A ascensão de Iryna Terekh na indústria de defesa ucraniana: de projetos urbanos à fabricação de armamentos avançados
A Ucrânia, em meio a um conflito prolongado, tem visto o surgimento de figuras inesperadas na linha de frente de sua defesa. Uma dessas personalidades é Iryna Terekh, de 34 anos, que transicionou de uma carreira em arquitetura e mobiliário urbano para liderar uma das mais promissoras empresas privadas de defesa do país, a Fire Point. A companhia, especializada na fabricação de drones e mísseis de longo alcance, desempenha um papel cada vez mais crucial nos ataques ucranianos contra alvos em território russo.
Fundada após a invasão em larga escala de 2022, a Fire Point evoluiu rapidamente de uma pequena startup para um gigante da indústria de defesa, empregando milhares de pessoas e operando múltiplas unidades de produção. Terekh ingressou na empresa em 2023, convidada pelo fundador Denys Shtilerman para otimizar a produção em massa de protótipos desenvolvidos em tempo de guerra. Sua expertise em gerenciamento e processos industriais provou ser fundamental para escalar a capacidade de fabricação da empresa.
A experiência pessoal de Terekh, marcada por momentos de perigo durante a ocupação russa perto de Bucha, moldou sua perspectiva sobre a guerra e a impulsionou a buscar um papel mais ativo na defesa de seu país. Conforme informações divulgadas pelo The Wall Street Journal, ela afirma que jamais teria se envolvido com a indústria bélica se a Ucrânia não tivesse sido invadida, destacando a profunda transformação pessoal e profissional que a guerra impôs.
Do planejamento urbano à linha de produção de armamentos
A trajetória profissional de Iryna Terekh antes de ingressar na Fire Point era notavelmente distinta da indústria militar. Ela construiu uma sólida carreira nos setores de arquitetura, construção e mobiliário urbano, administrando uma empresa focada em soluções para espaços públicos, como bancos, vasos e pias. Sua participação em projetos de desenvolvimento urbano em Kiev demonstrava uma visão voltada para a infraestrutura e o planejamento de cidades.
Terekh chegou a estudar arquitetura na Universidade Nacional de Construção e Arquitetura de Kiev, mas abandonou o curso para gerir seus próprios negócios e conciliar a vida profissional com a criação dos filhos. A invasão russa, no entanto, alterou drasticemente o curso de sua vida. Um incidente em que seu carro foi atingido por disparos enquanto tentava resgatar sua mãe perto de Bucha a confrontou diretamente com a brutalidade do conflito, solidificando sua decisão de contribuir para a defesa nacional.
Ao se juntar à Fire Point em 2023, a empresa contava com apenas 18 funcionários. O fundador, Denys Shtilerman, um engenheiro e físico, concentrava-se no desenvolvimento de tecnologia, enquanto Terekh assumiu a tarefa de organizar a produção. Sua capacidade de gerenciar e otimizar processos rapidamente a elevou a cargos de maior responsabilidade, tornando-a diretora de tecnologia e CEO da empresa. Ela passou a se envolver ativamente no desenvolvimento dos armamentos e na estratégia tecnológica da Fire Point, mergulhando no estudo de mísseis e consultando manuais técnicos e especialistas.
Inovação na fabricação: a revolução das asas de drones
Uma das contribuições mais significativas de Iryna Terekh para a Fire Point foi a otimização radical do processo de fabricação das asas de drones. Ela implementou uma mudança estratégica que reduziu o tempo de produção de seis dias para aproximadamente duas horas e meia por unidade. Essa inovação foi crucial para a escalada da produção do drone de ataque de longo alcance FP-1, um dos principais produtos da empresa.
O FP-1 é um dos pilares da estratégia ofensiva da Ucrânia, sendo empregado em ataques a alvos estratégicos dentro da Rússia, como refinarias e centros logísticos. Seu alcance de cerca de 3.380 quilômetros o torna uma ferramenta poderosa para atingir alvos em profundidade. A capacidade de Terekh de simplificar projetos complexos e acelerar a produção em massa foi um fator determinante para o crescimento exponencial da Fire Point.
A empresa, que fabricou cerca de 200 drones em seu primeiro ano de operação, agora tem a capacidade de produzir mais de 100 mil unidades anualmente, sob a liderança de Terekh. A Fire Point emprega atualmente mais de 7 mil pessoas e estima-se que seus equipamentos participem de mais de 60% dos ataques de longo alcance realizados pela Ucrânia contra a Rússia.
Expansão para mísseis de cruzeiro: o Projeto Flamingo
Além dos drones, a Fire Point, sob a gestão de Terekh, expandiu seu portfólio para incluir o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro. O principal projeto nesse segmento é o míssil FP-5, apelidado de Flamingo. Este armamento representa um salto significativo na capacidade de ataque de longo alcance da Ucrânia, com uma carga explosiva consideravelmente maior do que a dos drones.
O míssil Flamingo pesa aproximadamente seis toneladas, carrega uma ogiva de cerca de 1.150 quilos e possui um alcance máximo declarado de até 3.000 quilômetros. O curioso apelido surgiu durante os testes em 2024, quando protótipos foram pintados com cores vibrantes para facilitar a localização após os lançamentos. Um míssil pintado de rosa inspirou uma brincadeira entre os funcionários, que o batizaram de Flamingo, em referência à liderança feminina na empresa.
O Flamingo já demonstrou sua eficácia em operações ucranianas, como o ataque a uma fábrica russa de componentes militares em Cheboksary, percorrendo cerca de 1.800 quilômetros. A Fire Point relata uma capacidade de produção de cerca de 100 mísseis Flamingo por mês, com um custo unitário de aproximadamente US$ 600 mil. A empresa também está desenvolvendo outros projetos de mísseis e sistemas de defesa aérea, com o objetivo de criar interceptadores de mísseis balísticos a um custo menor que os sistemas ocidentais.
Investigações e acusações de favorecimento governamental
O rápido crescimento e o sucesso da Fire Point não passaram despercebidos, e a empresa tem enfrentado escrutínio e acusações de favorecimento na concessão de contratos públicos de defesa pelo governo ucraniano. O Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) abriu uma investigação para apurar alegações de superfaturamento de componentes e de fornecimento de uma quantidade de drones superior à efetivamente entregue ao Ministério da Defesa.
A investigação também busca esclarecer possíveis ligações entre a Fire Point e Timur Mindich, um empresário que já foi sócio do presidente Volodymyr Zelensky. Em resposta às acusações, a Fire Point confirmou a existência da investigação, mas negou veementemente qualquer irregularidade. Iryna Terekh refutou a tese de favorecimento, argumentando que a prioridade do governo era garantir a produção em larga escala de equipamentos militares essenciais para a defesa do país e que a empresa está aberta a auditorias e mecanismos de transparência.
Visão de futuro: expansão internacional e desafios regulatórios
Apesar da forte demanda interna impulsionada pela guerra, que atualmente direciona toda a produção da Fire Point para as forças ucranianas, Iryna Terekh já projeta um futuro de expansão internacional para a empresa. Ela visualiza a Ucrânia pós-guerra como uma exportadora de produtos de alto valor agregado, buscando superar a imagem histórica de “celeiro do mundo”.
Terekh tem se tornado uma embaixadora da Fire Point no cenário global, participando de feiras e fóruns de defesa para apresentar os avanços tecnológicos da empresa. Há um interesse considerável de países europeus em estabelecer linhas de produção da Fire Point em seus territórios. No entanto, a executiva critica o que chama de “entraves regulatórios europeus”, considerando a burocracia um obstáculo maior à defesa do continente do que as ameaças militares russas.
Um exemplo dessa projeção internacional é a recente instalação de uma estrutura industrial na Dinamarca para a produção de combustível sólido para os mísseis Flamingo. O projeto foi agilizado pelas autoridades dinamarquesas, que removeram mais de 20 obstáculos regulatórios, demonstrando um reconhecimento da importância estratégica e da inovação que a Fire Point representa. A empresa busca replicar esse modelo em outros mercados, enfrentando os desafios burocráticos com resiliência e estratégia.