Lula e Trump: uma relação de altos e baixos em foco antes de novo encontro na Casa Branca
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Donald Trump, que retornará à Casa Branca em janeiro de 2025, têm uma relação complexa e cheia de reviravoltas. O possível encontro entre eles, discutido há meses e adiado em meio a conflitos internacionais, está marcado para esta quinta-feira (7/5), na Casa Branca. A dinâmica entre os dois líderes, que já protagonizaram momentos de aproximação e de forte tensão, será reavaliada em Washington.
Desde o retorno de Trump ao poder em 2025, a relação com o Brasil de Lula tem sido marcada por episódios de tarifação comercial, sanções a autoridades brasileiras, mas também por declarações de “química excelente” e alívio em algumas das medidas restritivas.
A BBC News Brasil apurou, junto a fontes do governo brasileiro, que a nova reunião visa aprofundar os diálogos sobre temas estratégicos para ambos os países, em um cenário de expectativas e cautelas mútuas. Acompanhe um resumo dos principais momentos que definiram a trajetória da relação bilateral.
Tarifaço, sanções a Moraes e a “caça às bruxas” a Bolsonaro
Uma das primeiras grandes tensões na relação bilateral ocorreu em abril de 2025, quando Donald Trump, em sua política de imposição de tarifas comerciais, anunciou uma taxação de 10% sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. A medida, que inicialmente colocou o Brasil em um patamar inferior de taxação entre os países afetados, se intensificou dramaticamente em 30 de julho do mesmo ano.
Nessa data, Trump decretou um “tarifaço” mais severo contra o Brasil, com alíquotas de 40% sobre diversos produtos. O país passou a ser enquadrado em uma lei destinada a casos considerados de “ameaça incomum e extraordinária”, o que permitiu a adoção de sanções mais drásticas. Um dos motivos explicitamente citados pela Casa Branca foi uma suposta “caça às bruxas” promovida pelo Judiciário brasileiro contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em um movimento que chocou o cenário jurídico e diplomático, o pacote de sanções incluiu o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e sua esposa, Viviane Barci de Moraes. A intenção declarada era tentar influenciar o julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Em setembro de 2025, Moraes e sua esposa se tornaram os primeiros brasileiros a serem sancionados pela Lei Magnitsky, uma das ferramentas mais rigorosas dos EUA para punir estrangeiros acusados de graves violações de direitos humanos e corrupção. O Lex-Instituto de Estudos Jurídicos, empresa mantida por Viviane e seus filhos, também foi sancionada. Apesar da pressão, o julgamento de Bolsonaro prosseguiu, culminando em sua condenação à prisão.
“Química excelente”: o reencontro que mudou o tom
Em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, ocorreu um encontro surpreendente entre Lula e Trump. O americano definiu a interação como uma “química excelente”, um sinal positivo que quebrou o gelo da relação, previamente estremecida pelas tarifas e sanções.
Trump elogiou Lula, descrevendo-o como “um homem legal” e destacando a “química excelente” entre eles. “Ele gostou de mim, eu gostei dele, mas… E eu só faço negócios com pessoas de quem gosto, eu não faço [negócios] quando não gosto da pessoa. Quando não gosto, eu não gosto”, declarou Trump na ocasião. Esse diálogo, que contrastou com a tensão pública anterior, marcou o início de um período de troca de elogios mútuos, telefonemas e até um encontro presencial na Malásia.
Em outubro de 2025, Lula brincou sobre a “química” com Trump, afirmando que, em vez de química, o que surgiu foi uma “indústria petroquímica”. Ele detalhou uma das ligações, onde propôs a ambos se tratarem por “você”, sem formalidades, devido à proximidade das idades. A partir desse ponto, os Estados Unidos reduziram algumas tarifas sobre produtos brasileiros, e em dezembro, Alexandre de Moraes e sua esposa foram retirados da lista de sancionados pela Lei Magnitsky.
Divergências persistentes: guerra, sanções e investigações econômicas
Apesar da melhora no tom, as divergências entre Brasil e Estados Unidos não desapareceram. O governo brasileiro, por exemplo, condenou os ataques americanos e israelenses ao Irã, com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) emitindo nota instando as partes a respeitar o Direito Internacional e condenando ações que pudessem ampliar o conflito. Lula também criticou o Conselho da Paz, órgão criado por Trump, que, segundo especialistas, visava substituir a ONU.
Em março deste ano, a administração Trump incluiu o Brasil em uma investigação sobre supostas práticas comerciais irregulares relacionadas a bens produzidos com trabalho forçado, ao lado de outros 59 países e blocos econômicos. Este foi o segundo procedimento do tipo aberto contra o Brasil na área econômica, o primeiro ocorreu em julho de 2025, em meio ao anúncio do tarifaço. A medida pode resultar em novas tarifas sobre exportações brasileiras.
A complexidade da relação se manifestou ainda na possibilidade de os EUA classificarem facções brasileiras como o PCC e o CV como organizações terroristas. Em março, o Departamento de Estado americano declarou que via as facções como ameaças regionais, o que desagradou o governo brasileiro. Brasília argumentou que a designação não teria impacto prático no combate ao crime organizado e que seria mais eficaz ampliar a cooperação policial e de inteligência, focando em rastreamento de recursos, armas e lavagem de dinheiro. O temor brasileiro é que tal classificação possa ser usada politicamente, abrindo brechas para futuras intervenções militares, como as que os EUA realizam em outras regiões do mundo.
Facções brasileiras como terroristas: um ponto de atrito
A potencial classificação de facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas pelos Estados Unidos representou um novo ponto de atrito entre Brasília e Washington. Em março, o Departamento de Estado americano sinalizou que considera essas facções como ameaças de alcance regional, uma posição que não agradou ao governo brasileiro.
O Brasil buscou convencer os americanos a recuar dessa definição. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a discutir o tema com o Secretário de Estado, Marco Rubio. Autoridades brasileiras defenderam que a designação como terroristas não traria benefícios práticos no combate a essas organizações. Em vez disso, argumentaram que seria mais produtivo ampliar a cooperação policial e de inteligência entre os dois países, com foco no rastreamento de fluxos financeiros, circulação de armas e lavagem de dinheiro.
O governo brasileiro sustenta que PCC e CV devem ser tratados como organizações criminosas, e não terroristas. A principal preocupação de Brasília reside no potencial uso político dessa classificação contra o governo brasileiro, especialmente em um ano eleitoral. Além disso, há o temor de que a designação possa abrir precedentes para futuras intervenções militares no Brasil, seguindo um padrão de atuação dos Estados Unidos em outras regiões do mundo, como o Oriente Médio, África e, mais recentemente, a América Latina.
O debate sobre a classificação das facções já vinha sendo travado desde o ano anterior, quando um representante americano visitou o Brasil para discutir o assunto com autoridades locais. No entanto, fontes da BBC News Brasil indicam que até mesmo membros da representação diplomática americana teriam sido surpreendidos pelo aparente avanço das discussões, com a expectativa de que tal designação, se ocorresse, seria apenas para meados do segundo semestre deste ano.
Visto negado a assessor e o caso Ramagem: tensões que persistem
A tensão entre os Estados Unidos e o Brasil demonstrou que nunca se dissipou completamente, como evidenciado em casos recentes. Um deles envolveu a negação de visto a um assessor americano, Darren Beattie, que assumiu um posto de conselheiro no Departamento de Estado para assuntos relacionados ao Brasil. Beattie acumulava, nas redes sociais, declarações críticas ao julgamento de Bolsonaro e ao ministro Alexandre de Moraes, classificando este último como figura central de um suposto sistema de censura e perseguição ao ex-presidente brasileiro.
A crise se agravou em março deste ano, quando advogados de Bolsonaro solicitaram ao STF autorização para que Beattie o visitasse na prisão. A visita havia sido comunicada oficialmente pela embaixada dos EUA em Brasília apenas em relação a uma conferência sobre minerais críticos e reuniões com representantes do governo brasileiro. O pedido de visita ao ex-presidente foi interpretado pelo Itamaraty como uma possível ingerência em assuntos internos do Brasil. Em 12 de março, Alexandre de Moraes revogou a autorização para a visita.
No dia seguinte, Lula comentou o episódio publicamente: “Aquele cara americano que disse que vinha aqui visitar o Jair Bolsonaro foi proibido de visitar, e eu o proibi de vir ao Brasil até que eles liberem o visto do meu ministro da Saúde”. Um interlocutor do governo brasileiro afirmou à BBC News Brasil que a tentativa de Beattie de visitar Bolsonaro foi vista como uma provocação, embora tenha ponderado que ainda não há elementos para concluir que o alto comando da diplomacia americana tivesse conhecimento prévio do plano.
O episódio mais recente de ruído entre os dois países ocorreu com a prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) dos EUA. Ramagem, condenado a 16 anos de prisão pelo STF na mesma ação penal que condenou Bolsonaro, vivia nos Estados Unidos desde o ano passado, sendo considerado foragido pela Justiça brasileira. Ele teria fugido do Brasil pela divisa com a Guiana, de onde pegou um voo para os EUA.
Ramagem foi solto dois dias após sua detenção, após forte pressão da ala bolsonarista junto ao governo americano. Uma semana depois, o governo americano solicitou ao Brasil que o oficial de ligação da Polícia Federal na Flórida, delegado Marcelo Ivo de Carvalho, deixasse o país, alegando que sua atuação na detenção do ex-deputado foi uma tentativa de “manipular” o sistema de imigração dos Estados Unidos. O caso levou autoridades americanas a apurar internamente as circunstâncias da prisão e a cooperação entre as polícias, com dúvidas se o alto comando do ICE, do Departamento de Segurança Interna e do Departamento de Estado tinham conhecimento da operação citada pela PF. A Polícia Federal, por sua vez, afirmou que a cooperação internacional visava localizar e prender um foragido com pedido ativo de extradição, mas não foi informada oficialmente sobre os motivos da soltura de Ramagem.