Novos indícios conectam número de telefone de Alexandre de Moraes a contas digitais e família
Um número de telefone, que já havia sido identificado pela CPMI do INSS em março como vinculado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, ganhou novos contornos. Relatório da Polícia Federal (PF), divulgado nesta semana, aponta que a mesma linha telefônica aparece associada a contas digitais em nome do ministro Alexandre de Moraes, além de perfis ligados a sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e a uma de suas filhas.
Essa convergência de dados, que cruza informações de diferentes investigações e verificações independentes, reforça as evidências de que a linha era de fato utilizada por Alexandre de Moraes. A descoberta inicial pela CPMI não conseguiu identificar o usuário específico, mas a atual apuração da PF, com base em dados do celular de Vorcaro, traz mais detalhes sobre a titularidade e o uso do número.
As novas revelações intensificam o debate sobre a linha telefônica, com o senador Carlos Viana, presidente da CPMI do INSS, já cobrando novos esclarecimentos do STF. A situação ganha destaque diante das conversas reveladas entre Vorcaro e o contato salvo como “Alexandre de Moraes”, que tratavam de assuntos sensíveis como pagamentos de contratos e investigações judiciais. A fonte original dessas informações são os relatórios da Polícia Federal e verificações independentes realizadas pela BBC News Brasil.
O primeiro rastro: telefone vinculado ao STF e a CPMI do INSS
A história deste número de telefone começou a se desenrolar durante a investigação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. A comissão, que apurava fraudes no pagamento de aposentadorias e pensões, direcionou sua atenção para Daniel Vorcaro devido ao envolvimento do Banco Master no mercado de crédito consignado para beneficiários da Previdência.
Após a quebra do sigilo telemático do banqueiro, parlamentares encontraram registros telefônicos associados ao nome de Moraes. Diante disso, a CPMI buscou identificar o titular da linha junto às operadoras. Em 19 de março, o presidente da comissão, senador Carlos Viana, anunciou que o número estava vinculado ao Supremo Tribunal Federal, conforme informações obtidas via Sistema de Investigação de Registros Telefônicos e Telemáticos (Sittel).
Naquela ocasião, o senador ressaltou que o dado não permitia determinar qual autoridade específica utilizava a linha. No entanto, segundo o site SBT News, o documento do Sittel indicava que a linha havia sido ativada em 22 de fevereiro de 2017, data em que Alexandre de Moraes foi sabatinado e aprovado pelo Senado para assumir uma vaga no STF. O STF, procurado à época, não confirmou o vínculo do telefone com o ministro, e o gabinete de Moraes divulgou nota negando que mensagens apreendidas tivessem sido enviadas ao ministro.
Relatório da PF: conversas com “Alexandre de Moraes BRASILIA” e o papel de Fábio Faria
O relatório da Polícia Federal, tornado público nesta semana, trouxe um novo capítulo para a investigação, atribuindo mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro a um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, além de outros registros como “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. A PF não confirma explicitamente ter validado a linha com a operadora, mas as evidências compiladas são significativas.
Segundo a PF, os contatos foram compartilhados com Vorcaro pelo ex-ministro Fábio Faria, do governo Jair Bolsonaro, em uma conversa no WhatsApp em dezembro de 2023. Essa troca de informações adiciona uma camada de complexidade ao caso, sugerindo uma possível intermediação na comunicação entre Vorcaro e o contato atribuído ao ministro.
Os diálogos recuperados do aparelho de Vorcaro, que foi o único celular apreendido, revelam que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, comandado pela esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. A PF detalha que Vorcaro teria tratado com esse contato informações sobre a Operação Compliance Zero, que investiga fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, e também sobre medidas que poderiam afetar sua prisão preventiva.
Verificação independente: número associado a contas de Moraes, esposa e filha
A BBC News Brasil realizou uma verificação independente que aprofundou a ligação do número de telefone com Alexandre de Moraes e sua família. Ao consultar a plataforma OSINT Industries, especializada em inteligência de fontes abertas, o número foi associado a um perfil no TikTok identificado como “Xandao”. Essa conta, criada em 2024, exibia pouca atividade, com apenas três seguidores, incluindo perfis possivelmente ligados à esposa do ministro, Vi Barci, e a uma de suas filhas.
Nathaniel Fried, CEO da Osint Industries, destacou que as ferramentas da empresa operam inteiramente com dados públicos e em tempo real, coletando informações que os próprios usuários optam por compartilhar abertamente. Essa metodologia reforça a credibilidade das associações encontradas, pois se baseiam em dados voluntariamente disponibilizados.
Uma segunda verificação da BBC confirmou que a conta Vi Barci no TikTok está vinculada ao mesmo número de telefone atribuído a Viviane Barci no relatório da PF. Esse número também funciona como chave Pix para a Barci de Moraes Sociedade de Advogados, escritório do qual Viviane é sócia. Além disso, o telefone atribuído a Alexandre de Moraes apareceu associado ao nome “Min Alexandre de Moraes” em diversos serviços de identificação e busca reversa de números, como SimplerMe, Calling App e Truecaller, que compilam informações compartilhadas por usuários.
O contrato de R$ 131 milhões e a pressão por pagamentos
Os diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro expõem a urgência com que o banqueiro tratava os pagamentos do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes. Em 8 de fevereiro de 2024, Vorcaro instruiu seu cunhado, Fabiano Zettel, a enviar o contrato assinado e questionou sobre o vencimento da primeira parcela: “Me manda Barci de Moraes assinado? Quando era o primeiro pgto?”.
No mesmo dia, Ângelo Silva, tesoureiro do Master e também investigado pela PF, enviou a Vorcaro o comprovante de uma transferência no valor de R$ 3.422.268,14 do Banco Master para a conta do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia. Após a confirmação do pagamento, Vorcaro intensificou a pressão sobre membros do banco.
Em mensagem para Silva, ele expressou frustração: “Angelo. Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não to entendendo isso. Contrato mais importante que temos te pedi pra não falhar. Surreal. Vamos ter problemas.” Minutos depois, direcionando-se à funcionária Romy Goerck Gentina Klenquen, identificada como “Romy Banco Master”, Vorcaro determinou que os pagamentos ao escritório não sofressem qualquer atraso: “Romy esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos.” Ele reforçou a orientação com “Pode pagar sempre, sem nota” e “Do jeito que for”, indicando a prioridade máxima dada a essa transação.
Edição de contrato e a consulta sobre impedimentos legais
A investigação da PF sobre o contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes revelou um detalhe intrigante: a análise dos metadados do documento indicou que ele foi editado pelo próprio Alexandre de Moraes. Este fato adiciona uma nova dimensão à investigação, levantando questões sobre o envolvimento direto do ministro em documentos relacionados a transações financeiras de seu interesse familiar.
Em resposta a essas revelações, o escritório Barci de Moraes emitiu uma nota explicativa. A banca afirmou que, diante da amplitude do pedido de contratação de serviços advocatícios pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou o ministro Alexandre de Moraes. O objetivo da consulta seria verificar a existência de impedimentos legais para a celebração do contrato, considerando que Moraes é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca.
Segundo o escritório, a consulta visava identificar possíveis restrições, como a atuação do ministro em processos no STF ou em julgamentos que pudessem afetar o potencial cliente. A nota ressalta que não foi identificada qualquer previsão de atuação do ministro no STF nem impedimento legal, e que Alexandre de Moraes “jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master”. Diante disso, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios foram prestados.
Por que as mensagens de Moraes não foram recuperadas no celular de Vorcaro?
Uma questão crucial levantada pela investigação da PF é a ausência de mensagens de Alexandre de Moraes no celular de Daniel Vorcaro, apesar das evidências de comunicação. A explicação reside na metodologia utilizada por Vorcaro para enviar mensagens, que envolvia a criação de textos em um aplicativo de notas, seguida pela geração de capturas de tela (screenshots) e o envio dessas imagens via WhatsApp com a função de visualização única.
Esse método permitia que o conteúdo não ficasse registrado como uma mensagem de texto convencional, desaparecendo após a visualização. No entanto, a perícia recuperou arquivos temporários em formato PDF gerados por essas capturas de tela, localizados em uma pasta interna do iPhone identificada como “tmp” (temporary). Parte desses arquivos, embora apagados minutos após a criação, foi recuperada durante a extração forense.
O relatório da PF detalha que, “após elaborar o texto das notas ora tratadas e realizar um screenshot do conteúdo, Daniel Vorcaro efetua, poucos segundos depois e como primeira interação no Whatsapp após o screenshot, a remessa de mensagem ao terminal”. Contudo, como apenas o celular de Vorcaro foi apreendido, não foi possível recuperar os mesmos arquivos temporários do terminal de seu interlocutor, o que explicaria a ausência de registros diretos de Moraes nos dados recuperados do aparelho de Vorcaro. A PF cruzou horários de criação de notas, capturas de tela, geração de PDFs e envio das imagens para associar os arquivos às conversas.
Senador Carlos Viana cobra esclarecimentos do STF
Diante das novas informações e da convergência de dados revelados pela Polícia Federal e pela BBC News Brasil, o senador Carlos Viana, presidente da CPMI do INSS, reiterou a importância de obter esclarecimentos do STF sobre a titularidade do número de telefone. A declaração do senador reforça a gravidade das descobertas e a necessidade de transparência por parte da Corte.
“Agora, diante das novas informações reveladas pela Polícia Federal e das verificações independentes relatadas pela BBC News Brasil, essa pergunta se tornou ainda mais importante”, afirmou Viana em nota. A cobrança por parte do senador evidencia que a investigação sobre o número de telefone transcende a esfera privada e atinge a esfera pública, dada a posição de Alexandre de Moraes como ministro do STF.
A expectativa é que o STF, em resposta à solicitação do senador e à repercussão do caso, forneça informações detalhadas sobre o uso do número de telefone em questão, esclarecendo o período de sua responsabilidade e a natureza das comunicações realizadas. A ausência de resposta do gabinete de Alexandre de Moraes e do STF até o momento da publicação desta matéria mantém o caso em aberto e sujeito a novas apurações.
O que diz o STF e o gabinete de Alexandre de Moraes?
A reportagem procurou o gabinete de Alexandre de Moraes e o próprio Supremo Tribunal Federal para obter um posicionamento oficial sobre as novas evidências. As perguntas direcionadas buscavam esclarecer se o ministro utilizou o número de telefone em questão, em quais períodos a linha esteve sob sua responsabilidade e como ele explicaria as associações encontradas pela reportagem com contas digitais e perfis familiares.
Até o momento da publicação desta notícia, nem o gabinete do ministro nem o STF haviam fornecido resposta às indagações. O espaço para manifestação permanece aberto, e a ausência de um pronunciamento oficial pode intensificar as especulações e a pressão por esclarecimentos por parte das autoridades e da opinião pública.
Em março, quando o número apareceu pela primeira vez na CPMI do INSS, o STF, a pedido do gabinete de Moraes, divulgou uma nota negando que mensagens encontradas em material apreendido tivessem sido enviadas ao ministro. Segundo a manifestação, uma análise técnica havia constatado que as mensagens enviadas por Vorcaro “não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”. A nova situação, no entanto, apresenta evidências mais robustas e diretas de associação com o ministro e sua família.