Vorcaro é acusado de corromper servidores do BC com viagens e propinas para favorecer o Banco Master

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, indicam que dois ex-servidores de alto escalão do Banco Central (BC), Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, atuaram como “consultores informais” para o banqueiro. Em troca, teriam recebido vantagens indevidas, incluindo o pagamento de despesas com viagens internacionais.

As investigações apontam que, durante quase dois anos, os servidores teriam prestado orientações estratégicas, revisado minutas de documentos destinados ao BC e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e intercedido em assuntos de interesse do conglomerado financeiro. Essa atuação, segundo a PF, é “por óbvio incompatível com o Código de Conduta do BCB e com os princípios que regem a atuação de servidores públicos”.

Paulo Sérgio era chefe adjunto e Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do BC quando os contatos com Vorcaro teriam ocorrido. Ambos foram afastados de seus cargos em março deste ano. A Polícia Federal descreve os pagamentos como propinas, dissimuladas através de contratos fictícios e empresas de terceiros, além de custear viagens a destinos como França e Estados Unidos, conforme informações divulgadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Conexão direta: Grupo de mensagens unia banqueiro e fiscais do BC

A investigação da Polícia Federal revelou que Daniel Vorcaro, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana participavam de um grupo de mensagens. Neste canal, eles discutiam e alinhavam estratégias, revisavam documentos e agendavam reuniões privadas, algumas inclusive na residência do banqueiro. Essa comunicação direta e estratégica entre o fiscalizado e os fiscais é apontada como um indício grave de conduta irregular.

Os diálogos obtidos pela PF sugerem que os servidores alertavam Vorcaro sobre movimentações financeiras do banco que acionavam filtros de monitoramento do BC. Além disso, teriam repassado informações sigilosas sobre reuniões reservadas entre o próprio BC e a Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, que investigava irregularidades no setor financeiro.

O teor das comunicações demonstrava a preocupação dos envolvidos em ocultar o conteúdo das mensagens. Em muitos casos, Belline Santana, por exemplo, apenas anunciava o tema a ser tratado e solicitava que a conversa prosseguisse por ligações de WhatsApp, evidenciando a consciência da gravidade e do caráter criminoso de suas condutas.

Paulo S. Souza: O “anjo na vida” do banqueiro com acesso privilegiado

O primeiro contato registrado entre Vorcaro e Paulo Sérgio Souza, segundo a PF, data de outubro de 2023. A partir daí, o servidor do BC teria passado a atuar como um consultor para o banqueiro, chegando a classificar o atendimento aos interesses do Banco Master como “prioridade absoluta”. Mensagens indicam que ele chegou a enviar espontaneamente uma lista de tópicos para serem tratados por Vorcaro em uma reunião com o então presidente do BC, Roberto Campos Neto.

Em dezembro de 2023, Paulo Sérgio teria informado Vorcaro sobre um comprador para o Letsbank, instituição que pertencia ao conglomerado Master e que viria a ser liquidada pelo BC. A atuação como interlocutor de interesses do Master nesse assunto se estendeu até outubro de 2024, quando o servidor questionou Vorcaro sobre valores de uma nova proposta de compra.

A investigação aponta que Paulo Sérgio também auxiliou Vorcaro na aquisição do Banco Voiter e no controle acionário do Will Bank, em fevereiro de 2024. Além disso, tentou, a pedido do banqueiro, intervir na alteração de normas regulatórias da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc).

Em abril de 2025, Vorcaro solicitou a Paulo Sérgio a revisão de uma minuta de ofício do Master ao Desup, que tratava da necessidade de garantir níveis adequados de liquidez. O servidor retornou o documento com as alterações sugeridas. Em uma conversa com seu cunhado, Fabiano Zettel, Vorcaro chegou a se referir a Paulo Sérgio como “um anjo na vida”, demonstrando a importância da colaboração do servidor.

Belline Santana: Da chefia do Desup à criação de grupo para alinhar estratégias

As conversas entre Daniel Vorcaro e Belline Santana, ex-chefe do Desup do BC, também teriam se intensificado em 2023 e se estendido até o final de 2025, período que culminou na prisão do banqueiro e na liquidação do Banco Master. A PF destaca que ambos os interlocutores, cientes da gravidade de suas condutas, buscavam ocultar o teor das comunicações.

Em abril de 2024, Belline teria agendado uma reunião com Vorcaro e Paulo Sérgio Souza para discutir “visão prospectiva e estratégica” para o banco, oferecendo a escolha do local do encontro: no BC ou na sede do Master. A PF ressalta que “por óbvio, não parece regular que fiscalizado e fiscalizadores alinhem e compartilhem da mesma visão prospectiva e estratégica para o banco”.

Assim como Paulo Sérgio, Belline também teria atuado na revisão de documentos elaborados pelo Master, por iniciativa própria. Há registros de que o servidor esteve na casa de Vorcaro em março de 2024. Em outubro de 2025, Belline criou um grupo no WhatsApp com o nome “Master”, incluindo Paulo Sérgio e Vorcaro, para discutir os interesses do banqueiro.

A contrapartida: Propinas, contratos fictícios e viagens de luxo

A Polícia Federal detalha que a contrapartida aos favores prestados pelos servidores do BC era feita por meio de pagamentos dissimulados. Daniel Vorcaro teria utilizado contratos fictícios e empresas de terceiros para repassar valores, além de custear despesas de viagens. Operadores financeiros como Fabiano Zettel, Ana Claudia Queiroz de Paiva e Leonardo Palhares teriam atuado no esquema.

No caso de Belline Santana, a remuneração teria sido estruturada através de contratos fictícios com a Varajo Consultoria Empresarial, de Leonardo Palhares. Sob a justificativa de um “estudo técnico, econômico e social focado na inserção de jovens no mercado financeiro”, Belline teria recebido R$ 2 milhões. Uma planilha de “despesas fixas mensais” compartilhada entre Zettel e Vorcaro em setembro de 2025 lista “Bellini” com um valor de R$ 500 mil.

O relatório da PF cita ainda a “organização de viagem à França para o servidor”, com custeio de almoço, jantar e guia em Paris. Os investigadores apontam que Vorcaro deu “clara determinação” para que seus prestadores de serviço organizassem a viagem, que incluiu refeições em restaurantes de luxo como Laperouse e Loulou, com indicação para “pedir bons vinhos e comida”.

Negócios rurais e viagens à Disney: A teia financeira de Paulo S. Souza

O vínculo financeiro de Paulo Sérgio Souza com Vorcaro e Zettel remonta a janeiro de 2020, com a minuta de um contrato de compra e venda de uma propriedade rural pertencente ao servidor e seu irmão, no valor de R$ 4,8 milhões. No ano seguinte, o imóvel foi transferido para a Pipe Participações Ltda., de Zettel. A PF suspeita que essa operação tenha sido de fachada, visando lavagem de dinheiro, uma vez que a empresa compradora não usufruiu da propriedade, que continuou sob posse do irmão do servidor.

Em janeiro de 2024, Paulo Sérgio enviou a Vorcaro um roteiro detalhado de uma viagem em família para os parques da Disney e Universal em Orlando, nos Estados Unidos, prevista para o mês seguinte. No mesmo dia, o banqueiro acionou um prestador de serviços para agendar e contratar um guia para acompanhar o servidor e sua família. Na data do embarque, Paulo Sérgio enviou uma mensagem a Vorcaro agradecendo o suporte.

A atuação de Paulo Sérgio, segundo a defesa, se deu no estrito cumprimento de suas funções, com rigor técnico e observância dos deveres funcionais. Ele teria sido o responsável por identificar problemas graves no Banco Master já em setembro de 2024, apontando um rombo de R$ 12 bilhões, valor que superava estimativas do Banco BTG. A defesa argumenta que as fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero decorreram de ações de Paulo Sérgio e sua equipe, e que ele defendia internamente a liquidação do banco desde março de 2025.

Defesas negam irregularidades e apontam descontextualização de provas

As defesas de Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza negam as acusações e afirmam que a divulgação de trechos das investigações é seletiva e descontextualizada. Os advogados argumentam que seus clientes sempre exerceram suas funções dentro dos limites legais e que a análise integral dos elementos comprovará suas inocências.

A defesa de Belline ressalta que depoimentos de terceiros e do próprio Daniel Vorcaro esclareceram que não houve pagamento ou concessão de vantagem ilícita. Além disso, depoimentos de outros servidores do BC demonstraram que Belline Santana não interferiu nos trabalhos de fiscalização do Banco Master. A defesa sugere que as investigações podem alcançar “outros níveis superiores” e que a exposição midiática desvia o foco de responsabilidades.

Já a defesa de Paulo Sérgio lamenta o destaque de conversas descontextualizadas e afirma que, em seu depoimento de mais de quatro horas à PF, ele detalhou sua atuação rigorosa no caso. Segundo o advogado, a interação com o Banco Master era cotidiana e natural no contexto de supervisão, e foi justamente essa atividade que permitiu a identificação de irregularidades. A defesa reitera que Paulo Sérgio jamais protegeu interesses de Vorcaro e atuou com independência e rigor técnico.

Operação Compliance Zero: O contexto das investigações

A Operação Compliance Zero, mencionada nas investigações, tem como objetivo apurar fraudes e irregularidades em instituições financeiras. A atuação de servidores públicos em conluio com representantes de bancos para obter vantagens indevidas configura crimes como corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e prevaricação.

A Operação Compliance Zero, deflagrada em fases anteriores, já havia revelado esquemas de fraude e lavagem de dinheiro em outros bancos. A investigação atual busca desarticular uma possível rede de corrupção que envolvia altos escalões do Banco Central, comprometendo a fiscalização e a estabilidade do sistema financeiro.

A divulgação das mensagens e dos relatórios da PF, agora com sigilo afastado pelo STF, lança luz sobre as complexidades e os riscos de interferência em órgãos de controle financeiro. O caso reforça a importância da transparência e da integridade na atuação de servidores públicos, especialmente em setores sensíveis como o bancário.

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