A vida de José Fernando Honorato, um policial federal aposentado, tomou um rumo inesperado em 8 de janeiro de 2023. O que começou como um domingo comum, com a busca por um carro e um almoço solitário, transformou-se em uma série de eventos que o levariam à prisão, a uma batalha contra o câncer de pâncreas e a uma luta desesperada para ter acesso aos próprios recursos financeiros.

Sua curiosidade o levou a seguir um comboio policial, culminando em sua presença no prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) em meio ao cenário de vandalismo. As imagens que gravou e publicou nas redes sociais seriam a base de sua acusação, transformando seus últimos anos de vida em um calvário judicial e de saúde.

Conforme informações apuradas, Honorato faleceu em 19 de novembro de 2025, no Hospital Anchieta, em Brasília, após um longo sofrimento. Seus bens bloqueados foram liberados apenas dois dias antes de sua morte, um desfecho amargo para quem nunca chegou a ser julgado ou condenado.

A Presença Inesperada nos Atos de 8 de Janeiro e a Prisão

José Fernando Honorato, um papiloscopista da Polícia Federal antes de sua aposentadoria e por quase dez anos presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal, era visto como um profissional íntegro e sem antecedentes criminais. Contudo, sua presença no 8 de janeiro, motivada pela curiosidade, mudou drasticamente sua vida.

Em um dos vídeos publicados em seu perfil no Facebook, Honorato narra o cenário de destruição no STF: “Aqui é o Supremo Tribunal Federal. Olha como está. Tudo quebrado! O povo quebrou tudo! O povo está acusando os membros desse Supremo de corrupção, de canalhice e de safadeza. Olhem o que o povo fez!” Essas gravações, juntamente com visitas a acampamentos, foram citadas na acusação de crimes contra o Estado Democrático de Direito.

No final de janeiro de 2023, Honorato foi preso em Goiânia e permaneceu quase dez meses atrás das grades, a maior parte do tempo no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Sua condição de policial o expunha a riscos, e sua saúde física e mental deteriorou-se rapidamente, perdendo 15 quilos e desenvolvendo um quadro de depressão profunda.

A Batalha Contra o Câncer e a Tornozeleira Eletrônica

A reviravolta em sua situação carcerária veio com a descoberta de uma lesão no pâncreas e a suspeita de câncer. Em 15 de dezembro de 2023, o ministro Alexandre de Moraes concedeu a liberdade provisória, mas com medidas cautelares rigorosas, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, apresentação periódica à Justiça e proibição de acesso às redes sociais.

O tratamento do câncer de pâncreas se tornou ainda mais desafiador com a tornozeleira eletrônica. Seus advogados precisaram intervir para que o equipamento fosse temporariamente retirado em exames como a ressonância magnética. A permissão definitiva para a remoção da tornozeleira só veio 30 dias antes de sua morte, quando Honorato já estava internado e sem previsão de alta.

Bens Bloqueados e a Luta por Recursos para o Tratamento

Desde o início da investigação, os bens de Honorato foram bloqueados por decisão do STF, sob a alegação de apurar possível financiamento dos atos, algo que nunca foi confirmado. Com isso, sua aposentadoria, de quase R$ 19 mil brutos, foi retida, e ele passou a receber apenas um salário mínimo desde fevereiro de 2024.

A maior parte de sua aposentadoria estava destinada a garantir o futuro pagamento de indenizações coletivas de R$ 30 milhões, impostas aos condenados pelo 8 de janeiro. Em agosto do mesmo ano, seus advogados fizeram um novo pedido para o desbloqueio total das contas, argumentando que o valor recebido era insuficiente para custear o tratamento do câncer de pâncreas, que já apresentava suspeita de metástase.

Mesmo com um plano de saúde, os valores de coparticipação eram elevados, dificultando o acesso ao tratamento adequado e a medicamentos essenciais. A situação financeira precária o tornou dependente da ajuda de amigos para sobreviver e cobrir parte das despesas médicas, acumulando dívidas enquanto sua saúde declinava.

Um Desfecho Tardo e Trágico

A autorização para o desbloqueio das contas de Honorato foi concedida, mas a burocracia impediu que ele tivesse acesso integral ao seu dinheiro. Os recursos só foram efetivamente liberados dois dias antes de sua morte, em 19 de novembro de 2025. Honorato faleceu sem ter sido interrogado em audiência e sem qualquer condenação judicial.

Apesar de não ter uma sentença, o policial federal aposentado viveu seus últimos dias sob o peso da acusação, do sofrimento físico e da angústia financeira. Sua história se tornou um símbolo da complexidade e das consequências humanas dos eventos de 8 de janeiro, revelando a lentidão dos processos e o impacto devastador na vida de indivíduos.

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