Rússia intensifica estratégia de energia nuclear e volta seus olhos para o Brasil em busca de influência global
Em meio a um cenário de crescentes tensões com o Ocidente, a Rússia, sob a liderança de Vladimir Putin, tem intensificado seus esforços para ampliar sua influência global, utilizando a energia nuclear como um pilar estratégico. O Brasil figura como um parceiro de interesse primordial nessa ofensiva, que combina interesses econômicos, tecnológicos e geopolíticos, reforçando o uso da energia como uma poderosa ferramenta da política externa russa.
A estratégia se manifestou de forma clara em uma recente reunião da Comissão Intergovernamental Russo-Brasileira de Comércio e Cooperação Econômica, Científica e Técnica, realizada em Brasília. Na ocasião, o ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Reshetnikov, sinalizou o interesse de Moscou em expandir a parceria nuclear com o Brasil, com foco na atuação da estatal Rosatom.
Reshetnikov destacou o potencial da Rosatom em atender às necessidades das usinas nucleares brasileiras, fornecer radioisótopos para pesquisa e saúde, e, principalmente, na construção de novas unidades de energia, tanto de grande quanto de pequena capacidade, projetadas na Rússia. As declarações foram divulgadas por agências russas e sites especializados, como a Interfax e o Russia’s Pivot to Asia.
Rosatom vê potencial em novas usinas e suprimento nuclear para o Brasil
O ministro russo Maxim Reshetnikov detalhou as oportunidades de atuação da Rosatom no Brasil, enfatizando a capacidade da estatal em suprir as demandas atuais e futuras do país no setor nuclear. Segundo ele, a Rosatom não apenas atende às necessidades das usinas nucleares brasileiras existentes, mas também fornece radioisótopos essenciais para a pesquisa científica e o setor de saúde.
“Vemos perspectivas na área de construção de novas unidades de energia projetadas na Rússia, tanto de grande quanto de pequena capacidade”, afirmou Reshetnikov, segundo relatos da agência russa Interfax e do site Russia’s Pivot to Asia. Essa declaração sugere um plano ambicioso para expandir a presença russa no setor energético brasileiro, indo além do fornecimento atual de produtos e serviços.
A parceria entre Brasil e Rússia no campo nuclear não é recente, mas tem se aprofundado nos últimos anos. Um marco importante foi o contrato firmado no final de 2022 entre a TENEX, subsidiária da Rosatom, e as Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Este acordo prevê a prestação de serviços de enriquecimento de urânio destinados à produção de combustível para as usinas de Angra dos Reis até 2027. Além disso, outra subsidiária da Rosatom já fornece ao Brasil produtos isotópicos cruciais para a medicina nuclear, demonstrando a abrangência da colaboração.
O Brasil no alvo da estratégia de influência nuclear russa no Sul Global
A estratégia russa de buscar parcerias em energia nuclear com países do Sul Global, que mantêm boas relações com Moscou, é parte de uma resposta às restrições impostas pelo Ocidente. Um relatório recente do think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) aponta que, diante do fechamento de portas no ocidente, a Rússia tem direcionado seus esforços para fortalecer laços em regiões consideradas aliadas ou neutras.
O cenário internacional tem sido marcado por sanções e restrições à Rússia, especialmente após o início da guerra na Ucrânia em 2022. Um exemplo notório foi o rompimento do contrato da Finlândia com a Rosatom para a construção da Usina Nuclear de Hanhikivi. Mais recentemente, em 2024, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Proibição das Importações de Urânio, visando impactar as vendas russas neste setor, embora ainda permita compras sob certas isenções até o final de 2027.
O CSIS detalha que a Rússia possui um portfólio significativo de projetos nucleares em andamento, com pelo menos 20 unidades em construção em sete países: Bangladesh, China, Egito, Hungria, Índia, Irã e Turquia. Essa expansão global demonstra a força e a resiliência do setor nuclear russo, que busca ativamente novos mercados e parceiros estratégicos para mitigar os efeitos das sanções ocidentais e consolidar sua posição como potência energética.
Energia nuclear russa: um trunfo geopolítico com peso global
A expertise russa em energia nuclear transcende a esfera econômica, conferindo ao país um significativo peso geopolítico. O coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais, explica que, assim como o petróleo e o gás natural, o domínio russo no setor nuclear possui dimensões geopolíticas inegáveis.
“A Rússia é considerada a principal potência global em tecnologias nucleares pacíficas, e o país também domina 44% da capacidade global de enriquecimento de urânio, essencial para o combustível das usinas nucleares de todo o planeta, inclusive das usinas dos EUA”, afirma Coutinho. Ele ressalta que essa capacidade faz da Rússia uma superpotência energética em praticamente todas as matrizes, incluindo petróleo, gás, nuclear, eólica e hidrelétrica.
Essa proeminência no setor energético confere à Rússia um poder de barganha considerável em suas relações internacionais. “Isso lhe confere um peso geopolítico relevante, e não é de surpreender que a Rússia sempre se utilizou dessa capacidade como ferramenta de sua política externa”, complementa o especialista. Essa visão é compartilhada por outros analistas, que veem na busca por parcerias nucleares uma estratégia clara de Moscou para fortalecer sua posição no cenário global.
Mercado nuclear aquecido: Rússia e França disputam protagonismo em meio a crises
O mercado global de energia nuclear está em um momento de intensa competição, impulsionado pela busca por alternativas energéticas mais estáveis e sustentáveis, especialmente em face das flutuações nos preços do petróleo e das sanções impostas à Rússia. Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), destaca o protagonismo russo e francês nesse cenário.
“Principalmente dos russos e dos franceses, que são os maiores produtores de reatores nucleares para fins pacíficos do mundo”, pontua Moita. Ele explica que a guerra na Ucrânia, ao restringir o acesso russo a mercados tradicionais como os do G7, tem levado o país a explorar ao máximo parcerias e trocas econômicas no Sul Global. Essa estratégia visa compensar as perdas e manter sua relevância no mercado energético internacional.
A busca por diversificação energética é uma tendência global, e a energia nuclear surge como uma opção atraente para muitos países que buscam reduzir a dependência de combustíveis fósseis e atender às metas de descarbonização. Nesse contexto, a Rússia, com sua tecnologia avançada e capacidade de produção, posiciona-se como um player fundamental, oferecendo soluções competitivas e estratégicas para nações em desenvolvimento e economias emergentes.
Brasil: um parceiro estratégico com potencial tecnológico e geopolítico
O Brasil, com seu programa nuclear pacífico já estabelecido e sua expertise em enriquecimento de urânio, apresenta um cenário de grande interesse para a Rússia. Marco Antonio de Freitas Coutinho sugere que, para o avanço do programa nuclear brasileiro, é crucial o acesso a conhecimentos que podem ser restritos pelos Estados Unidos e outros aliados da OTAN.
A parceria em energia nuclear com a Rússia já se consolidou como um “projeto do Estado brasileiro”, com tratativas que atravessam diferentes governos. Exemplos disso incluem a visita do então presidente Jair Bolsonaro a Moscou em 2022 e o encontro do vice-presidente Geraldo Alckmin com o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin em fevereiro deste ano, durante o Fórum Empresarial Brasil-Rússia.
A aproximação russa também pode ter um interesse particular em adquirir conhecimento sobre a tecnologia brasileira de centrífugas para enriquecimento de urânio, que se destaca pela eficiência e baixo custo. Sandro Teixeira Moita explica que essa tecnologia brasileira é conhecida por enriquecer urânio a um custo significativamente menor do que as centrífugas americanas ou francesas. Essa expertise pode ser um dos motivos para o aprofundamento do interesse russo, buscando entender e, possivelmente, replicar esse know-how.
Tecnologia brasileira de enriquecimento de urânio atrai interesse russo
A capacidade do Brasil em desenvolver tecnologia de ponta para o enriquecimento de urânio a custos competitivos tem despertado um interesse particular da Rússia. Sandro Teixeira Moita, professor da Eceme, aponta que o mercado de supridores nucleares busca compreender como o Brasil alcançou essa eficiência.
“Há interesse do mercado de supridores nucleares de entender como o Brasil desenvolveu essa tecnologia. E é uma coisa que a gente não abre. Então, essa aproximação russa também pode ser em busca de tentar entender esse know-how brasileiro de como fizeram uma centrífuga que, segundo algumas estimativas, enriquece urânio com um custo até 80% mais barato do que, por exemplo, as centrífugas americanas ou francesas”, explica o professor.
Moita relembra que essa tecnologia gerou inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) entre 2004 e 2006, que foram interpretadas por muitos como uma pressão americana e francesa para entender a tecnologia das centrífugas, mais do que uma preocupação com o status nuclear do Brasil. Essa expertise tecnológica brasileira pode ser um dos fatores que tornam o país um parceiro estratégico valioso para a Rússia no setor nuclear.
Riscos e tensões: o Brasil sob a mira de sanções americanas por parcerias com a Rússia
A expansão da parceria nuclear com a Rússia pode expor o Brasil a possíveis retaliações por parte dos Estados Unidos, especialmente considerando o histórico de Donald Trump em utilizar tarifas como ferramenta de pressão geopolítica. A Lei de Proibição das Importações de Urânio, aprovada recentemente pelo Congresso americano, é um indicativo dessa postura.
Trump já demonstrou sua disposição em impor tarifas sobre produtos importados da Rússia e de países que mantêm relações comerciais com Moscou. Em julho passado, ele ameaçou aplicar tarifas de 100% sobre produtos russos e taxas globais secundárias em patamares semelhantes a nações que compram do país de Putin, caso um acordo para encerrar a guerra na Ucrânia não fosse alcançado em 50 dias. Essa medida teria um impacto significativo no Brasil, que tem aumentado suas importações de diesel e fertilizantes russos.
Embora as tarifas secundárias globais não tenham sido impostas naquele momento, o caso da Índia serve como alerta: o país foi taxado em 25% por comprar petróleo russo, elevando o total de sobretaxas para 50% em suas exportações para os EUA. A Índia posteriormente concordou em reduzir as compras de petróleo russo, o que levou à redução das tarifas americanas sobre produtos indianos. Sandro Teixeira Moita adverte que, dependendo da estrutura da parceria nuclear com a Rússia, o Brasil pode enfrentar sanções e campanhas internacionais questionando seu programa nuclear, apesar de o país ter acordos que garantem a não produção de armamento nuclear.
Parceria nuclear: fins pacíficos ou militares? O que dizem os especialistas
A possibilidade de a Rússia propor a extensão da parceria nuclear com o Brasil para fins militares, como colaboração em armas ou no projeto de submarinos de propulsão nuclear, gera divergências entre os especialistas. Sandro Teixeira Moita acredita que a Rússia não tem como objetivo a cooperação militar nessa área, citando a composição das delegações russas, formadas por tecnocratas e não militares.
“Uma das poucas coisas em que as grandes potências concordam é que elas não querem proliferação nuclear. Então, eu acho que também não é do interesse dos russos que o Brasil prolifere, ou seja, adquira um armamento nuclear. O clube é pequeno, exclusivo, e quer continuar pequeno e fechado”, argumenta Moita, reforçando a ideia de que o interesse russo se concentra nos usos pacíficos da energia nuclear.
Por outro lado, Marco Antonio de Freitas Coutinho sugere que os russos “sempre” buscam estender suas parcerias para fins militares. Ele ressalta que acordos nucleares de alto nível, como os que poderiam ser firmados com a Rússia, frequentemente envolvem contrapartidas em aquisições de armas, mas enfatiza que tudo depende do interesse brasileiro. A questão da cooperação militar, portanto, permanece em aberto, sujeita às decisões estratégicas de ambos os países e ao contexto geopolítico internacional.