Sobrevivente do Massacre de Carajás relata drama de viver com bala no olho há três décadas

Trinta anos após o brutal massacre de Eldorado dos Carajás, onde 19 pessoas foram assassinadas e outras duas morreram dias depois em decorrência dos ferimentos, a luta por justiça e dignidade continua para os sobreviventes. Zélio Carlos, então com 18 anos, foi atingido no olho direito por um tiro de fuzil durante a marcha pela rodovia, um projétil que permanece alojado até hoje, causando sequelas e dificultando sua vida. O caso é um dos muitos que expõem a persistente falta de assistência médica adequada para aqueles que foram vítimas da violência do Estado.

A tragédia ocorrida em 17 de abril de 1996, quando a Polícia Militar reprimiu violentamente uma manifestação de trabalhadores rurais sem terra do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Curva do S, em Eldorado do Carajás, no sudeste do Pará, marcou profundamente a história do Brasil. Naquela tarde, a estrada que deveria ser um caminho de reivindicação por terra se tornou palco de um dos mais sangrentos episódios de violência no campo. Apenas dois comandantes da operação foram condenados por homicídio, em um processo que muitos consideram longe de ser concluído.

Em meio às comemorações e atos que marcam as três décadas do massacre, Zélio Carlos e dezenas de outros sobreviventes seguem enfrentando as consequências físicas e psicológicas do evento. A falta de acompanhamento médico contínuo e a luta por indenizações e tratamentos prometidos pelo Estado do Pará se tornaram o novo campo de batalha para aqueles que sobreviveram àquele 17 de abril, conforme informações divulgadas por associações de vítimas e pelo próprio MST.

O dia que mudou a vida de Zélio Carlos e dezenas de famílias

Zélio Carlos chegou ao acampamento na fazenda Macaxeira poucos dias antes do massacre. Migrante do Maranhão, sua família buscava no sudeste do Pará, atraída pela febre do ouro de Serra Pelada, uma vida melhor, que acabou se transformando em trabalho em fazendas sem acesso à terra própria. Ele se juntou aos pais no acampamento e, em menos de dez dias, já participava da marcha em direção a Marabá, pressionando o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso pela desapropriação da fazenda.

A marcha pacífica foi interceptada pela Polícia Militar, que cercou a estrada e avançou com violência. Inicialmente, Zélio pensou se tratar de bombas de efeito moral, mas a realidade brutal se impôs quando viu um companheiro, Amâncio dos Santos Silva, conhecido como Surdinho, cair após ser alvejado. A percepção mudou drasticamente: não era uma tentativa de dispersão, mas sim um ataque com munição letal. Ao tentar se afastar, Zélio foi atingido diretamente no olho direito.

“O policial apontou na minha cara. Na testa. Pra matar”, relata Zélio Carlos, com a voz embargada pela memória. A bala entrou e ele caiu, sentindo um peso imenso, mas sem a dor imediata. “Na hora não dói. Ela pesa demais e você cai”, descreve. Apesar do ferimento grave, conseguiu se levantar com a ajuda de outros trabalhadores e seguir caminhando, sem compreender a extensão do dano. “Esse olho aqui não é mais meu”, disse ele, referindo-se à visão comprometida pela bala que nunca foi retirada.

A luta contínua por assistência médica e o abandono do Estado

A bala alojada no olho de Zélio Carlos é um lembrete constante da violência sofrida. Ele afirma ter recebido acompanhamento médico determinado pela Justiça em determinado momento, mas que o tratamento foi interrompido. Atualmente, com o apoio de um advogado e da associação de sobreviventes, ele tenta reestabelecer o atendimento. “A gente tá correndo atrás pra ver se consegue de novo”, desabafa.

A situação de Zélio Carlos não é isolada. Maurílio da Silva Soares, presidente da associação das vítimas, conhecida como Mártires de Carajás, afirma que dezenas de sobreviventes ainda lidam com sequelas graves e a falta de acesso regular ao atendimento médico, previsto em decisões judiciais e acordos firmados com o Estado do Pará desde o final da década de 1990. “O massacre não acabou. Ele continua na vida dessas pessoas”, lamenta Soares.

Segundo a associação, entre os 69 trabalhadores feridos no massacre, pelo menos 25 ainda aguardam indenização e enfrentam dificuldades para manter o tratamento médico. A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) declarou que aguarda a formalização das demandas pelos representantes dos sobreviventes para dar andamento aos trâmites administrativos no Sistema Único de Saúde (SUS). A Sespa informou, ainda, que os documentos necessários ainda não foram encaminhados, apesar de solicitações anteriores, e não detalhou quantos sobreviventes são atendidos atualmente.

O Massacre de Carajás: um marco na luta pela terra e na violência no campo

O Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1996, é um dos eventos mais emblemáticos da luta pela reforma agrária no Brasil. Naquele dia, cerca de 1.500 trabalhadores rurais sem terra, acampados na fazenda Macaxeira, decidiram marchar em direção a Marabá, em protesto contra a morosidade do governo em desapropriar terras improdutivas. A marcha pacífica foi violentamente reprimida pela Polícia Militar do Pará, resultando na morte de 19 pessoas no local e outras duas nos dias seguintes.

O confronto, que ficou conhecido como o Massacre da Curva do S, gerou comoção nacional e internacional, intensificando o debate sobre a reforma agrária e a violência no campo. A resposta do Estado, no entanto, foi marcada por uma investigação considerada falha e pouca punição aos responsáveis diretos pela ação. Dos 144 policiais denunciados, apenas dois comandantes da operação, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Oliveira, foram condenados por homicídio qualificado.

A tragédia é um reflexo da histórica disputa por terras no Brasil, acentuada no Pará pela concentração fundiária e pela atuação de grandes proprietários rurais, muitas vezes com apoio de forças de segurança. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) aponta o Pará como o estado com o maior número de assassinatos no campo no país, com 1.003 mortes registradas entre 1980 e 2024, majoritariamente concentradas nas regiões sul e sudeste paraenses.

A dura realidade dos sobreviventes: sequelas e a busca por reparação

Maurílio da Silva Soares, conhecido no movimento como Mácio Lima, também foi ferido no dia do massacre, atingido por estilhaços e uma coronhada no braço esquerdo. Ele preside a associação das vítimas e dedica-se a cobrar do Estado o cumprimento das promessas de reparação. “No nosso caso foi o governo que provocou as sequelas. Então, o governo tem que dar uma atenção especial. Nossos sobreviventes estão morrendo por falta de assistência médica”, afirma Soares, ressaltando que muitos sobreviventes estão na fila do SUS como qualquer outro cidadão, sem o atendimento especializado que demandam.

A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) do Pará declarou que o estado cumpre as obrigações assumidas junto à União no âmbito do Sistema Interamericano de Direitos Humanos e que todas as decisões judiciais referentes ao caso foram cumpridas e liquidadas. No entanto, a percepção dos sobreviventes e de seus representantes é de abandono e descaso.

Poliana Soares, da coordenação nacional do setor de direitos humanos do MST, reforça que os sobreviventes nunca deixaram de cobrar seus direitos. Ela destaca que a pressão, mantida pelos próprios atingidos ao longo dos anos, voltou a ganhar força com o apoio do movimento diante da persistência das violações. A atuação atual envolve articulação política, audiências públicas e a pressão para que o Estado cumpra as obrigações assumidas, principalmente as de indenização e tratamento médico.

A tramitação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos: uma longa espera por justiça

O caso do Massacre de Eldorado dos Carajás foi apresentado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em 1996 pelo MST e pelo Centro pela Justiça e o Direito Internacional. A petição apontava a responsabilidade do Estado brasileiro pelas mortes, ferimentos e falhas na investigação e punição dos responsáveis. Em 2003, a CIDH declarou a petição admissível, mas a tramitação do caso segue há décadas, sem uma decisão final.

Essa longa espera por uma resolução definitiva na esfera internacional reflete a dificuldade histórica em obter justiça e reparação para as vítimas de violência no campo no Brasil. Enquanto isso, Zélio Carlos e tantos outros sobreviventes continuam a carregar as marcas físicas e emocionais daquele dia, lutando diariamente por dignidade e pelo direito a uma vida plena, livre das sequelas deixadas pela violência do Estado.

Marcha em memória e em defesa da reforma agrária marca os 30 anos do massacre

Em memória às vítimas e em defesa da reforma agrária, o MST organiza uma marcha de cinco dias entre Curionópolis e Eldorado do Carajás, com atividades políticas, debates e culturais ao longo do percurso. A mobilização culmina na Curva do S, local do massacre, onde um ato será realizado para honrar os que tombaram e reforçar a luta pela terra, um direito fundamental ainda negado a milhares de famílias brasileiras.

Zélio Carlos, apesar das dificuldades impostas pela bala em seu olho, participa ativamente dos movimentos e das marchas. Ele foi assentado no Projeto de Assentamento 17 de Abril, criado na antiga fazenda Macaxeira, onde viveu por cerca de 20 anos. No entanto, com o agravamento das dores e a impossibilidade de manter o trabalho, vendeu o lote e se mudou para Eldorado do Carajás, na esperança de encontrar o tratamento médico que lhe é negado há tanto tempo. A sua história é um retrato pungente da luta contínua por justiça e reparação.

O legado de violência no campo e a persistência da luta por direitos

O Pará se destaca como palco de uma violência histórica no campo, intensificada após a repressão à Guerrilha do Araguaia na década de 1970. O livro “Assassinatos e Impunidade no Campo no Pará: 1980 a 2024”, de José Batista Gonçalves Afonso e Airton dos Reis Pereira, com dados da CPT, aponta que o estado registrou 1.003 assassinatos no campo entre 1980 e 2024, um número alarmante que reflete a persistente disputa por terra e os conflitos agrários na região.

A luta pela terra no Brasil é intrinsecamente ligada a um histórico de violência e impunidade, onde a morosidade do sistema judiciário e a falta de efetividade das políticas públicas deixam vítimas como Zélio Carlos e tantos outros sobreviventes do Massacre de Carajás à margem da sociedade, sem o amparo e a dignidade que merecem. A mobilização em torno dos 30 anos do massacre serve como um poderoso lembrete da necessidade de se aprofundar a reforma agrária e garantir os direitos humanos de todos os trabalhadores rurais.

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