Desvendando as Araucárias Gigantes: Onde e Quantas Restam no Brasil?

No alto da serra catarinense, a família Souza cuida há mais de um século do “Pinheirão”, a maior araucária conhecida no Brasil, um exemplar monumental com 39,2 metros de altura e mais de três metros de diâmetro na base. Este gigante da natureza, que já serviu de abrigo para tropeiros e lavradores, é um símbolo da força e da resiliência de uma espécie ameaçada.

A descoberta e o monitoramento dessas árvores fora do comum ganharam contornos científicos com o levantamento “árvores gigantes” da espécie Araucaria angustifolia, iniciado em 2019. A pesquisa, que percorreu mais de 6,8 mil quilômetros pelo Sul do Brasil, identificou um número surpreendentemente pequeno de exemplares que se enquadram nos critérios de “gigante”: troncos com diâmetro à altura do peito (DAP) acima de 1,5 metro e alturas superiores a 30 metros.

Esses monumentos naturais, que representam um valioso patrimônio ecológico e cultural, estão cada vez mais sob ameaça, não apenas pela ação humana do passado, mas por fatores ambientais que se intensificam. Conforme informações divulgadas por pesquisadores da Universidade de Santa Catarina (UFSC), a contagem atual e os recentes eventos de queda acendem um alerta para a necessidade de preservação e manejo.

O Levantamento das Araucárias Gigantes: Um Retrato da Escassez

O projeto que catalogou as “árvores gigantes” da espécie Araucaria angustifolia, liderado pelo pesquisador Marcelo Scipioni da UFSC, revelou a raridade desses exemplares. Em 2019, a equipe mediu 3.529 araucárias em inventários florestais no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O resultado foi um número alarmante: apenas 21 árvores foram classificadas como gigantes, distribuídas em fazendas, parques municipais, reservas particulares e áreas experimentais.

O “Pinheirão” da família Souza, em São Joaquim (SC), liderou a lista com 3,25 metros de DAP e 39,2 metros de altura. Em seguida, apareceram o Pinheiro Grosso em Canela (RS), com 2,68 metros de diâmetro, e uma antiga araucária gigante de Cruz Machado (PR), que infelizmente tombou anos depois. Essa lista inicial serviu como base para um acompanhamento contínuo.

A plataforma mantida pelo grupo de pesquisa atualiza constantemente esse ranking. Na lista mais recente, o número de araucárias gigantes vivas no Sul do Brasil ultrapassa ligeiramente os 40 exemplares, todas com DAP acima de 1,5 metro. Elas estão espalhadas por diversas cidades, como São Joaquim, Campos Novos, Fraiburgo, Caçador, Gramado Xavier, Nova Petrópolis, Guarapuava e Mandirituba.

O Pódio das Gigantes: Conheça os Maiores Exemplares

Dentro do grupo já restrito das araucárias gigantes, a lista se afunila ainda mais quando consideramos árvores com mais de 2 metros de diâmetro. Apenas uma dezena de exemplares se enquadram nesse critério, evidenciando a magnitude dos indivíduos que ainda resistem.

A classificação atual destaca:

  • 1ª: São Joaquim (SC) – Pinheirão, com 3,25 m de DAP e 39,2 m de altura.
  • 2ª: Canela (RS) – Pinheiro Grosso, com 2,68 m de DAP e 39 m de altura.
  • 3ª: Urupema (SC) – Bossoroca, com 2,45 m de DAP e 33 m de altura.
  • 4ª: São Joaquim (SC) – Menina da Custódia, com 2,25 m de DAP e 39,3 m de altura.
  • 6ª: Alfredo Wagner (SC) – Santo Anjo 1, com 2,20 m de DAP e 37 m de altura.
  • 7ª: Guarapuava (PR) – Sem nome específico divulgado, com 2,16 m de DAP e 35,5 m de altura.
  • 8ª: Gramado Xavier (RS) – Pinheirão, com 2,14 m de DAP e 42 m de altura.
  • 9ª: Fraiburgo (SC) – Floresta René Frey, com 2,13 m de DAP e 40 m de altura.

Em muitos casos, essas árvores se tornaram atrações turísticas, como o Pinheiro Grosso, que recebe mais de 13 mil visitantes anualmente. Outras permanecem em propriedades privadas, com acesso restrito, mas igualmente importantes para a conservação da espécie.

O Alerta Vermelho: Quedas Preocupantes Acendem Sinais de Alarme

A preocupação com a longevidade das araucárias gigantes deixou de ser apenas um temor intuitivo de proprietários rurais e se transformou em uma realidade alarmante com as recentes quedas de exemplares monumentais. Em 2023, a icônica “Araucária Gigante” de Cruz Machado (PR), um marco local e objeto de estudos científicos por décadas, tombou, gerando grande comoção.

A queda deste exemplar foi registrada pela mesma equipe que monitora o Pinheirão de São Joaquim. O impacto foi de tal magnitude que a Embrapa Florestas iniciou o processo de produção de mudas clonadas a partir do material genético da árvore perdida. Em 2025, uma dessas mudas foi plantada simbolicamente nos jardins do Palácio Iguaçu, sede do governo do Paraná, como herdeira da que se foi.

Santa Catarina também registrou perdas significativas. Na estação experimental da Embrapa em Caçador, uma das maiores araucárias do campo de pesquisa caiu neste ano, após anos servindo como referência para medições e ensaios. Este evento reforçou a percepção de que nem mesmo áreas técnicas, com monitoramento frequente, estão imunes aos riscos que as araucárias gigantes enfrentam.

Fraiburgo: O Epicentro das Quedas e o Início da Investigação Científica

Um dos casos mais estudados ocorreu em Fraiburgo, no meio-oeste catarinense, no Parque René Frey. Durante eventos de chuva intensa entre outubro e novembro de 2023, quatro araucárias monumentais caíram em um curto período. A situação gerou preocupação adicional, pois as árvores estavam próximas a trilhas e ruas, em um parque frequentado diariamente por visitantes.

Este conjunto de episódios levou os pesquisadores a investigar as causas. A pergunta central era: por que árvores tão antigas e robustas, que pareciam indestrutíveis, estavam caindo agora? A hipótese mais comum, o vento, foi inicialmente afastada pelas análises.

O engenheiro florestal Marcelo Scipioni, que liderou o estudo forense sobre as quedas, explicou que o esforço do vento durante as tempestades analisadas nunca atingiu o limite de ruptura da madeira. Os cálculos indicaram que a tensão de flexão no tronco permaneceu abaixo do limite estimado para a madeira das araucárias.

O Solo Saturado: A Verdadeira Causa por Trás das Quedas

A investigação científica, publicada na revista Agricultural and Forest Meteorology, apontou para um fator mais insidioso: a saturação do solo. Amostras coletadas ao redor das araucárias que caíram revelaram solos argilosos, com alta capacidade de reter água. Em condições normais, esses solos oferecem resistência suficiente para manter as raízes ancoradas.

No entanto, a pesquisa demonstrou que a chuva prolongada, característica de anos com o fenômeno El Niño, reduziu drasticamente a resistência do solo. Em vez dos cerca de 50 quilopascais em condições normais, a resistência ao cisalhamento caiu para aproximadamente 36 quilopascais, aproximando-se do “limite de liquidez” e levando à perda de coesão do solo.

“Com o solo saturado, as raízes perdem sustentação. É como tentar segurar uma árvore em cima de lama”, explicou Scipioni. O mecanismo é claro: chuvas intensas e contínuas encharcam o solo, diminuindo sua capacidade de suporte, o que resulta no tombamento de árvores gigantes, mesmo sem a ocorrência de ventos extremos.

El Niño e o Novo Cenário Climático: Um Desafio para as Araucárias

O pesquisador ressalta que o problema não se resume a tempestades isoladas, mas sim a um novo padrão de chuvas observado em anos de El Niño. “O que temos observado é que, em anos de El Niño, a chuva deixa de ser um evento pontual e passa a ser uma sequência, que mantém o solo encharcado por muito mais tempo”, detalha.

Em 2023, por exemplo, a região de Fraiburgo vivenciou um período de chuvas fortes e contínuas, com acúmulo superior a 400 milímetros em poucas semanas. Essa grande quantidade de água em um solo naturalmente argiloso exacerbou o problema da saturação.

Esse cenário exige uma nova perspectiva sobre os anos de El Niño em áreas com araucárias monumentais. A combinação de chuvas intensas e prolongadas, aliada à natureza dos solos argilosos, cria um risco elevado para essas árvores. A identificação precisa da localização das árvores gigantes e das características do solo é crucial para antecipar e mitigar esses cenários de risco.

Medidas de Prevenção e Manejo: Salvando os Gigantes da Natureza

Apesar do diagnóstico preocupante, o estudo oferece um roteiro de ações possíveis para mitigar o risco de quedas. “A boa notícia é que parte desse risco pode ser manejada”, afirma Scipioni. Conhecendo o tipo de solo, o relevo e a posição das araucárias gigantes, é possível intervir antes que a saturação do solo atinja níveis críticos.

Uma das principais recomendações é o monitoramento contínuo da umidade do solo em torno das árvores monumentais, especialmente em áreas com solos argilosos e relevo de sopé. Em anos de El Niño, a medição constante permitiria acionar planos de emergência, como restrição de acesso em dias de maior risco e avaliação da drenagem, evitando descobertas trágicas após uma queda.

Outra frente de ação sugerida é a melhoria da drenagem em locais planos e de grande circulação, como parques urbanos e áreas turísticas. A implementação de canais de escoamento, manejo de encostas e revisão de trilhas pode evitar o acúmulo de água nas áreas de raízes das araucárias gigantes.

Scipioni também defende o uso de técnicas não destrutivas, como tomografia sônica de tronco e medição dinâmica de deformação, para avaliar a saúde estrutural das árvores, especialmente aquelas com cavidades. “São árvores com valor ecológico e cultural muito alto. Se tratamos pontes e prédios com monitoramento estrutural, faz sentido aplicar a mesma lógica a árvores monumentais”, argumenta.

Desafios e o Futuro das Araucárias Monumentais

Apesar das propostas de manejo, persistem desafios significativos. A falta de inventários detalhados em todos os estados dificulta a identificação de todas as árvores em risco. Além disso, a maioria dos exemplares monumentais está em propriedades privadas, o que demanda a colaboração e a conscientização dos proprietários para a adoção de protocolos de monitoramento e controle de visitação mais rigorosos.

“Sem saber onde estão as árvores e sem uma rede mínima de monitoramento, ficamos reféns da sorte e da estatística”, lamenta Scipioni. Para Antônio Luciano de Souza, proprietário da Fazenda Pinheirão, o valor dessas árvores transcende os dados científicos. “Vejo esta araucária como um legado dos meus antepassados. Continuarei honrando e preservando tudo o que nos foi deixado”, declara.

A ciência compartilha dessa visão de legado. “Essas árvores são ao mesmo tempo laboratório vivo, patrimônio ecológico e memória cultural. Se deixarmos que caiam uma a uma, perdemos dados, perdemos história e perdemos um símbolo de floresta que já foi muito maior”, conclui Scipioni, reforçando a urgência de ações coordenadas para garantir a sobrevivência desses gigantes da natureza para as futuras gerações.

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