Suíça Rompe Sigilo: Arquivos Secretos de Josef Mengele Serão Divulgados Após 70 Anos
O Serviço Federal de Inteligência da Suíça anunciou que tornará públicos arquivos sigilosos relacionados a Josef Mengele, o notório criminoso de guerra nazista conhecido como o “Anjo da Morte”. Mengele, que fugiu da Europa após a Segunda Guerra Mundial e faleceu no Brasil em 1979, foi médico em Auschwitz e realizou experimentos cruéis em prisioneiros. A decisão marca uma virada significativa após anos de negativas em conceder acesso aos documentos, apesar das repetidas solicitações de historiadores e do histórico de especulações sobre sua possível passagem pela Suíça.
A divulgação desses arquivos pode lançar nova luz sobre os movimentos e contatos de Mengele após a guerra. Historiadores argumentam que o sigilo prolongado apenas alimenta teorias da conspiração e dificulta a compreensão completa do destino de um dos mais temidos nazistas. A pressão por transparência, inclusive através de ações judiciais, parece ter sido o fator decisivo para a mudança de postura das autoridades suíças.
Embora a Suíça tenha se posicionado como neutra durante a Segunda Guerra Mundial, seu papel no auxílio, mesmo que indireto ou involuntário, a nazistas em fuga tem sido objeto de escrutínio. A promessa de acesso aos arquivos de Mengele, ainda que sujeita a “condições e requisitos”, representa um passo importante para a apuração histórica e para a memória coletiva sobre o Holocausto e seus perpetradores. A notícia foi divulgada pelo Serviço Federal de Inteligência da Suíça neste mês.
Quem Foi Josef Mengele, o “Anjo da Morte” de Auschwitz
Josef Mengele foi um médico alemão e oficial da Waffen-SS, um ramo da organização paramilitar nazista SS. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi designado para o campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada pelos nazistas. Sua função principal era selecionar os prisioneiros recém-chegados que seriam enviados diretamente para as câmaras de gás, onde estima-se que 1,1 milhão de pessoas, incluindo cerca de um milhão de judeus, foram assassinadas.
Mengele ganhou o apelido de “Anjo da Morte” devido à sua crueldade e aos sádicos experimentos médicos que realizava em prisioneiros. Ele demonstrava particular interesse em gêmeos e crianças, submetendo-os a procedimentos dolorosos e muitas vezes fatais, com o objetivo de avançar suas pesquisas pseudocientíficas. Após a guerra, ele se tornou um dos criminosos de guerra mais procurados, mas conseguiu escapar da justiça por décadas.
A Fuga e a Vida de Mengele Após a Guerra
Após a derrota da Alemanha nazista em 1945, Mengele, como muitos outros oficiais de alto escalão, utilizou táticas de dissimulação para evitar a captura. Ele trocou seu uniforme e adotou uma nova identidade. Com documentos falsos obtidos através da Cruz Vermelha, ele conseguiu fugir da Europa, utilizando um documento de viagem emitido no consulado suíço em Gênova, na Itália. A Cruz Vermelha, que pretendia fornecer ajuda humanitária a pessoas deslocadas pela guerra, posteriormente se desculpou pelo fato de nazistas terem conseguido obter seus documentos.
Mengele partiu para a América do Sul em 1949, estabelecendo-se inicialmente na Argentina. Ao longo dos anos, ele viveu em diferentes países sul-americanos, incluindo Paraguai e Brasil, sempre sob diferentes identidades e com o auxílio de redes de fuga que facilitavam a ocultação de criminosos de guerra nazistas. Apesar dos esforços internacionais para capturá-lo, ele permaneceu foragido até sua morte no Brasil, em 1979, vítima de um afogamento, sendo enterrado sob um nome falso.
A Conexão Suíça: Rumores e Evidências de Passagens
Apesar de ter deixado a Europa em 1949, a relação de Mengele com a Suíça tem sido objeto de especulação e investigação. Sabe-se que, em 1956, ele tirou férias esquiando nos Alpes suíços com seu filho Rolf, um fato conhecido desde a década de 1980. No entanto, a possibilidade de ele ter retornado à Europa, especialmente após a emissão de um mandado internacional de prisão em 1959, sempre intrigou historiadores.
A historiadora suíça Regula Bochsler, em sua pesquisa sobre o papel da Suíça como país de trânsito para nazistas em fuga, descobriu informações que sugerem uma presença mais significativa de Mengele no país. Em junho de 1961, o serviço de inteligência austríaco alertou as autoridades suíças sobre a possibilidade de Mengele estar em território suíço, viajando com um nome falso. Paralelamente, a esposa de Mengele havia alugado um apartamento em Zurique e solicitado residência permanente, o que levantou suspeitas sobre os planos do casal.
Vigilância e Suspeitas em Zurique
A pesquisa de Regula Bochsler revelou que, em 1961, o apartamento alugado pela Sra. Mengele em Zurique foi colocado sob vigilância policial. Registros indicam que ela foi vista dirigindo seu Volkswagen acompanhada por um homem não identificado, o que levanta a forte suspeita de que o homem fosse o próprio Josef Mengele. A localização do apartamento, em um subúrbio próximo ao aeroporto internacional, também pode ter sido estratégica.
A prisão de um criminoso de guerra procurado como Mengele em 1961 teria envolvido a polícia federal suíça. Contudo, o acesso aos arquivos relacionados a esse período foi negado a Bochsler e a outros historiadores por décadas. Os arquivos foram mantidos lacrados por razões de segurança nacional e proteção familiar, com data de abertura prevista apenas para 2071, o que gerou críticas sobre a falta de transparência.
A Luta por Transparência e a Mudança de Posição Suíça
A recusa em liberar os arquivos de Mengele gerou frustração e críticas. O historiador Gérard Wettstein, que teve seu pedido de acesso negado em 2015, contestou a decisão judicialmente, arrecadando fundos para cobrir os custos do processo. Ele argumentou que o sigilo prolongado alimentava teorias conspiratórias e que a Suíça deveria ser mais transparente sobre seu papel durante e após a guerra.
Diante da pressão contínua e das ações legais, o Serviço Federal de Inteligência da Suíça finalmente cedeu. Em um comunicado recente, a agência anunciou que o acesso aos arquivos será concedido, embora sujeito a “condições e requisitos ainda a serem definidos”. Essa mudança de postura é vista como um avanço, mas a incerteza sobre o conteúdo e o nível de censura nos documentos permanece.
O Que os Arquivos Podem Revelar e o Papel de Agências de Inteligência
Especialistas divergem sobre o que os arquivos suíços sobre Mengele podem revelar. Sacha Zala, presidente da Sociedade Suíça de História, expressou ceticismo quanto a informações diretamente sobre Mengele, mas suspeita que os documentos possam conter referências a serviços de inteligência estrangeiros. Ele especula que o Mossad, agência de inteligência de Israel, que na época caçava ativamente criminosos de guerra nazistas, pode ter tido contato com as autoridades suíças.
Caso haja menções a operações do Mossad ou de outras agências de inteligência, isso explicaria, em parte, a relutância suíça em divulgar os arquivos, pois informações confidenciais envolvendo serviços de inteligência estrangeiros costumam ser omitidas. No entanto, Zala critica essa abordagem, argumentando que a falta de transparência e o sigilo excessivo, especialmente em casos de conhecimento público como a perseguição a nazistas, apenas reforçam desconfianças e teorias conspiratórias.
O Legado do Sigilo: Transparência Histórica vs. Segurança Nacional
O prolongado sigilo em torno dos arquivos de Mengele levanta questões mais amplas sobre o conflito entre a segurança nacional e a transparência histórica na Suíça. Historiadores como Jakob Tanner, que participou da Comissão Bergier, que investigou as relações da Suíça com a Alemanha nazista, apontam que a prioridade da segurança nacional muitas vezes prevalece no país.
Tanner relembra o papel sensível da Suíça durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo a rejeição de refugiados judeus nas fronteiras e o papel dos bancos suíços na custódia de bens de famílias judias que mais tarde foram assassinadas. Ele considera que manter arquivos fechados por tanto tempo é problemático para um Estado democrático. A possibilidade de Mengele ter estado na Suíça em 1961 é considerada plausível, especialmente considerando a captura de Adolf Eichmann pelo Mossad em 1960 e o medo de outros nazistas fugitivos de serem rastreados na América do Sul.
Incertezas e Preocupações com a Divulgação Futura
Apesar do anúncio de acesso, incertezas pairam sobre a divulgação dos arquivos. Nenhuma data específica foi definida, e a menção a “condições e requisitos” gera apreensão entre os historiadores. Gérard Wettstein teme que os documentos sejam “mais pretos do que transparentes”, com censura significativa. Regula Bochsler compartilha essa preocupação, comparando a situação com a divulgação de arquivos relacionados a Jeffrey Epstein, e questionando os motivos do sigilo prolongado sobre Mengele.
Josef Mengele permanece uma figura envolta em mistério, boatos e teorias conspiratórias. Nunca julgado ou condenado por seus crimes hediondos, sua morte no Brasil em 1979 sob um nome falso apenas adicionou camadas de enigma à sua história. A exumação de seu corpo em 1985 e os testes de DNA em 1992 confirmaram sua identidade, mas as perguntas sobre sua presença na Suíça e o papel das autoridades suíças em sua possível ocultação persistem.
O Que Esperar dos Arquivos de Mengele
A divulgação dos arquivos promete, ao menos, trazer mais clareza sobre a extensão do envolvimento suíço, se houver, com a fuga e possível permanência de Josef Mengele em seu território. A expectativa é que, mesmo com possíveis omissões, os documentos ofereçam um vislumbre mais concreto sobre os últimos anos de um dos mais infames criminosos do regime nazista, contribuindo para a memória histórica e para a justiça, mesmo que tardia. A verdade completa pode nunca ser totalmente desvendada, mas o acesso aos arquivos é um passo crucial nessa busca.