China Ameaça Cadeias Produtivas Globais com Restrições de Terras Raras
A China, gigante no fornecimento de minerais essenciais para a tecnologia moderna, acende um alerta global com suas recentes e potenciais restrições à exportação de terras raras. A aplicação integral dessas medidas, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), pode colocar em risco cerca de US$ 6,5 trilhões em produção industrial anual fora do país. O impacto se estende por setores vitais, desde a fabricação de veículos elétricos e eletrônicos de consumo até a indústria aeroespacial, de defesa e a infraestrutura de data centers e energia eólica.
O relatório “Global Critical Minerals Outlook 2026” da IEA detalha que a vulnerabilidade não se limita ao valor direto do mercado de terras raras, mas abrange a totalidade das cadeias produtivas que dependem desses materiais e dos componentes fabricados com eles. A IEA destaca que 2025 marcou a transição dos riscos de uma preocupação teórica para efeitos econômicos concretos, com medidas chinesas anteriores já impactando a produção em outros países.
As restrições, que começaram com controles sobre sete elementos de terras raras pesadas em abril de 2025, foram ampliadas em outubro do mesmo ano, com a possibilidade de abranger produtos fabricados no exterior que utilizem terras raras chinesas ou tecnologias originárias do país. Embora a implementação dessa segunda rodada tenha sido suspensa até novembro de 2026, a IEA alerta que a vulnerabilidade estrutural permanece, impulsionando a estimativa do valor industrial em risco, conforme informações divulgadas pela Agência Internacional de Energia.
O Domínio Chinês e o Impacto Econômico em Escala Global
A concentração da mineração, do refino e da fabricação de ímãs de terras raras na China transformou o domínio do país em uma poderosa ferramenta geopolítica e econômica. Em 2025, a China respondia por aproximadamente 60% da mineração mundial de terras raras usadas em ímãs e por quase 85% do refino, segundo a IEA. Essa posição estratégica permite que Pequim influencie significativamente as cadeias de suprimentos globais, afetando diretamente a produção industrial em economias desenvolvidas como Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia do Sul.
O setor automotivo, em particular, é apontado como o mais exposto, seguido de perto pelas indústrias de eletrônicos, defesa e servidores de data centers. A dependência de ímãs de alta potência, fabricados com terras raras, é crucial para o funcionamento de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs industriais, equipamentos militares e dispositivos eletrônicos. A ausência desses componentes, mesmo que representem uma parcela pequena do custo final de um produto, pode paralisar linhas de produção inteiras.
A IEA ressalta que o problema não reside na escassez natural dos elementos, mas sim na concentração geográfica de todas as etapas críticas da cadeia de valor. As restrições chinesas, que se estendem a outros minerais críticos, como grafite para baterias, e tecnologias de fabricação, evidenciam uma estratégia de controle que vai além do simples fornecimento de matérias-primas.
Terras Raras: A Coluna Vertebral da Tecnologia Moderna
As terras raras, um grupo de 17 elementos químicos, são fundamentais para a produção de tecnologias de ponta devido às suas propriedades magnéticas, luminescentes e de resistência à corrosão. Seus usos são vastos e crescentes, impulsionados pela transição energética global e pela digitalização da economia. Em veículos elétricos, por exemplo, ímãs feitos com neodímio e disprósio são essenciais para a eficiência e potência dos motores.
Nas turbinas eólicas, esses mesmos ímãs permitem a criação de geradores mais compactos e eficientes, capazes de captar mais energia em diferentes condições de vento. A indústria de defesa depende de terras raras para sistemas de mira, radares, propulsão e comunicações avançadas. No setor de eletrônicos, elas são encontradas em smartphones, telas de alta definição, discos rígidos e em equipamentos de diagnóstico médico.
A dependência de uma única fonte para esses materiais críticos cria uma vulnerabilidade significativa. A IEA enfatiza que a interrupção do fornecimento, mesmo que temporária, pode ter efeitos cascata devastadores nas economias globais, afetando a capacidade de inovação e a segurança nacional dos países importadores. A complexidade da extração e do refino de terras raras, que envolve processos químicos intensivos e frequentemente com impactos ambientais, também contribui para a concentração da produção.
O Legado das Restrições Chinesas e a Nova Realidade Geopolítica
As medidas de controle de exportação implementadas pela China não são isoladas e refletem uma tendência crescente de países produtores de minerais estratégicos utilizarem seus recursos como alavancagem geopolítica. Desde 2023, a China triplicou o número de códigos tarifários de minerais sujeitos a controles de exportação, incluindo, em outubro de 2025, medidas sobre componentes críticos da cadeia de baterias, como materiais catódicos e grafite. Uma paralisação no comércio de grafite de grau-bateria, por exemplo, poderia ameaçar mais de US$ 300 bilhões em produção anual fora da China, segundo a IEA.
Outros países também têm adotado políticas semelhantes. A República Democrática do Congo impôs cotas de exportação para o cobalto, enquanto Zimbábue e Moçambique estabeleceram restrições ao comércio de lítio e grafite. Essa fragmentação e o uso de minerais como ferramenta de negociação criam um cenário de incerteza para as cadeias produtivas globais, forçando empresas e governos a reavaliarem suas estratégias de fornecimento.
A IEA alerta que o mercado de minerais, muitas vezes caracterizado por volumes relativamente pequenos em comparação com outras commodities, sustenta atividades econômicas de valor exponencialmente maior. A falta de um componente específico, como um ímã de terra rara, pode interromper a produção de bens de alto valor agregado, como automóveis ou equipamentos eletrônicos sofisticados. Essa dinâmica sublinha a importância estratégica desses materiais, mesmo quando sua participação no custo final do produto é modesta.
A Busca por Diversificação e o “Prêmio de Segurança Mineral”
Diante do cenário de crescente restrição e volatilidade, a Agência Internacional de Energia defende a necessidade de um “prêmio de segurança mineral”. Essa proposta sugere que governos, empresas e consumidores estejam dispostos a aceitar custos ligeiramente mais elevados para financiar cadeias de suprimento mais diversificadas e resilientes. A produção fora dos fornecedores dominantes, como a China, pode ser inicialmente mais cara, mas oferece uma garantia contra choques de oferta e instabilidade geopolítica.
Para viabilizar essa diversificação, a IEA argumenta que as forças de mercado por si só podem não ser suficientes. São necessários instrumentos de política pública e cooperação internacional, como empréstimos subsidiados, garantias públicas, participação acionária de governos em projetos estratégicos, contratos de compra de longo prazo e mecanismos de cobertura de custos. O objetivo é mitigar os riscos inerentes ao desenvolvimento de novas fontes de minerais críticos e tornar essas alternativas economicamente viáveis.
O relatório da IEA aponta um aumento significativo no envolvimento governamental. Em 2025, os compromissos de financiamento público em economias avançadas atingiram cerca de US$ 65 bilhões, um crescimento expressivo em relação aos US$ 15 bilhões registrados em 2023. Esse investimento governamental visa reduzir riscos em projetos de mineração e mobilizar capital privado para o desenvolvimento de cadeias de suprimentos mais seguras e diversificadas.
Brasil em Destaque: Potencial para Ampliar a Produção de Terras Raras
O Brasil surge como um ator promissor no cenário global de terras raras, com potencial para expandir sua mineração e contribuir para a diversificação das fontes de suprimento fora da China. Segundo o cenário mais otimista da IEA, a produção mundial de terras raras fora da China poderia quase triplicar até 2035. Essa expansão seria impulsionada principalmente pela Austrália e pelos Estados Unidos, mas com contribuições significativas de países como Brasil, Índia, Tanzânia e Laos.
Caso todos os projetos anunciados se concretizem, a participação da China na mineração de terras raras magnéticas poderia diminuir de aproximadamente 60% em 2025 para 45% em 2035. Essa seria a primeira vez em décadas que a participação chinesa ficaria abaixo da metade da produção global desses elementos essenciais, como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. No entanto, o avanço no refino e processamento tende a ser mais lento, com a China ainda respondendo por cerca de 70% do processamento mundial em 2035, mesmo no cenário de maior produção.
O relatório da IEA destaca que o Brasil está “na vanguarda” do desenvolvimento de projetos em depósitos de argilas de adsorção iônica. Este tipo de depósito permite a recuperação de terras raras por meio de processos químicos, que geralmente exigem menos britagem e moagem em comparação com projetos em rocha dura. Embora essa rota apresente desafios ambientais e tecnológicos, o potencial de produção do Brasil é considerado estratégico para a segurança das cadeias de suprimentos globais.
O Futuro da Mineração de Terras Raras e a Resiliência das Cadeias Produtivas
A evolução do mercado de terras raras e outros minerais críticos está intrinsecamente ligada a decisões geopolíticas e à capacidade dos países de desenvolverem suas próprias cadeias de valor. A crescente tendência de restrições à exportação por parte de países produtores como a China exige uma resposta coordenada e estratégica por parte das nações consumidoras.
A IEA sugere que a colaboração internacional, o investimento em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias de extração e processamento, e a criação de mecanismos de financiamento para projetos de mineração diversificados são passos cruciais. O objetivo é construir um futuro onde a oferta de minerais essenciais seja menos vulnerável a choques e mais resiliente às pressões geopolíticas.
A diversificação geográfica e tecnológica na produção de terras raras não é apenas uma questão econômica, mas também de segurança nacional e sustentabilidade. Ao reduzir a dependência de poucos fornecedores, o mundo pode garantir o fluxo contínuo de materiais necessários para a transição energética e para o avanço tecnológico, protegendo assim a estabilidade econômica global.