lidera os atuais movimentos.
A professora ressalta que essa ausência de liderança é um fator crítico. “A falta dessa figura faz com que haja uma dispersão de interesses e principalmente de algo frontal contrário ao regime”, afirmou Caneparo, destacando a dificuldade de se criar uma frente unida.
Essa fragmentação impede que a insatisfação popular se traduza em um movimento organizado e com objetivos claros. A dispersão de interesses enfraquece a pressão sobre o regime, mesmo em um momento de aparente fragilidade, dificultando a concretização de uma nova revolução.
A força do regime iraniano e o apoio interno
Priscila Caneparo enfatiza que o Irã não deve ser subestimado. O país possui o segundo maior exército da região do Oriente Médio, perdendo apenas para Israel. “O Irã não é o Iraque. O Irã não é o Afeganistão”, comparou a professora, ressaltando o poderio militar iraniano.
Além da força bélica, a especialista aponta um fator muitas vezes esquecido: uma parcela significativa da sociedade iraniana ainda apoia o regime. “Há uma grande comoção de parte da sociedade iraniana que é pró-regime, isso a gente não pode esquecer”, pontuou Caneparo.
Este apoio interno, somado à capacidade militar, confere uma resiliência considerável ao governo dos aiatolás, tornando qualquer tentativa de mudança externa ou interna ainda mais complexa e desafiadora para a oposição iraniana.
Possibilidades de mudança e o papel dos Estados Unidos
Apesar da aparente estabilidade do regime, Caneparo observa que o Irã nunca esteve tão próximo de uma nova revolução desde 1979, ano da Revolução Islâmica. “De fato, a gente nunca esteve tão próximo, no histórico de Irã, desde 1979, de uma nova revolução”, afirmou.
A professora também levanta a possibilidade de mudanças ocorrerem de dentro do próprio regime. Isso poderia envolver a substituição de lideranças, mantendo a estrutura de poder existente, em vez de uma derrubada completa do regime iraniano.
Contudo, quanto a uma intervenção externa, especialmente por parte dos Estados Unidos, Caneparo é categórica. “Não vai ser os Estados Unidos, não serão os Estados Unidos”, sentenciou. Ela explica que não há aprovação interna nos EUA para se intrometer em novas guerras regionais.
A especialista lembra os altos custos políticos e militares das intervenções americanas no Iraque e no Afeganistão. Além disso, ela reitera que o poderio militar do Irã é muito superior ao desses dois países, o que tornaria uma intervenção direta ainda mais arriscada e complexa para Washington.