Machismo, Violência e Futebol: Um Retrato do Brasil Pré-Copa Feminina 2027
Uma pesquisa recente, realizada em junho de 2026, revela um cenário complexo e preocupante para o futebol brasileiro, especialmente a um ano da realização da Copa do Mundo Feminina no país. A maioria dos brasileiros reconhece a persistência do machismo no esporte e a ligação entre dias de jogos e o aumento da violência contra a mulher. O levantamento, conduzido pela Hibou Pesquisas e Insights em parceria com a plataforma Red é de Sangue, com apoio da HeForShe e do Sindilegis, ouviu 1.120 pessoas maiores de 18 anos.
Os dados mostram que, embora a maior parte da população discorde da ideia de que “futebol é coisa de homem”, essa percepção muda entre o público masculino. Além disso, quase oito em cada dez entrevistados já conheciam ou não se surpreendiam com estudos que indicam um aumento da violência doméstica em dias de partidas, apontando para uma conscientização sobre o problema, mas também para sua gravidade.
O estudo detalha as disparidades de gênero na percepção de questões como o machismo estrutural, o tratamento dado a árbitras e jogadoras, e a credibilidade de mulheres no universo do futebol. As informações foram divulgadas em junho de 2026 e trazem um panorama essencial para discussões sobre igualdade e segurança no esporte.
Desconstruindo Mitos: O Futebol Não é Exclusivo de Homens, Mas a Percepção Masculina Persiste
A pesquisa evidencia um avanço na conscientização geral sobre a igualdade de gênero no futebol. Enquanto 86% dos brasileiros discordam da afirmação de que “futebol é coisa de homem”, esse índice cai para 65% quando a pergunta é direcionada especificamente aos homens. Essa disparidade sugere que, apesar do reconhecimento geral da inclusão, barreiras de mentalidade ainda são significativas entre o público masculino.
Da mesma forma, a ideia de que o lugar da mulher é apenas na torcida é amplamente rejeitada pela maioria (91%), mas novamente, o percentual de concordância ou neutralidade é maior entre os homens. Essa resistência em aceitar a plena participação feminina em todas as esferas do esporte, seja como jogadoras, árbitras, comentaristas ou torcedoras ativas, é um reflexo direto do machismo estrutural.
Um ponto crucial destacado pela pesquisa é a inaceitabilidade de um jogador questionar uma árbitra com base em seu gênero. No entanto, mesmo nesse cenário, a percepção masculina difere: 85% de todos os entrevistados consideram totalmente inaceitável tal atitude, enquanto entre os homens, esse percentual cai para 77%. Isso indica que a tolerância a comportamentos machistas, mesmo que em menor grau, ainda existe em parte do público masculino.
O Impacto dos Dias de Jogo: Violência Doméstica e o Papel do Álcool e da Misoginia
Um dos dados mais alarmantes da pesquisa é que 79% dos entrevistados já conhecem ou não se surpreendem com estudos que apontam o aumento da violência contra a mulher em dias de jogos de futebol. Apenas 19% afirmaram ter se surpreendido com essa informação, o que denota uma percepção generalizada sobre essa correlação negativa.
Questionados sobre os fatores que poderiam explicar esse aumento alarmante da violência, o consumo excessivo de álcool foi citado por 71% dos participantes como o principal motivo. Em seguida, aparecem a falta de educação e respeito (57%) e a misoginia estrutural (53%). Esses fatores, quando interligados, criam um ambiente propício para a manifestação de comportamentos violentos.
No entanto, uma diferença gritante surge na análise das respostas dos homens: apenas 26% associaram o problema ao machismo estrutural. Essa baixa percepção entre o público masculino sobre o papel da misoginia como um dos pilares da violência em dias de jogo é um indicativo da necessidade de programas de conscientização e educação focados nesse grupo, a fim de desconstruir preconceitos arraigados.
Interesse Limitado pelo Futebol Feminino Apesar da Proximidade da Copa
Apesar de o Brasil se preparar para sediar a Copa do Mundo Feminina em 2027, o interesse do público pela modalidade ainda se mostra restrito. A pesquisa revela que apenas 2% dos entrevistados acompanham regularmente o futebol feminino. Outros 22% assistem de vez em quando, 21% raramente, e 27% afirmam não acompanhar.
Um dado preocupante é que 29% dos brasileiros declararam não assistir nem ao futebol feminino nem ao masculino, indicando um desinteresse geral pelo esporte ou por modalidades específicas. Entre os homens, o percentual de acompanhamento regular do futebol feminino sobe para 7%, mas ainda assim, um terço desse público afirma não acompanhar a modalidade.
Apesar desse baixo engajamento, uma parcela significativa da população (68%) concorda, total ou parcialmente, que o futebol feminino é frequentemente desvalorizado por preconceito de gênero no Brasil. Isso demonstra que, mesmo quem não acompanha ativamente, reconhece as dificuldades e a discriminação enfrentadas pelas atletas e pela modalidade.
Árbitras, Narradoras e Torcedoras: Resistência e Desvalorização no Universo Futebolístico
A pesquisa detalha como mulheres que ocupam espaços tradicionalmente masculinos no futebol ainda enfrentam um tratamento diferenciado e mais resistente. Noventa por cento dos brasileiros concordam que árbitras sofrem mais pressão e desrespeito do que seus colegas homens. Contudo, entre os homens, esse reconhecimento cai para 70%, evidenciando uma menor percepção da hostilidade enfrentada por elas.
Outro ponto de atenção é a credibilidade. 79% dos entrevistados afirmam que homens costumam questionar mais o conhecimento de futebol de mulheres do que o de outros homens. Além disso, 58% acreditam que elas precisam provar seu entendimento do esporte para serem levadas a sério como torcedoras. Essa necessidade de validação constante é um reflexo direto do machismo que permeia o ambiente esportivo.
Mesmo com 56% concordando que mulheres entendem de futebol tanto quanto homens, a confiança em comentários esportivos feitos por mulheres ainda é menor. Quatorze por cento dos entrevistados afirmam confiar mais em comentaristas homens, índice que salta para 25% entre o público masculino. Essa desconfiança se estende às narradoras esportivas, com 70% dos brasileiros acreditando que parte da rejeição a elas está ligada ao machismo.
O Papel do Machismo Estrutural na Desvalorização do Esporte Feminino
A pesquisa da Hibou Pesquisas e Insights lança luz sobre o impacto do machismo estrutural na percepção e no desenvolvimento do futebol feminino. A disparidade de gênero é evidente em diversas respostas, indicando que as visões sobre igualdade ainda estão em construção, especialmente entre os homens.
O fato de apenas 26% dos homens associarem o aumento da violência em dias de jogo ao machismo estrutural é um dado que exige atenção. Essa desconexão pode ser um fator que perpetua o ciclo de violência, pois sem o reconhecimento da causa raiz, as soluções tendem a ser superficiais.
A desvalorização do futebol feminino, reconhecida por 68% dos entrevistados, é um sintoma direto desse machismo estrutural. Desde a cobertura midiática limitada até a menor remuneração e o tratamento diferenciado em competições, as jogadoras enfrentam barreiras que vão além do campo de jogo.
Desafios e Oportunidades para a Copa do Mundo Feminina de 2027
A proximidade da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil coloca em evidência a necessidade urgente de combater o machismo no futebol e promover a igualdade de gênero. Os dados da pesquisa servem como um alerta e um chamado à ação para que o evento seja um marco na transformação cultural do esporte no país.
É fundamental que haja um esforço conjunto de federações, clubes, patrocinadores, mídia e torcedores para criar um ambiente mais inclusivo e seguro. Investir na base do futebol feminino, aumentar a visibilidade das competições e combater ativamente o preconceito são passos essenciais.
A pesquisa sugere que, embora haja um reconhecimento geral da existência do machismo, a profundidade da compreensão e a disposição para combatê-lo variam significativamente entre os gêneros. Trabalhar para mudar essa percepção, especialmente entre o público masculino, será crucial para que o legado da Copa de 2027 seja de progresso real e duradouro.
A Necessidade de Educação e Conscientização Contínuas
Os resultados da pesquisa sublinham a importância de programas contínuos de educação e conscientização sobre igualdade de gênero e combate à violência. A associação do aumento da violência doméstica com o consumo excessivo de álcool, a falta de educação e respeito, e a misoginia estrutural, aponta para a necessidade de abordagens multifacetadas.
Em especial, as diferenças nas respostas entre homens e mulheres sobre o papel do machismo estrutural na violência em dias de jogo indicam a urgência de campanhas direcionadas ao público masculino, que promovam a reflexão sobre comportamentos e atitudes machistas.
A pesquisa também revela que, apesar de a maioria discordar de afirmações machistas, a aceitação de comportamentos discriminatórios, como questionamentos à autoridade de árbitras com base em gênero, ainda é uma realidade para uma parcela da população. Isso reforça a ideia de que a mudança cultural é um processo gradual que exige persistência e diálogo.
O Futuro do Futebol Brasileiro: Um Caminho por Igualdade e Respeito
A Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil representa uma oportunidade ímpar para impulsionar o futebol feminino e, ao mesmo tempo, promover uma reflexão profunda sobre as questões de gênero no esporte. Os dados coletados pela Hibou Pesquisas e Insights indicam que o caminho para a igualdade ainda é longo, mas o reconhecimento dos problemas é o primeiro passo para a solução.
É preciso que a sociedade brasileira, incluindo os homens, assuma um papel ativo na desconstrução do machismo que ainda permeia o futebol. Isso envolve desde a educação nas escolas e famílias até a criação de políticas mais eficazes de combate à violência e discriminação no ambiente esportivo.
A esperança reside na crescente conscientização e no desejo de mudança que a pesquisa também revela. Ao abordar de frente o machismo, a violência e a desvalorização do esporte feminino, o Brasil pode, a partir de agora, construir um futuro onde o futebol seja, de fato, para todos, com igualdade, respeito e segurança.