O esquecido massacre de Pinheirinho: um conflito entre messianismo, terra e violência no RS
Em maio de 1902, o Vale do Alto Taquari, no Rio Grande do Sul, foi palco de um episódio brutal que viria a ser conhecido como a Guerra de Pinheirinho. O que começou como um confronto entre um grupo de seguidores de um líder religioso messiânico e as autoridades locais, culminou em um massacre com pelo menos 28 mortos, um evento que, apesar de suas cicatrizes profundas, caiu no esquecimento popular, sendo resgatado principalmente por trabalhos historiográficos.
O conflito foi alimentado por uma complexa teia de fatores, que incluíam o medo do desconhecido, preconceito religioso contra um movimento que pregava uma visão alternativa do cristianismo e uma resposta policial desproporcional e violenta. A história, que poderia ter sido escrita com mais detalhes pela sociedade da época, foi em grande parte preservada pelo trabalho do historiador local Gino Ferri, que a partir da década de 1960 entrevistou os poucos participantes ainda vivos.
A narrativa da Guerra de Pinheirinho revela as tensões sociais e fundiárias do início do século XX no Rio Grande do Sul, onde a Lei de Terras de 1850 dificultava o acesso à propriedade para posseiros tradicionais e populações marginalizadas, abrindo caminho para a consolidação de latifúndios e projetos de colonização. Conforme informações divulgadas em reportagens sobre o caso.
As origens do movimento messiânico e a figura do “Monge”
Tudo teve início com a chegada de um grupo de cerca de 60 pessoas, incluindo mulheres e crianças, que se estabeleceram em terras sem dono às margens do rio Taquari, na região que hoje pertence a Roca Sales. Estes indivíduos, descritos como “desgarrados” e vivendo em condições precárias, praticavam rezas e curandeirismo, práticas comuns em comunidades com acesso limitado a serviços de saúde. A fama do grupo e de seu líder, um homem conhecido como João Francisco Maria de Jesus, ou simplesmente “Monge”, cresceu, atraindo até duas centenas de pessoas das redondezas, muitos deles agricultores e viajantes.
O “Monge” era um curandeiro andarilho, de temperamento agressivo, que pregava uma “guerra santa” e profetizava um futuro de prosperidade para seus seguidores. Sua visão messiânica incluía a promessa de ressurreição para aqueles que defendessem suas ideias. Sua trajetória, no entanto, é marcada pela marginalização e pela desconfiança das autoridades e dos colonos. Nove anos antes do massacre, ele havia escapado de um linchamento em 1893, um episódio violento que resultou na morte de cinco pessoas.
A origem exata de João Francisco Maria de Jesus é desconhecida, mas há indícios de que ele nutria um forte ressentimento contra autoridades e colonos. Em sua fuga de canoa após o linchamento, foi auxiliado por João Enéias, um mateiro que vivia à beira do Taquari. Por volta de 1900, Enéias ajudou o “Monge” a se estabelecer em Pinheirinho, onde ele passou a ser chamado também de São João Maria. Este nome, aliás, era recorrente em outros movimentos messiânicos no Brasil, como na Revolta dos Muckers, Canudos e na Guerra do Contestado, indicando um padrão de liderança religiosa em contextos de exclusão social.
Práticas religiosas, curandeirismo e pequenos furtos: a vida em Pinheirinho
Os seguidores do “Monge”, apelidados de “monges”, viviam de forma comunitária, praticando curas e benzeduras. João Enéias, o mateiro, era visto como um “apóstolo” e colaborava com o líder em suas demonstrações de “milagres”, como pescar peixes previamente amarrados em uma linha submersa. Essas práticas, embora pudessem parecer fraudulentas para alguns, eram uma forma de subsistência e esperança para uma população empobrecida e com poucas alternativas.
A vida no acampamento era precária, e os “monges”, muitos deles caboclos e ex-escravizados que foram expulsos de suas terras após a Lei de Terras de 1850, ocasionalmente recorriam a pequenos furtos de ferramentas e mantimentos. Esses atos, somados à sua forma de vida e crenças distintas, geravam desconfiança e medo entre os colonos e as autoridades locais, que os viam como uma ameaça à ordem estabelecida.
A historiadora Mircele Giaretta aponta que a Lei de Terras de 1850 foi um fator crucial na criação desse cenário de conflito. Ao dificultar a legalização fundiária para posseiros tradicionais, a lei contribuiu para o desalojamento dessas populações, que acabaram se concentrando em áreas de menor valor ou sem dono, como a de Pinheirinho, aumentando a tensão com os proprietários de terra e as autoridades.
O estopim do conflito: a chegada da polícia e a batalha
O clima de apreensão aumentou com a chegada do inverno e os rumores de que os habitantes de Pinheirinho planejavam saquear mercados e comércios. Diante da falta de policiais em Encantado, onde residiam cerca de 300 famílias, dois subdelegados, um sargento e nove voluntários foram enviados para investigar a situação. A missão, que deveria ser de reconhecimento, rapidamente se transformou em um confronto.
Na manhã de 4 de maio de 1902, a comitiva policial cruzou o rio em direção ao acampamento. Ao serem confrontados pelo subdelegado Napoleão Maiolli, o “Monge Chico” reagiu com agressividade, empunhando uma garrucha e um facão. Após uma troca de palavras acalorada, Maiolli tentou dar voz de prisão ao líder religioso. O “Monge”, no entanto, proferiu ameaças e, antes que pudesse ser contido, disparou contra o subdelegado, que foi salvo pela intervenção do sargento Vispo. O confronto se intensificou com a saída de dezenas de seguidores armados de porretes e facas.
O grito do “Monge” – “Matai os demônios” – ecoou na mata, e o que seria uma contenção se tornou uma batalha desigual. Devido a falhas em algumas armas da patrulha, a proporção de combatentes era de três “monges” para cada policial. O resultado foi trágico: dois colonos, Eduardo Satler e João Lucca, foram mortos, assim como dois seguidores do “Monge”. Diversas pessoas ficaram feridas de ambos os lados, incluindo Guerino, irmão de João Lucca, que foi esfaqueado e dado como morto, mas sobreviveu por um golpe de sorte.
A reação oficial: repressão implacável e o massacre final
Com os sobreviventes e os corpos retirados no dia seguinte, as autoridades em Porto Alegre foram alertadas. O presidente do Estado, Borges de Medeiros, determinou o envio de 100 policiais sob o comando do major Juvêncio Maximiliano Lemos, com a missão declarada de “liquidar com os fanáticos e fazer voltar a paz à região”.
Em vez de fugir, o “Monge Chico” e cerca de 70 seguidores se refugiaram em uma gruta próxima, onde esperavam resistir ao cerco policial. Apesar do terreno favorável e do frio, a falta de armas e munições era crítica. O ataque final ocorreu em 22 de maio, após dias de cerco. A polícia subiu o morro em duas colunas, abrindo fogo contra as precárias cabanas. Sete seguidores saíram sem resistência, aparentando desnutrição. No interior da gruta, João Francisco Maria de Jesus foi encontrado morto, ao lado de outros corpos.
Foram enterrados 22 “monges” na mata, incluindo Cananea, esposa de João Enéias, que havia desaparecido. Cananea foi alvejada pelas costas, tornando-se a última vítima direta do confronto. João Enéias, por sua vez, fugiu para Arvorezinha, onde se instalou, ironicamente, anos depois, o hoteleiro ferido João Ferri se mudaria para o mesmo local, gerando uma inimizade que durou até a morte do mateiro.
Os fugitivos e as crianças sobreviventes: marcas da guerra
Quatro outros fugitivos foram localizados e abatidos em diferentes pontos da região. Pelo menos dez adultos e crianças conseguiram se esconder nas matas por dias, enfrentando privações extremas enquanto aguardavam a retirada das tropas. Entre eles estava Manuel Lisboa, então com 12 anos, filho de Luiz Lisboa, um dos seguidores do “Monge”. Manuel e seu pai foram forçados a comer o couro de arreios de cavalo cozido para aplacar a fome, numa tentativa desesperada de preservar o animal, essencial para o trabalho.
Enquanto isso, os soldados eram elogiados pelo comando. Os registros oficiais indicam que foram disparados 1.560 tiros de fuzil, uma média de 70 disparos para cada revoltoso eliminado, o que demonstra a intensidade da repressão. Os sobreviventes se dispersaram discretamente pela região, buscando deixar o passado para trás. Manuel Lisboa, após uma vida de andanças, se estabeleceu em Encantado, vivendo na pobreza e transmitindo a memória do sofrimento aos seus filhos.
Olavo Lisboa, filho de Manuel, aos 74 anos, é um dos poucos descendentes que fala abertamente sobre o massacre. Ele guarda a lembrança da penúria vivida pelo pai, que era apenas uma criança durante o conflito. “Meu pai sofreu muito. Era uma criança”, relata Olavo, evidenciando as cicatrizes emocionais deixadas pelo evento traumático.
Análise histórica: Lei de Terras, preconceito e o vazio do poder
Para os colonizadores da época, a Guerra de Pinheirinho foi vista como um ato de resistência das forças da ordem contra um grupo de fanáticos. No entanto, historiadores como Luís Fernando Laroque, da Univates, argumentam que a religião desempenhou um papel fundamental, embora muitas vezes subestimado. Em uma sociedade profundamente católica, o surgimento de messianismos populares após o fim do Império era visto como uma ameaça à transição de poder e à ordem social estabelecida, algo semelhante ao que ocorreu em outros movimentos como Canudos.
Maria Lisane Machado, em sua dissertação “Monges de Pinheirinho – A outra face”, baseada em relatos de sua avó, oferece uma perspectiva direta: os monges “não eram perigosos, eles na verdade eram falsários, que se diziam poderosos curadores de doenças que dificilmente seriam curadas, dada a dificuldade da medicina na época”. Essa visão sugere que o movimento, embora visto como uma ameaça, era, em essência, uma manifestação de esperança e resistência de uma população marginalizada, buscando alívio para suas mazelas em um contexto de poucas alternativas médicas e sociais.
A Guerra de Pinheirinho, portanto, transcende um simples confronto entre autoridades e um grupo religioso. É um reflexo das complexas dinâmicas sociais, econômicas e políticas do Brasil no início do século XX, onde a disputa por terra, o preconceito contra crenças não ortodoxas e a violência estatal se entrelaçaram para criar um episódio trágico que, apesar de seu peso histórico, permanece adormecido na memória coletiva.