Santa Catarina: O Desafio Histórico da Esquerda em um Estado Conservador
Santa Catarina, um estado conhecido por sua forte inclinação política à direita e ao centro, apresenta um cenário desafiador para a esquerda brasileira. Desde a redemocratização, nenhum partido progressista alcançou a vitória na disputa pelo governo estadual, um dado estrutural que molda as dificuldades atuais do campo ideológico em se consolidar como uma força política relevante.
A análise de especialistas aponta para uma hegemonia consistente da direita e do centro na política catarinense desde os anos 1980. Embora coalizões lideradas por legendas de centro tenham, por vezes, incluído partidos progressistas, a liderança dos projetos estaduais permaneceu fora do espectro da esquerda.
Este panorama é reforçado por dados eleitorais e por análises de cientistas políticos, que detalham a consolidação de um eleitorado e de um sistema político menos receptivos às propostas da esquerda. As informações são baseadas em estudos de pesquisadores da UFSC e Udesc, e em consultorias políticas, conforme divulgado em análises recentes.
A Hegemonia da Direita e Centro na Política Catarinense
A trajetória política de Santa Catarina, desde o fim da ditadura militar, é marcada pela predominância de partidos de direita e centro. O professor Julian Borba, da UFSC, destaca que essa hegemonia se observa de forma contínua, com a liderança dos governos estaduais sempre pertencente a esses espectros ideológicos.
Exemplos históricos como as administrações do antigo PMDB (atual MDB) de Pedro Ivo Campos, Paulo Afonso Vieira e Luiz Henrique da Silveira ilustram essa dinâmica. Essas gestões, embora tenham formado alianças amplas que incluíam partidos de esquerda, mantiveram a condução política sob o controle de legendas de centro, sem que a esquerda assumisse a liderança dos projetos estaduais.
A análise de Borba sobre a composição das assembleias legislativas e da Câmara dos Deputados reforça esse quadro. Em 2018, a direita elegeu a maioria dos deputados federais e estaduais catarinenses. Em 2022, esse predomínio se acentuou, com a direita consolidando ainda mais sua representatividade no Legislativo estadual e federal.
O Impacto da “Onda Bolsonaro” em Santa Catarina
O ano de 2018 representou um divisor de águas na política de Santa Catarina, com a forte ascensão de Jair Bolsonaro e o alinhamento do eleitorado catarinense a essa onda conservadora. A eleição de Carlos Moisés ao governo pelo PSL, um nome até então pouco conhecido, e a conquista das maiores bancadas no Congresso e na Assembleia Legislativa pelo partido, evidenciaram essa mudança.
O desempenho de Bolsonaro em Santa Catarina foi o mais expressivo do país em 2018, com altos índices de aprovação em ambos os turnos. Quatro anos depois, em 2022, o ex-presidente manteve uma forte penetração no estado, superando os 62% dos votos no primeiro turno.
Essa influência bolsonarista moldou o cenário político, impulsionando candidaturas de direita e reforçando o conservadorismo no estado. Mesmo com a pulverização de candidaturas em 2022, o espectro da direita somou mais de 80% dos votos no primeiro turno para o governo, demonstrando a força desse campo ideológico.
A Nova Direita: Mais Ideológica e Menos Oligárquica
A ascensão de uma nova direita em Santa Catarina, impulsionada pela “onda Bolsonaro”, trouxe consigo uma mudança no perfil tradicional da direita no estado. O pesquisador Julian Borba aponta para o declínio de famílias políticas tradicionais, como os Bornhausen e Amin, que não conseguiram eleger representantes em 2022.
A nova direita emergente é descrita como menos oligárquica e mais ideológica, com forte ancoragem em pautas morais, como religião e gênero, além de uma agenda focada em segurança pública. Essa característica contribui para a polarização do debate político e para a consolidação de um eleitorado mais engajado em questões de costumes.
A fragmentação partidária, que se acentuou em 2018, deu lugar a uma estabilização em 2022, segundo Borba. Essa nova configuração reflete a força de um campo ideológico mais coeso em suas pautas centrais, mesmo diante de diferentes candidaturas.
Raízes Históricas e Culturais do Conservadorismo Catarinense
A dificuldade da esquerda em se firmar em Santa Catarina não é um fenômeno recente, mas sim o resultado de uma construção histórica e sociocultural do estado. Daniel Pinheiro, pesquisador da Udesc, aponta que a formação social e cultural de Santa Catarina, juntamente com sua tradição política, sempre esteve mais ligada ao centro e à direita.
Os valores econômicos e sociais predominantes no estado são intrinsecamente mais conservadores do que em outras regiões do país. Pinheiro destaca a forte conexão entre o poder econômico e o poder político em Santa Catarina, com o empresariado exercendo uma influência significativa.
Essa estrutura socioeconômica e cultural cria um ambiente menos propício para o avanço de propostas mais progressistas, mesmo em momentos de maior polarização nacional. A dificuldade da esquerda em Santa Catarina, portanto, transcende a agenda econômica, como aponta Andreia Maidana.
A Pauta de Costumes como Obstáculo para a Esquerda
A consultora política Andreia Maidana reforça que a principal barreira para a esquerda em Santa Catarina reside na pauta de costumes. O ambiente de polarização nacional, marcado pelo embate entre figuras como Bolsonaro e Lula, intensifica a escolha ideológica do eleitor catarinense, que demonstra uma afinidade histórica com o tradicionalismo e o conservadorismo.
Essa afinidade é associada à valorização do mérito pessoal, uma herança cultural das correntes imigratórias europeias que moldaram a identidade do estado. A esquerda, ao confrontar esses valores profundamente arraigados, encontra um terreno árduo para conquistar corações e mentes.
O forte antipetismo, que se intensificou após o impeachment de Dilma Rousseff, também contribui para a marginalização da esquerda, especialmente do PT, que, apesar de contar com lideranças históricas, não conseguiu construir uma base eleitoral sólida e expressiva no estado.
Estratégias da Esquerda para 2026: Pragmatismo e Novas Abordagens
Diante desse cenário desafiador, a esquerda em Santa Catarina busca estratégias para 2026. A pré-campanha já aponta para a preferência do eleitorado por nomes como Jorginho Mello, atual governador. Destaques como Décio Lima, do PT, aparecem em simulações de segundo turno, mas com desafios significativos.
Andreia Maidana sugere que a estratégia da esquerda no estado exige pragmatismo. Embora manter uma candidatura própria possa demonstrar resiliência, a formação de frentes e a composição com outros partidos podem ser caminhos mais viáveis para ampliar a influência política.
A consultora aponta a necessidade de romper o “antipetismo estrutural” e construir uma aproximação com o eleitorado religioso e conservador. Isso demandaria uma inflexão estratégica na comunicação, priorizando temas de impacto direto na vida cotidiana, como saúde, educação e segurança pública, que têm maior potencial de ressoar com o eleitorado.
O Papel da Comunicação e a Conquista do Eleitorado Conservador
A dificuldade em “furar a bolha” e superar o antipetismo estrutural é um dos maiores entraves para a esquerda em Santa Catarina. A comunicação precisa ser repensada para dialogar com um eleitorado que, em grande parte, se identifica com valores conservadores e religiosos.
A estratégia de focar em políticas públicas que afetam diretamente o cotidiano das pessoas pode ser um caminho para criar pontes. Quando uma política pública impacta positivamente a vida do cidadão, há uma chance maior de que ele reavalie suas escolhas políticas, independentemente de sua afiliação ideológica inicial.
A fragmentação interna e a ausência de uma liderança hegemônica estadual dentro do campo progressista também dificultam a reorganização. A construção de um projeto político coeso e a capacidade de apresentar alternativas concretas aos desafios do estado são cruciais para que a esquerda possa, eventualmente, superar as barreiras históricas em Santa Catarina.
Perspectivas para o Futuro: Desafios e Possibilidades
A análise do cenário político catarinense revela um desafio estrutural para a esquerda, enraizado em fatores históricos, culturais e sociais. A consolidação de um eleitorado conservador e a força de pautas de costumes criam um ambiente político que, historicamente, tem sido menos receptivo a propostas progressistas.
No entanto, o cenário político está em constante evolução. A capacidade da esquerda de se adaptar, dialogar com diferentes setores da sociedade e apresentar propostas que ressoem com as necessidades e valores do eleitorado catarinense será fundamental para determinar seu futuro no estado.
A busca por novas estratégias de comunicação, a formação de alianças pragmáticas e o foco em temas de impacto direto na vida das pessoas podem ser as chaves para a esquerda construir uma base mais sólida e, quem sabe, desafiar a hegemonia da direita e do centro em Santa Catarina nas próximas eleições.
Pesquisa Aponta Cenário Eleitoral em Santa Catarina
Uma pesquisa recente do instituto AtlasIntel, realizada entre os dias 25 e 30 de março, oferece um panorama das intenções de voto para as próximas eleições em Santa Catarina. Os resultados indicam uma preferência inicial pela reeleição do governador Jorginho Mello (PL), com cerca de 49% da preferência.
O ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), aparece em segundo lugar, com intenções de voto entre 21,4% e 20,9%. Gelson Merísio (Solidariedade) surge em outros cenários testados com 13,8%, enquanto Décio Lima (PT) alcança 19,6% em uma simulação.
Em um eventual segundo turno, o pré-candidato do PL, Jorginho Mello, aparece à frente dos demais adversários. Décio Lima, que chegou ao segundo turno em 2022, é o nome da esquerda que busca se fortalecer, enquanto a possibilidade de uma aproximação entre Merísio e lideranças do PT/PSB pode reconfigurar o campo da centro-esquerda.
Disputa pelo Senado e Estratégias de Alianças
Na disputa por uma das vagas no Senado, Caroline de Toni (PL) é a mais citada na pesquisa da AtlasIntel, com Esperidião Amin (PP) e Carlos Bolsonaro (PL) disputando a segunda cadeira. Neste ano, cada estado elegerá dois senadores.
Para Andreia Maidana, a estratégia da esquerda para o Senado e para o governo estadual deve ser pragmática. A formação de frentes e a composição de alianças são vistas como caminhos mais viáveis em um estado predominantemente conservador, onde o antipetismo ainda exerce forte influência.
A consultora enfatiza que a pulverização de candidaturas de esquerda pode ser prejudicial, e que a construção de um projeto unificado, que dialogue com as particularidades do eleitorado catarinense, é essencial para superar os desafios eleitorais e conquistar relevância política no estado.