Irã avança em rearmamento secreto sob o manto da trégua militar
Enquanto a intensidade do conflito no Oriente Médio diminuiu consideravelmente desde o cessar-fogo acertado em abril entre Estados Unidos e Irã, o regime islâmico tem aproveitado essa relativa calma para intensificar seus esforços de rearmamento. Relatórios recentes indicam uma retomada significativa na produção de mísseis balísticos e no desenvolvimento de instalações subterrâneas estratégicas, visando dificultar ataques externos e fortalecer sua capacidade militar.
Fontes oficiais dos Estados Unidos e de países do Oriente Médio, que preferiram não se identificar, apontam que o Irã tem se dedicado à montagem de mísseis de propelente líquido e sólido. Essa atividade ocorre em complexos como o de Khojir, no sudeste do país, e em novas instalações subterrâneas em construção, projetadas para aumentar a resiliência contra possíveis bombardeios.
A situação tem gerado apreensão em Washington e Tel Aviv, com o presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu emitindo advertências diretas ao Irã. As informações foram divulgadas pelo The Wall Street Journal e pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). Conforme informações divulgadas pelo The Wall Street Journal.
Retomada da produção de mísseis balísticos e estratégias subterrâneas
O The Wall Street Journal revelou que o Irã retomou a produção de mísseis balísticos, utilizando componentes em estoque e operando em instalações subterrâneas. Essa estratégia visa garantir a continuidade de suas capacidades militares, mesmo diante de bloqueios e ataques anteriores. A montagem abrange tanto mísseis de propelente líquido, que requerem abastecimento próximo ao lançamento, quanto os de propelente sólido, que podem ser armazenados prontos para uso.
O complexo de mísseis de Khojir, localizado no sudeste iraniano, é apontado como um dos principais locais onde essa produção está ocorrendo. Além disso, o regime está empenhado na construção de novos locais de montagem subterrâneos, uma medida defensiva para dificultar a identificação e o ataque de suas instalações por forças americanas e aliadas. A prioridade é a substituição de infraestrutura danificada e o armazenamento de componentes recém-adquiridos.
Tal Inbar, analista sênior da Missile Defense Advocacy Alliance, destacou a ingenuidade em acreditar que o Irã não estaria reconstruindo suas capacidades de produção de mísseis. Ele ressaltou que a ausência de bombardeios às instalações permite a substituição de infraestrutura e a aquisição e estocagem de novos componentes, fortalecendo o arsenal iraniano.
Desafios e resiliência na cadeia de suprimentos de mísseis
Apesar da aparente retomada, o Irã enfrenta desafios significativos. Ataques anteriores a instalações industriais e o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos dificultam a importação de peças e insumos essenciais. Essa situação tem forçado o regime a depender de componentes já estocados e a produzir em quantidades menores do que antes do conflito.
Apesar dessas restrições, a resiliência da capacidade de mísseis do país tem se mostrado superior às expectativas americanas. O coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho aponta que os recentes ataques à base americana na Jordânia, que exigiram o uso de mísseis Patriot, comprovam essa capacidade.
Gomes Filho também sugere que o apoio externo, possivelmente da Rússia, no fornecimento de imagens de satélite e inteligência para a designação de alvos, incluindo bases americanas, explica em grande parte essa resiliência iraniana. Essa cooperação externa pode estar suprindo algumas das lacunas na cadeia de suprimentos.
Atividade intensa em complexo nuclear secreto gera alerta
Paralelamente aos esforços de rearmamento balístico, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) divulgou um relatório alarmante sobre movimentações na montanha Pickaxe (Kuh-e Kolang), que abriga um complexo nuclear iraniano na região central do país. Imagens de satélite e aéreas indicam uma transição da fase de escavação para a construção interna e o reforço externo das instalações.
O complexo de Pickaxe, localizado próximo à instalação de enriquecimento de urânio de Natanz, que já foi alvo de ataques, possui dois complexos escavados a cerca de 100 metros de profundidade em granito sólido. Essa característica torna a destruição do local extremamente difícil, mesmo com o uso de armamentos avançados como as bombas bunker-buster, como a GBU-57.
Essa atividade no complexo nuclear reforça a preocupação de que o Irã esteja buscando reconstruir sua capacidade de desenvolver armas nucleares, uma alegação que foi um dos principais motivos para o início da guerra. A redução do programa de mísseis iraniano também era um objetivo central da ofensiva liderada pelos EUA e Israel.
Reconstrução dos sistemas de armas e importações militares
Em agosto, o porta-voz do Exército iraniano, Mohammad Akraminia, declarou que o país havia conseguido reconstruir seus sistemas de armas, incluindo aqueles danificados durante o conflito. Ele afirmou que novos sistemas foram adquiridos tanto da indústria de defesa nacional quanto por meio de importações de outros países, ampliando as capacidades de combate iranianas.
Embora Akraminia não tenha especificado os países de origem dessas importações, diversos relatos desde o início da guerra apontaram para o envio de ajuda militar da Rússia e da China ao Irã. Essa assistência externa teria sido crucial para a reposição de estoques e a modernização do arsenal iraniano, permitindo a continuidade das operações militares.
A declaração do porta-voz sugere uma estratégia deliberada de recuperação e fortalecimento militar, minimizando o impacto dos ataques e bloqueios sofridos. A capacidade de reconstruir e adquirir novos sistemas indica uma resiliência significativa e uma preparação de longo prazo.
Advertências de Trump e Netanyahu e a ameaça nuclear
As movimentações do Irã em seu programa de mísseis e nuclear têm sido um foco de atenção para os Estados Unidos e Israel. O presidente Donald Trump, durante a convenção do Partido Republicano, alertou o Irã para não tentar “nenhuma gracinha”, sob a ameaça de uma resposta contundente. Ele mencionou especificamente a atividade em Pickaxe, indicando que os americanos estão monitorando de perto o desenvolvimento.
No dia seguinte, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, confirmou as preocupações de Trump, afirmando que o Irã está tentando se rearmar com armas nucleares. Netanyahu reiterou o compromisso de Israel em impedir que o Irã obtenha armas nucleares enquanto ele estiver no governo, destacando a gravidade da situação para a segurança regional.
A alegação de que o Irã estava próximo de adquirir armas nucleares foi um dos principais gatilhos para a atual guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro. A busca por desmantelar o programa de mísseis iraniano também era um objetivo central da ofensiva americana e israelense. As recentes informações indicam que esses objetivos não foram totalmente alcançados.
Avaliação de especialistas: Resiliência e preparação a longo prazo
Especialistas militares avaliam que as informações divulgadas não permitem, por ora, determinar o estágio exato do desenvolvimento dos mísseis iranianos. No entanto, é inegável a resiliência da capacidade de mísseis do país, que se mostra muito maior do que o inicialmente previsto pelos americanos. A capacidade de manter operações e responder a ataques demonstra uma preparação robusta.
Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo, sugere que o Irã se preparou longamente para a guerra. A manutenção de estoques significativos e uma cadeia de comando altamente descentralizada são indicadores dessa preparação. Essa estrutura permite a continuidade das ações mesmo diante da eliminação de lideranças e da interrupção de meios de comunicação, comando e controle.
Essa estratégia de longo prazo e a resiliência demonstrada indicam que, apesar das declarações de Trump sobre o suposto enfraquecimento militar do regime islâmico, a ameaça permanece substancial. A capacidade do Irã de se rearmar e fortalecer suas posições estratégicas sugere um cenário complexo e de contínuo desafio para a segurança internacional na região.
O papel da Rússia e da China no rearmamento iraniano
Embora o porta-voz do Exército iraniano não tenha especificado os países de origem das importações militares, relatos anteriores indicam uma colaboração significativa da Rússia e da China com o Irã. Essa ajuda externa é vista como um fator crucial para a capacidade do Irã de reconstruir e expandir seu arsenal bélico.
A Rússia, em particular, tem sido apontada como fornecedora de tecnologia e inteligência, auxiliando o Irã na designação de alvos e na navegação em ambientes de conflito. Essa cooperação pode explicar a precisão e a eficácia de ataques iranianos, bem como a resiliência de suas instalações.
A China, por sua vez, também tem sido associada ao fornecimento de componentes e tecnologia para o programa de mísseis e nuclear do Irã. Essa rede de apoio internacional, embora não oficialmente confirmada em todos os detalhes, é considerada fundamental para a estratégia de rearmamento iraniana, permitindo ao país contornar sanções e manter sua capacidade militar em ascensão.
Implicações geopolíticas e o futuro do conflito
A capacidade do Irã de se rearmar e desenvolver instalações estratégicas subterrâneas tem implicações geopolíticas significativas. A persistência e o fortalecimento de seu programa de mísseis e nuclear representam um desafio direto à ordem de segurança regional e às aspirações de desnuclearização defendidas por potências ocidentais e alguns países do Oriente Médio.
A resiliência iraniana também sugere que a estratégia de guerra de atrito e desgaste pode ser um componente chave de sua doutrina militar. Ao se preparar para conflitos prolongados e desenvolver capacidades para resistir a ataques, o Irã busca aumentar seu poder de dissuasão e sua influência na região.
A situação atual, marcada por uma trégua tensa e um rearmamento secreto, aponta para um futuro incerto. A possibilidade de uma escalada futura permanece, e as ações do Irã continuarão a ser monitoradas de perto por seus adversários, que buscam conter sua influência e impedir o desenvolvimento de armas de destruição em massa. A dinâmica de poder no Oriente Médio permanece em constante evolução.
O Irã se preparou para a guerra: uma estratégia de longo prazo
Analistas militares, como Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, apontam que o Irã demonstrou uma preparação de longo prazo para o cenário de conflito. A manutenção de estoques robustos de armamentos e a implementação de uma cadeia de comando altamente descentralizada são evidências dessa estratégia.
Essa descentralização permite que as operações militares continuem mesmo em situações de ataque direto às lideranças ou aos sistemas de comunicação e controle. Essa capacidade de adaptação e persistência é um fator crucial para a resiliência iraniana em um ambiente de conflito prolongado.
A aparente capacidade do Irã de se reerguer militarmente após ataques e bloqueios, aliada à sua preparação estratégica de longo prazo, indica que a ameaça representada pelo regime islâmico não deve ser subestimada. A situação exige uma análise contínua e uma resposta coordenada das potências globais e regionais para garantir a estabilidade e a segurança internacional.