Paraguai exige devolução de canhão histórico e critica declarações de Lula sobre a Guerra do Paraguai
O Ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, reuniu-se com a mesa diretora da Câmara dos Deputados do país para discutir a reivindicação histórica do canhão “El Cristiano”, peça levada pelo Brasil como troféu de guerra após o conflito do século XIX. A reunião ocorre em meio a críticas contundentes de autoridades paraguaias às recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que afirmou que os paraguaios “invadiram” o território brasileiro, dando início à Guerra contra a Tríplice Aliança.
As falas de Lula, consideradas “muito infelizes” por parlamentares paraguaios, reacenderam o debate sobre a devolução de artefatos históricos e a memória do conflito. O governo do Paraguai busca avançar na recuperação de “troféus de guerra” e vê a questão do canhão como um passo importante para a cura de “cicatrizes” históricas. A expectativa é que a devolução ocorra o mais breve possível, embora o processo diplomático e legal ainda esteja em andamento.
Embora tenha sido noticiado que Lula deu aval para a restituição do “El Cristiano” em uma reunião com o Ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, o governo paraguaio ainda não recebeu qualquer documento oficial do Brasil sobre o assunto. O chanceler Lezcano ressaltou que a diplomacia possui seus próprios meios, tempos e processos para lidar com reivindicações históricas como esta, conforme informações divulgadas pela assessoria de imprensa da Câmara dos Deputados paraguaia.
Críticas à “infeliz” declaração de Lula sobre o início da Guerra do Paraguai
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gerou forte repercussão negativa no Paraguai ao afirmar que o país “invadiu” o Brasil, dando origem à Guerra contra a Tríplice Aliança (1864-1870). As declarações foram consideradas “muito infelizes” pelo presidente da Câmara dos Deputados paraguaia, Raúl Latorre, que as contrapôs à relação de amizade e parceria comercial entre os dois países. Latorre enfatizou que a comunidade brasileira no Paraguai é grande e trabalhadora, e que a história é um capítulo distinto dessa relação atual.
A narrativa histórica sobre o início da guerra é um ponto sensível para o Paraguai, que a considera um ato de agressão da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra um país que buscava autonomia e desenvolvimento. Para o Paraguai, o conflito é frequentemente referido como a “Guerra contra a Tríplice Aliança” e é visto como o “maior genocídio do nosso continente”. A interpretação de Lula, que sugere uma invasão paraguaia ao Brasil, contraria a visão predominante no país vizinho.
O chanceler Rubén Ramírez Lezcano ecoou o sentimento de desaprovação, classificando as falas como “infelizes”. Ele destacou que o povo brasileiro é um “povo irmão” e um “principal parceiro comercial” do Paraguai, indicando que as declarações presidenciais não refletem a realidade das relações bilaterais atuais e criam um ruído desnecessário em um contexto de cooperação.
A reivindicação histórica do canhão “El Cristiano”
O centro da tensão diplomática recente é o canhão “El Cristiano”, uma peça histórica que o Paraguai reivindica junto ao Brasil. O artefato foi levado como troféu de guerra após o término do conflito e hoje está exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. A devolução do “El Cristiano” é uma demanda antiga de Assunção, que ganhou força com a polêmica gerada pelas declarações de Lula.
O presidente da Câmara dos Deputados paraguaia, Raúl Latorre, declarou que o país precisa avançar na “recuperação dos troféus de guerra” relacionados à Guerra contra a Tríplice Aliança. Ele vê a questão como parte do processo de cura de “cicatrizes” históricas e um passo importante para o reconhecimento da memória paraguaia. A devolução do canhão é vista como um símbolo desse processo de reconciliação e justiça histórica.
A transferência do “El Cristiano” para o Brasil ocorreu como um ato simbólico da vitória da Tríplice Aliança e da derrota paraguaia. A peça, de grande valor histórico e cultural para o Paraguai, representa não apenas um instrumento de guerra, mas também um testemunho das perdas e do sofrimento infligidos ao país durante o conflito, que resultou na morte de grande parte de sua população masculina e na devastação de sua economia.
Processo de devolução: etapas e desafios diplomáticos
O Ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, explicou que o processo de devolução do canhão “El Cristiano” envolve diversas etapas. Inicialmente, a questão precisa ser tratada no âmbito do Poder Executivo brasileiro, e posteriormente, deve passar pela aprovação do Congresso Nacional. Essa tramitação se deve ao fato de que o “El Cristiano” é considerado patrimônio histórico do Brasil e está tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A notícia de que o presidente Lula teria dado aval para a restituição do canhão foi recebida com expectativa, mas o governo paraguaio, liderado por Santiago Peña, ainda não recebeu qualquer documento oficial do Brasil a respeito da liberação do artefato. Lezcano enfatizou que “a diplomacia tem os seus meios, os seus tempos e os seus processos”, indicando que a resolução pode levar tempo e dependerá de negociações e trâmites internos no Brasil.
O tombamento do “El Cristiano” pelo Iphan significa que o bem possui valor histórico, artístico e cultural reconhecido pelo Estado brasileiro, o que implica em uma série de proteções legais. A eventual devolução exigirá a desvinculação do bem do patrimônio brasileiro, o que pode envolver procedimentos legais e administrativos específicos, além de acordos bilaterais para garantir a preservação e o destino do artefato no Paraguai.
A importância do “El Cristiano” para a memória paraguaia
O canhão “El Cristiano” é mais do que um simples troféu de guerra; para o Paraguai, ele representa um elo tangível com um dos períodos mais traumáticos de sua história. A Guerra contra a Tríplice Aliança resultou em perdas demográficas catastróficas para o país, com estimativas apontando para a morte de mais de 60% da população masculina adulta. A recuperação de artefatos como o “El Cristiano” é vista como um ato de reparação simbólica e um reconhecimento da soberania e da memória nacional.
A exposição do canhão em um museu brasileiro, embora justificada como registro histórico da vitória, é interpretada no Paraguai como um lembrete constante da derrota e da ocupação. A devolução do “El Cristiano” permitiria que sua história fosse contada sob a perspectiva paraguaia, em solo paraguaio, contribuindo para a educação das novas gerações sobre os eventos do século XIX e o legado do conflito.
A reivindicação de “troféus de guerra” não se limita ao canhão. O Paraguai busca a restituição de outros bens e documentos históricos que foram levados para o Brasil, Argentina e Uruguai após a guerra. A questão do “El Cristiano” se tornou um foco principal devido à sua notoriedade e ao simbolismo que carrega, impulsionando a discussão sobre a necessidade de um tratamento mais equitativo e respeitoso da memória histórica entre os países do Mercosul.
Relações Brasil-Paraguai: parceria e tensões históricas
Apesar das críticas pontuais e da tensão gerada pelas declarações de Lula e pela questão do canhão, as relações entre Brasil e Paraguai são, em geral, marcadas por uma forte parceria econômica e social. O Brasil é o principal parceiro comercial do Paraguai, e existe uma significativa comunidade brasileira residindo e trabalhando no país vizinho, o que demonstra a profundidade dos laços bilaterais.
No entanto, as feridas históricas da Guerra do Paraguai ainda persistem, e declarações que parecem minimizar ou distorcer os eventos do conflito podem reabrir essas chagas. A diplomacia brasileira tem o desafio de navegar entre a celebração da amizade e cooperação atuais e o reconhecimento sensível de um passado doloroso, especialmente quando se trata de símbolos como o “El Cristiano”.
O chanceler Ramírez Lezcano foi enfático ao afirmar que “o povo brasileiro é um povo irmão, é um povo amigo”. Essa declaração busca separar a conduta do povo e do governo brasileiro atual das ações passadas e das palavras consideradas equivocadas do presidente Lula. A expectativa é que, apesar dos contratempos, a diplomacia prevaleça e os acordos para a devolução do canhão sejam formalizados, fortalecendo ainda mais os laços entre as duas nações.
O futuro da devolução: próximos passos e expectativas
A resolução da questão do canhão “El Cristiano” dependerá dos próximos passos formais a serem dados pelo governo brasileiro. A confirmação oficial da liberação do artefato, seguida pelos trâmites legais e legislativos necessários, será crucial para concretizar a devolução. O Paraguai demonstra otimismo cauteloso, aguardando a formalização do que foi discutido em reuniões de alto nível.
A diplomacia paraguaia, representada pelo chanceler Lezcano, está atenta aos procedimentos e prazos. A reivindicação é histórica, e a paciência é necessária, mas a urgência em “curar cicatrizes” motiva a busca por uma solução célere. A forma como o Brasil lidará com essa demanda poderá ter um impacto significativo na percepção paraguaia sobre o respeito à sua história e soberania.
A expectativa é que a devolução do “El Cristiano” não seja apenas um ato isolado, mas um passo em direção a um diálogo mais profundo sobre a memória da Guerra contra a Tríplice Aliança e a necessidade de uma narrativa compartilhada que reconheça o sofrimento e as perdas de todas as partes envolvidas, promovendo um entendimento mútuo mais robusto entre Brasil e Paraguai.