Sul-coreanas reavaliam maternidade e impulsionam leve alta na taxa de fertilidade
A Coreia do Sul, país conhecido por suas baixas taxas de natalidade, observa um movimento encorajador: as mulheres sul-coreanas demonstram um interesse crescente em ter filhos, levando a uma modesta, mas significativa, alta na taxa de fertilidade nacional. Essa reversão, ainda que incipiente, representa um sopro de esperança em meio a preocupações globais com o declínio populacional.
Dados recentes do Ministério de Dados e Estatísticas revelam que o número de nascimentos em 2025 registrou um aumento de 6,7% em relação ao ano anterior, alcançando o maior patamar desde 2021. A taxa de fertilidade subiu para 0,8, marcando a segunda alta consecutiva e sinalizando uma mudança de paradigma no país.
Embora a taxa de 0,8 ainda esteja distante dos 2,1 filhos por mulher necessários para a reposição populacional, o crescimento observado nos últimos dois anos indica que as políticas públicas e as mudanças culturais começam a surtir efeito, conforme informações divulgadas pelo Ministério de Dados e Estatísticas.
Um Cenário de Declínio Interrompido: Números Indicam Virada Cultural
Por anos, a Coreia do Sul enfrentou um dos maiores desafios demográficos do mundo, com taxas de fertilidade em queda livre. Em 2025, no entanto, o país registrou 254,3 mil bebês nascidos, um aumento de 6,7% em comparação com 2024. Este é o número mais expressivo desde 2021, segundo o Ministério de Dados e Estatísticas. A taxa de fertilidade, que mede o número médio de filhos por mulher, atingiu 0,8 no último ano, a segunda alta consecutiva. A variação de 0,72 para 0,75 entre 2023 e 2024 já havia sido o primeiro crescimento registrado desde 2015, indicando uma tendência de reversão.
O Que Explica a Mudança de Mentalidade das Sul-coreanas?
A mudança de perspectiva em relação à maternidade na Coreia do Sul não é um fenômeno espontâneo, mas sim o resultado de uma combinação de fatores. Um dos principais impulsionadores é a percepção de que o ambiente social e corporativo para pais está se tornando mais favorável. Pesquisas apontam um aumento significativo na proporção de mulheres sul-coreanas solteiras ou casadas sem filhos que expressam o desejo de ter filhos. Entre 2024 e 2026, essa porcentagem saltou de 23,1% para 31,1%, de acordo com dados do Comitê Presidencial sobre a Sociedade em Envelhecimento e Política Populacional.
Kim Jin-oh, vice-presidente do Comitê Presidencial, enfatiza a importância do aprofundamento das políticas públicas para consolidar essa tendência. “Trabalharemos na implementação de medidas políticas e institucionais, incluindo o incentivo a uma cultura mais favorável à maternidade e à parentalidade, bem como a criação de condições de trabalho que permitam aos funcionários tirar licença parental sem receio de estigma”, declarou Kim ao The Korea Times. Essa declaração ressalta a necessidade de um esforço contínuo para criar um ecossistema de apoio.
Políticas Públicas e Incentivos Governamentais: Um Esforço Multifacetado
O governo sul-coreano tem intensificado seus esforços para combater a baixa taxa de natalidade através de diversas políticas. Nos últimos anos, foram implementados subsídios para habitação e cuidados infantis, auxílio financeiro para novos pais e a ampliação dos períodos de licença-maternidade e paternidade. Essas medidas visam aliviar o fardo financeiro e logístico associado à criação de filhos, tornando a decisão de ter uma família mais acessível e menos intimidadora.
A expansão das licenças parentais, em particular, tem sido um ponto crucial. A percepção de que as empresas estão se tornando mais compreensivas com as necessidades dos pais é um fator de peso. Uma mulher identificada apenas como Kim, em entrevista à CNN, relatou que o ambiente de trabalho mudou consideravelmente. “Antigamente, os gestores — em sua maioria homens de meia-idade — tinham pouca compreensão sobre a licença parental. Mas agora, a mentalidade mudou para ‘é claro que você deve tirar a licença’, então acho que o peso diminuiu um pouco”, observou ela, destacando a evolução na cultura corporativa.
O Papel Crucial do Apoio Familiar na Decisão de Ser Mãe
Embora as políticas governamentais e as mudanças no ambiente de trabalho sejam importantes, a decisão de ter filhos é profundamente influenciada pelo círculo familiar. Um estudo recente, conduzido pelas pesquisadoras Gowoon Jung e Juyeon Park, da Universidade da Coreia e da Universidade Yonsei, respectivamente, revelou que o apoio familiar desempenha um papel tão ou mais significativo do que os incentivos estatais. O estudo baseou-se em discussões com 33 mulheres casadas que inicialmente pretendiam não ter filhos, mas 14 delas mudaram de ideia após esses debates.
As pesquisadoras observaram que o “pronatalismo familiar” atua como uma força cultural integrada ao cotidiano, moldando percepções sobre o momento ideal para ter filhos, a realização pessoal e a continuidade intergeracional. “Em vez de encarar as decisões reprodutivas como cálculos isolados, nossas descobertas destacam como as escolhas das mulheres são estruturadas relacionalmente no âmbito de redes de parentesco expandidas, nas quais ter filhos é algo sutilmente incentivado, apoiado e normalizado”, explicaram Gowoon e Juyeon em seu estudo divulgado em agosto.
A Repercussão da Mudança Cultural no Cotidiano
A transformação na mentalidade das sul-coreanas é um reflexo de um amadurecimento da sociedade em relação à parentalidade. A jovem mãe Kim exemplifica essa mudança, ao afirmar que o “clima” em torno da questão de ter filhos se alterou drasticamente em comparação com uma década atrás. A maior disponibilidade e aceitação das licenças parentais, aliadas a um aumento na oferta de benefícios corporativos, contribuem para um cenário onde a maternidade é vista com menos receio e mais como uma possibilidade viável e apoiada.
Essa percepção renovada é crucial, pois a Coreia do Sul historicamente enfrentou uma forte pressão social e profissional que desencorajava a formação de famílias. O estigma associado à licença parental, especialmente para as mulheres, estava profundamente enraizado. A atual mudança indica um rompimento com esse passado, onde a vida profissional e a maternidade começam a encontrar um equilíbrio mais sustentável.
Desafios Futuros e a Necessidade de Consolidação das Políticas
Apesar do otimismo gerado pela alta nas taxas de fertilidade, especialistas alertam que o caminho para reverter completamente a tendência de declínio populacional ainda é longo. A taxa de 0,8, embora crescente, permanece significativamente abaixo do nível de reposição de 2,1. Kim Jin-oh, do Comitê Presidencial, ressalta a necessidade de aprofundar as políticas existentes e explorar novas medidas para sustentar e acelerar essa recuperação. O foco em uma cultura mais favorável à maternidade e à parentalidade, juntamente com a garantia de condições de trabalho que permitam a licença parental sem preconceitos, são vistos como pilares essenciais.
A influência do apoio familiar, como destacado no estudo de Gowoon Jung e Juyeon Park, sugere que as estratégias de intervenção também devem considerar o fortalecimento dos laços familiares e a promoção de um ambiente familiar mais acolhedor para a decisão de ter filhos. A integração dessas abordagens, combinando políticas estatais com o reforço do tecido social e familiar, será fundamental para garantir que a atual tendência de crescimento na fertilidade se consolide e contribua para um futuro demográfico mais equilibrado na Coreia do Sul.
O Impacto a Longo Prazo: Equilíbrio Populacional e Bem-Estar Social
A reversão da queda nas taxas de fertilidade na Coreia do Sul tem implicações profundas para o futuro do país. Um aumento sustentado no número de nascimentos pode ajudar a mitigar os efeitos do envelhecimento populacional, como a escassez de mão de obra, a pressão sobre os sistemas de previdência social e a diminuição do dinamismo econômico. A mudança de mentalidade das mulheres sul-coreanas, que agora demonstram maior abertura à maternidade, é um sinal positivo de que o país está encontrando caminhos para um equilíbrio demográfico mais saudável.
A normalização da licença parental e o apoio corporativo e familiar criam um ambiente onde as mulheres se sentem mais seguras e encorajadas a conciliar a vida profissional com a maternidade. Essa evolução cultural é essencial para garantir que o crescimento populacional não ocorra à custa do bem-estar individual ou da progressão na carreira das mulheres. O sucesso a longo prazo dependerá da continuidade e do aprimoramento dessas políticas e da constante adaptação às necessidades da sociedade.
Perspectivas e o Caminho à Frente para a Coreia do Sul
O cenário demográfico da Coreia do Sul está em transição. A leve, mas promissora, alta na taxa de fertilidade é um testemunho da resiliência e da capacidade de adaptação do país diante de desafios complexos. A combinação de políticas governamentais inovadoras, uma crescente conscientização sobre a importância do apoio familiar e uma mudança cultural nas empresas e na sociedade em geral, está pavimentando o caminho para um futuro onde ter filhos seja uma escolha mais acessível e desejável.
O monitoramento contínuo desses indicadores e a adaptação das estratégias serão cruciais. A Coreia do Sul, ao enfrentar e começar a superar sua crise de fertilidade, pode se tornar um modelo para outras nações que lidam com desafios demográficos semelhantes, demonstrando que a reversão de tendências negativas é possível com planejamento, investimento e uma profunda compreensão das dinâmicas sociais e culturais.