Norte e Nordeste sofrem com grave carência de psicólogos no SUS, revelam dados inéditos

O Brasil enfrenta uma disparidade alarmante na oferta de atendimento psicológico pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com as regiões Norte e Nordeste apresentando as piores proporções de psicólogos por habitante. Enquanto o país conta com mais de 600 mil profissionais registrados em Conselhos Regionais de Psicologia, uma parcela significativamente menor atua na rede pública, especialmente nas áreas mais necessitadas.

Um levantamento inédito realizado pela CNN Brasil, com base em dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), expõe a dura realidade: estados como Pará, Amazonas e Maranhão possuem um profissional de saúde mental para milhares de cidadãos, contrastando fortemente com a situação em estados do Sul e Sudeste.

Essa carência agrava o quadro de sofrimento psíquico crescente no país, especialmente após a pandemia de Covid-19, e levanta debates urgentes sobre a necessidade de expandir e fortalecer a presença da psicologia no SUS como uma questão de saúde pública essencial. Conforme informações divulgadas pela CNN Brasil.

Desigualdade Regional: Norte e Nordeste na Lanterna da Saúde Mental Pública

A análise dos dados revela um cenário preocupante: o Pará lidera a lista de estados com a menor oferta de psicólogos no SUS, apresentando um profissional para cada 5.769 habitantes. O Amazonas segue de perto, com um psicólogo para aproximadamente 5.724 pessoas, e o Maranhão registra um para cada 4.476 habitantes. Essas proporções são significativamente inferiores à média nacional e contrastam drasticamente com estados do Sul e Sudeste.

Em contraponto, Santa Catarina dispõe de um psicólogo do SUS para cerca de 2.482 habitantes, Minas Gerais para 2.557, e o Rio Grande do Sul para aproximadamente 2.646 pessoas. Essa distribuição desigual sugere que as populações das regiões Norte e Nordeste, que frequentemente enfrentam maiores vulnerabilidades socioeconômicas, são as que menos têm acesso a um direito fundamental: a saúde mental.

O levantamento ainda destaca que, nos estados com menor número de psicólogos no SUS, há um número considerável de profissionais registrados nos Conselhos Regionais. No Pará, por exemplo, são mais de 9 mil psicólogos ativos, um para cada 943 habitantes, e no Amazonas, mais de 6 mil, um para cada 634. Essa discrepância evidencia que o problema não é a falta de profissionais no país, mas sim a sua baixa vinculação e concentração na rede pública de saúde, especialmente nas regiões mais carentes.

O Ranking da Precariedade: Dez Piores Estados em Acesso à Psicologia no SUS

A CNN Brasil compilou um ranking dos dez estados com a pior relação entre psicólogos do SUS e habitantes. O resultado é um retrato contundente da desigualdade: oito dos dez estados listados pertencem às regiões Norte e Nordeste. São eles:

  • Pará — 1 psicólogo do SUS para 5.769 habitantes
  • Amazonas — 1 psicólogo do SUS para 5.724 habitantes
  • Distrito Federal — 1 psicólogo do SUS para 5.167 habitantes
  • Acre — 1 psicólogo do SUS para 4.559 habitantes
  • Maranhão — 1 psicólogo do SUS para 4.476 habitantes
  • Ceará — 1 psicólogo do SUS para 4.055 habitantes
  • Bahia — 1 psicólogo do SUS para 4.030 habitantes
  • Rondônia — 1 psicólogo do SUS para 3.991 habitantes
  • Mato Grosso — 1 psicólogo do SUS para 3.817 habitantes
  • Roraima — 1 psicólogo do SUS para 3.731 habitantes

Essa lista reforça a urgência de políticas públicas voltadas para a interiorização e a expansão da oferta de serviços de saúde mental nas regiões mais vulneráveis do país, garantindo que todos os cidadãos tenham acesso a esse cuidado essencial.

Por Que a Psicologia no SUS é Crucial e Como a Carência Afeta a População

Ana Carolina Freire, conselheira federal do Conselho Federal de Psicologia (CFP), explica que a disparidade nos dados ocorre porque a maioria dos psicólogos no Brasil atua na psicologia clínica privada. Segundo o último censo do CFP, cerca de 70% dos profissionais trabalham nessa área, muitos conciliando consultórios particulares com vínculos em políticas públicas. Essa concentração na iniciativa privada, embora legítima, deixa um vácuo na oferta pública.

A conselheira ressalta que, diante do aumento expressivo do sofrimento psíquico, especialmente após a pandemia da Covid-19, é imperativo ampliar a presença da psicologia no SUS. “Temos diversos dados que vão trazer como o sofrimento mental tem aumentado no país, especialmente depois da pandemia da Covid-19. Nesse cenário, para fortalecer a presença da psicologia no sistema público de saúde, percebemos que não é um luxo, nem um gasto, é uma necessidade sanitária”, afirma Freire.

A especialista enfatiza que fortalecer a psicologia na atenção primária à saúde pode prevenir o agravamento de quadros de saúde mental, reduzir a necessidade de encaminhamentos para especialistas e diminuir internações desnecessárias. Equipes completas em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) conseguem desenvolver projetos terapêuticos eficazes, trabalhar com famílias e realizar atendimentos em grupo. Em contrapartida, a falta de profissionais favorece a medicalização excessiva e encaminhamentos indiscriminados, segundo o CFP.

Precarização do Trabalho e Falta de Políticas Nacionais Afastam Psicólogos do SUS

Além da distribuição geográfica, a conselheira Ana Carolina Freire aponta a precarização do trabalho na rede pública como um fator crucial para a escassez de psicólogos no SUS. A ausência de uma carga horária de trabalho nacionalmente estabelecida de 30 horas, a falta de um piso salarial nacional e a instabilidade de vínculos empregatícios contribuem para que muitos profissionais optem por atuar na esfera privada.

“Hoje, para os profissionais de psicologia, não existe uma carga horária de trabalho de 30 horas estabelecida. Alguns estados e municípios têm essas 30 horas estabelecidas, mas ainda não têm uma lei nacional que determine essas 30 horas. Não há um piso salarial para o psicólogo e isso vai também afastando essa força de trabalho das políticas públicas”, explica Freire.

Essas condições de trabalho desfavoráveis, combinadas com a falta de reconhecimento e remuneração adequadas, desestimulam a entrada e a permanência de psicólogos em cargos públicos, perpetuando o ciclo de escassez, especialmente nas regiões com maiores dificuldades de acesso.

Terapia Online: Uma Alternativa em Expansão Diante da Escassez Presencial

Diante das dificuldades de acesso ao atendimento psicológico presencial no SUS, a terapia online tem se consolidado como uma alternativa importante. Caroline Macarini, fundadora da plataforma Unolife, relata um aumento superior a 70% na procura por atendimentos psicológicos entre 2023 e 2025. Nas regiões Norte e Nordeste, esse crescimento chegou a 77%, indicando uma busca ativa por soluções diante da menor disponibilidade de profissionais.

Macarini destaca que o atendimento remoto amplia o alcance dos pacientes, reduz custos para usuários e profissionais e possibilita que pessoas que antes não podiam arcar com os custos da psicoterapia tenham acesso ao serviço. A modalidade online é regulamentada pelo CFP e considerada um recurso valioso, embora não substitua integralmente a oferta presencial.

No entanto, a conselheira Ana Carolina Freire aponta limitações importantes para o atendimento online, especialmente em territórios indígenas, quilombolas e comunidades isoladas, onde o acesso à internet é restrito e o vínculo terapêutico mediado por telas pode não ser o ideal. Assim, a expansão do atendimento remoto, embora positiva, não resolve as profundas desigualdades na oferta de assistência psicológica no país.

O Papel dos CAPS e o Crescimento da Demanda por Saúde Mental

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) desempenham um papel fundamental na rede de saúde mental do SUS. Entre 2015 e 2025, o número de atendimentos realizados pelos CAPS no Brasil mais que dobrou, passando de 13,8 milhões para 28,4 milhões, um crescimento de aproximadamente 106%. Essa expansão ocorreu em todas as regiões, mas com ritmos diferentes.

O Norte apresentou uma expansão expressiva, saltando de 467,9 mil atendimentos em 2015 para 1,64 milhão em 2025. O Nordeste também mais que dobrou o número de atendimentos no período, com um crescimento de cerca de 104%, passando de 3,63 milhões em 2015 para 7,4 milhões em 2025. Apesar do crescimento, a demanda continua alta, e a escassez de profissionais nas regiões mais afetadas limita o pleno atendimento.

Lucas Modesto, psicólogo do CAPS Amazônia, no Pará, enfatiza o poder transformador do atendimento oferecido no SUS. “A psicologia no SUS tem o poder de deselitizar e atender um público que está em situação de sofrimento psíquico grave. O nosso atendimento visa a humanização, tornando aquela pessoa sujeito, para que assim a pessoa possa gozar de direitos e ter um fortalecimento da saúde mental”, destaca Modesto, ressaltando que a saúde mental é indissociável da cidadania.

O Que Diz o Ministério da Saúde e as Iniciativas para Ampliar o Acesso

Em resposta à reportagem, o Ministério da Saúde informou que tem trabalhado para ampliar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e fortalecer o acesso ao cuidado em saúde mental em todo o Brasil. Entre 2023 e julho de 2026, foram habilitados 867 novos serviços, elevando para 6.488 o número total de pontos de atenção. Atualmente, existem 6,2 mil equipes multiprofissionais no SUS, incluindo psiquiatras e psicólogos.

O SUS também oferece teleatendimentos mensais para questões como problemas com jogos e apostas, violência contra mulheres e para jovens de 13 a 24 anos, acessíveis pelo aplicativo Meu SUS Digital. O Ministério busca, com essas iniciativas, cobrir lacunas e oferecer suporte em diversas frentes, embora a efetividade e o alcance dessas medidas nas regiões mais críticas ainda sejam um desafio.

Respostas Estaduais e a Complexidade da Gestão da Saúde Mental

Em resposta à reportagem, alguns estados apresentaram suas perspectivas. O Pará destacou que busca ampliar e qualificar a assistência em saúde mental, considerando as particularidades territoriais. O Distrito Federal informou que conta com psicólogos em todos os níveis de atenção da rede pública. O Maranhão ressaltou a gestão tripartite da RAPS, com responsabilidades compartilhadas entre União, Estados e Municípios, e afirmou que a rede estadual conta com 500 psicólogos.

A Bahia mencionou o investimento de mais de R$ 23 milhões em ações de fortalecimento da RAPS entre 2024 e 2026. Mato Grosso possui 46 CAPS distribuídos em diversas modalidades, a maioria gerenciada pelos municípios. Roraima informou contar com 147 psicólogos na rede estadual, reconhecendo a distribuição de profissionais como um desafio, especialmente em áreas remotas, e destacando o uso de ferramentas digitais como estratégia complementar.

Apesar das iniciativas, a análise da suficiência da oferta de profissionais em cada estado deve considerar a distribuição territorial, carga horária, perfil da demanda e organização da rede, fatores que complexificam a garantia do acesso equitativo à saúde mental no país.

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