Santa Catarina: O paradoxo da prosperidade e a baixa dependência de programas sociais
Santa Catarina apresenta um cenário econômico singular no Brasil, consolidando-se como o estado com a menor taxa de participação no programa Bolsa Família. Enquanto a média nacional atinge 17,2% dos domicílios beneficiados, o estado catarinense registra apenas 3,9% em 2025, uma queda em relação aos 4,3% de 2024. Este dado, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reflete uma tendência mais ampla de menor recepção de programas sociais em geral no estado, com apenas 6,9% dos lares recebendo benefícios como o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC), comparado à média nacional de 22,7%.
A explicação para essa realidade, segundo o governo estadual e especialistas, reside na forte ocupação do mercado de trabalho, com geração expressiva de empregos formais e a menor taxa de desocupação do país. O aumento da renda média e a melhor distribuição de renda também contribuem para diminuir a necessidade de auxílios governamentais. No entanto, a análise do Instituto Selo Social aponta para desafios persistentes em termos de igualdade social, com a existência de comunidades vulneráveis e disparidades regionais.
Essa dinâmica levanta um debate importante sobre como os indicadores de prosperidade econômica se traduzem em bem-estar social e se a geração de emprego e renda é suficiente para mitigar todas as formas de desigualdade. A discrepância entre os números de ocupação e a participação em programas sociais em Santa Catarina convida a uma análise mais profunda das políticas públicas e das características socioeconômicas do estado, conforme informações divulgadas pelo IBGE e pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
A força do mercado de trabalho catarinense: Emprego e baixa desocupação
O principal fator apontado para a baixa incidência do Bolsa Família em Santa Catarina é a pujança de seu mercado de trabalho. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que o estado gerou aproximadamente 59 mil empregos com carteira assinada em 2025. Essa geração contínua de vagas formais reflete um ambiente de negócios propício e uma economia dinâmica.
A consequência direta dessa geração de empregos é a baixa taxa de desocupação. No primeiro trimestre de 2026, Santa Catarina registrou a menor taxa do país, com apenas 2,7%, significativamente abaixo da média nacional de 6,1%. Essa realidade é visível nas plataformas públicas de intermediação de mão de obra, que frequentemente exibem milhares de oportunidades em diversos setores e regiões do estado. O governo estadual, liderado pelo governador Jorginho Mello (PL-SC), enxerga nesse cenário a principal política social: a criação de empregos.
A visão oficial é que um ambiente favorável aos negócios incentiva tanto a criação de empresas quanto a contratação formal, proporcionando renda e dignidade às famílias. Essa estratégia, segundo o governo, explica a menor dependência de programas de transferência de renda, pois o foco está em empoderar o cidadão através do trabalho.
Renda em alta e melhor distribuição: O impacto no bolso do catarinense
Os indicadores de renda em Santa Catarina também reforçam seu posicionamento de destaque nacional. Entre 2024 e 2025, o rendimento médio mensal do trabalho no estado cresceu 8,7%, passando de R$ 3.587 para R$ 3.900. Com isso, Santa Catarina se consolida na quarta posição entre os estados com maior renda média do país, ficando atrás apenas do Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro.
A Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços atribui essa elevação da renda à combinação de fatores, incluindo a abertura de novas empresas e a qualificação profissional. Programas como o “Universidade Gratuita” são parte da estratégia estadual para ampliar as oportunidades de trabalho formal e, consequentemente, reduzir a necessidade de programas de transferência de renda.
O secretário Edgard Usuy enfatiza que o aumento da renda do trabalhador impulsiona toda a economia. Ele destaca que o ambiente de negócios favorável de Santa Catarina é crucial para que essa dinâmica ocorra, incentivando a indústria, o comércio e os serviços. “O resultado aparece no bolso do catarinense. Rende mais, consome mais e cresce mais”, afirmou, resumindo o ciclo virtuoso.
Menor desigualdade relativa: Uma característica histórica do mercado de trabalho
O secretário de Planejamento, Arão Josino, corrobora a visão de que os indicadores atuais reforçam uma característica histórica do mercado de trabalho catarinense: alta taxa de ocupação, grande participação de vínculos formais e menor desigualdade relativa. Ele argumenta que é possível alcançar o crescimento econômico sem ampliar as disparidades sociais.
Santa Catarina consistentemente mantém a menor desigualdade de renda do país. Esse resultado, segundo Josino, reflete uma economia dinâmica que não apenas gera empregos, mas também valoriza o trabalhador. Essa combinação de fatores contribui para que menos famílias necessitem de programas de assistência social para garantir o sustento básico.
A política estadual tem focado em criar um ecossistema onde o trabalho formal e a geração de renda sejam acessíveis a uma parcela maior da população. A qualificação profissional, o incentivo ao empreendedorismo e a atração de investimentos são pilares dessa estratégia, visando uma distribuição de renda mais equitativa e uma menor dependência de programas assistenciais.
A outra face da moeda: Desafios sociais e a cobrança por igualdade
Apesar dos indicadores econômicos positivos, o Instituto Selo Social, com sede em Santa Catarina e atuação nacional, levanta a questão da desigualdade social persistente no estado. O presidente da entidade, Fernando Assanti, aponta que Santa Catarina abriga o maior número de favelas e comunidades urbanas fora das capitais, com mais de 160 comunidades identificadas pelo IBGE.
Assanti também destaca a forte migração interestadual para Santa Catarina em busca de trabalho e qualidade de vida. Embora o estado seja privilegiado em indicadores como emprego, renda, formalização e segurança, ele ressalta a importância de olhar para os desafios que ainda persistem. Dados do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades indicam que algumas cidades catarinenses enfrentam dificuldades em atingir metas relacionadas ao emprego e à erradicação da pobreza.
Essa dualidade, segundo Assanti, demonstra que Santa Catarina vive um estágio de desenvolvimento avançado em alguns aspectos, mas ainda apresenta desigualdades significativas entre suas regiões e territórios. A existência de comunidades vulneráveis e disparidades no acesso a serviços básicos, mesmo em um estado com forte economia, exige atenção contínua.
Além do emprego e renda: A necessidade de uma rede de proteção social robusta
Fernando Assanti argumenta que, embora o emprego e a renda sejam fatores cruciais para o bem-estar, eles não são suficientes para resolver todos os problemas sociais. Ele enfatiza a necessidade de que esses avanços econômicos caminhem lado a lado com uma rede de proteção social forte e acessível.
A garantia de acesso à educação de qualidade, serviços de saúde eficientes, assistência social e políticas públicas que assegurem dignidade às populações mais vulneráveis são essenciais. Essa visão ganha força em um estado que, apesar de bons números em emprego e renda, enfrenta pressões no custo de vida, especialmente em cidades como Florianópolis e Balneário Camboriú, onde moradia e serviços básicos podem se tornar inacessíveis para parte da população.
Assanti lembra que, mesmo com os avanços econômicos, Santa Catarina ainda apresenta baixos índices em indicadores importantes, como o de tratamento de esgoto. Isso ilustra que a prosperidade econômica não se traduz automaticamente em melhorias em todas as áreas da qualidade de vida e bem-estar social, reforçando a importância de políticas públicas abrangentes.
Políticas públicas: Uma visão integrada para o desenvolvimento social
A Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços de Santa Catarina defende que a redução da dependência de programas de transferência de renda é um objetivo alcançado através de uma estratégia integrada. A abertura de empresas, a qualificação profissional e a geração de empregos formais são vistas como os pilares dessa abordagem.
Programas como o “Universidade Gratuita” são exemplos de iniciativas que visam capacitar a população e prepará-la para o mercado de trabalho, reduzindo a necessidade de auxílios. A ideia é que, ao oferecer mais oportunidades de trabalho e melhores salários, as famílias se tornem menos dependentes de programas sociais.
O governo estadual acredita que o investimento em um ambiente de negócios favorável é a chave para o desenvolvimento social. Ao permitir que os catarinenses criem seus próprios negócios ou garantam empregos formais, o estado promove uma forma mais sustentável de ascensão social, baseada na autossuficiência e na geração de riqueza.
O papel do Estado e a busca por um desenvolvimento inclusivo
A discussão sobre a baixa participação de Santa Catarina no Bolsa Família se insere em um debate maior sobre o papel do Estado no desenvolvimento social e econômico. Enquanto o governo estadual comemora os resultados da geração de emprego e renda como prova de sua política econômica, entidades como o Instituto Selo Social alertam para a necessidade de não negligenciar as populações mais vulneráveis.
A coexistência de indicadores econômicos robustos com a presença de comunidades carentes e desafios em áreas como saneamento básico e acesso a serviços essenciais demonstra a complexidade do desenvolvimento social. A busca por um estado que combine prosperidade econômica com igualdade social exige políticas públicas multifacetadas e um olhar atento às desigualdades regionais e setoriais.
O desafio para Santa Catarina, e para o Brasil como um todo, é encontrar o equilíbrio entre a promoção do crescimento econômico e a garantia de uma rede de proteção social eficaz, assegurando que os avanços em uma área não se façam às custas de retrocessos em outra. A análise contínua dos indicadores sociais e econômicos é fundamental para orientar políticas que promovam um desenvolvimento verdadeiramente inclusivo e sustentável para todos os cidadãos.