Sul do Brasil celebra conquista inédita no cenário mundial da queijaria artesanal

A região Sul do Brasil, com seus atributos climáticos e geográficos singulares, aliada a uma forte tradição de colonização europeia e uma cadeia leiteira consolidada, tem se destacado cada vez mais no cenário internacional da produção de queijos. Recentemente, na 4ª edição do Mundial do Queijo do Brasil, realizada em São Paulo, pequenos produtores do Paraná e, especialmente, de Santa Catarina, demonstraram a excelência de seus produtos, conquistando premiações e reconhecimento global.

O estado catarinense, em particular, celebrou uma vitória expressiva ao ter o queijo Reserva do Vale, da Queijos Possamai, eleito o melhor queijo do mundo. Este feito, que se repete pela segunda vez consecutiva para Santa Catarina em edições do mundial, reafirma a capacidade da região em produzir itens que competem e superam as expectativas em um mercado altamente exigente, conforme informações divulgadas pela organização do evento.

A combinação de fatores como o clima frio e úmido, que favorece processos de maturação controlados e com menos defeitos, e um terroir diversificado, que confere identidades únicas aos produtos, são apontados como diferenciais cruciais para o sucesso. Essa herança cultural e natural, aliada à inovação e ao rigor técnico, tem impulsionado a queijaria do Sul do Brasil a um patamar de excelência reconhecido mundialmente.

O Segredo do Terroir Sulista e a Vantagem Climática para Queijos de Excelência

A presidente da 4ª edição do Mundial de Queijos, Débora Pereira, destaca que o clima mais frio e úmido do Sul do Brasil proporciona uma vantagem significativa na produção de queijos. Essa condição climática favorece curas mais controladas, minimizando o desenvolvimento de defeitos e a presença de sabores indesejados, como o ranço. Regiões como os Campos Gerais, no Paraná, são citadas como exemplos de terroirs excepcionais, com pastagens que remontam a descrições históricas de paraísos naturais.

O conceito de terroir, que engloba a combinação única de fatores ambientais e humanos de uma região, é fundamental para entender a identidade e a qualidade dos queijos sulistas. Marlon Possamai, proprietário da Queijos Possamai, explica que o Reserva do Vale, queijo premiado como o melhor do mundo, foi desenvolvido para expressar precisamente o terroir da fazenda homônima, localizada no Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina. A maturação de aproximadamente 12 meses e o uso exclusivo de matéria-prima proveniente da própria produção são fatores chave para seu sabor e textura únicos.

Possamai detalha que o diferencial do Reserva do Vale reside na qualidade do leite, ordenhado e processado rapidamente, na seleção específica de fermentos e no processo de maturação que desenvolve cristais de tirosina, conferindo notas de amêndoas e caramelo. Essa atenção minuciosa aos detalhes, desde a origem do leite até o processo final de maturação, é o que eleva o produto a um alto valor agregado e o distingue no mercado.

Tradição Familiar e Inovação: A Receita para o Reconhecimento Internacional

A história da Queijos Possamai é um exemplo de como a tradição familiar, combinada com a busca por inovação, pode levar ao sucesso. Além do Reserva do Vale, a família conquistou diversas outras medalhas no Mundial do Queijo com diferentes produtos, demonstrando a versatilidade e a consistência de sua produção. Essa dedicação à qualidade, passada de geração em geração, é um pilar fundamental para a construção de uma marca forte e reconhecida.

A certificação obtida pelo Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA) também desempenhou um papel crucial na expansão comercial da Queijos Possamai. Segundo Marlon Possamai, essa certificação permitiu estruturar melhor a operação, ampliar a distribuição e profissionalizar os processos internos, garantindo controle de qualidade, rastreabilidade e padronização. A segurança alimentar e a conformidade com padrões rigorosos são essenciais para acessar mercados mais amplos e competitivos.

A busca por certificações e a adoção de padrões internacionais não são exclusividade da Queijos Possamai. Muitos pequenos produtores do Sul do Brasil estão investindo em conhecimento técnico e em processos de certificação para garantir a qualidade e a segurança de seus produtos, abrindo portas para novos mercados e fortalecendo a imagem da queijaria nacional no exterior. Este movimento reflete uma crescente maturidade do setor no país.

Santa Catarina: Um Mosaico de Fatores para Queijos de Alta Qualidade

Santa Catarina reúne um conjunto de fatores que a tornam um polo de excelência na produção de queijos. Andressa Dalila Bianchi, presidente da Associação dos Produtores de Queijo Artesanal de Santa Catarina (Artequeijo SC), aponta o clima ameno, especialmente nas regiões de altitude, como um contribuinte essencial para a produção de leite com melhor estabilidade microbiológica e composição equilibrada, impactando diretamente na qualidade final do queijo.

A forte influência da colonização europeia, com suas tradições no manejo do leite e na valorização de produtos artesanais, também é um diferencial marcante. Essa herança cultural se manifesta tanto nas técnicas de produção quanto no cuidado e na atenção dedicada a cada etapa do processo, resultando em queijos com características únicas e sabor autêntico. A valorização do produto artesanal é um motor para a busca contínua pela qualidade.

A diversidade de terroirs dentro do próprio estado, com regiões de altitude, vales úmidos e áreas mais frias, permite a produção de uma ampla gama de estilos de queijo. Andressa Bianchi ressalta que essa combinação harmoniosa de clima, cultura e diversidade territorial é um diferencial que poucos estados brasileiros conseguem oferecer. Essa riqueza de microclimas e solos contribui para a complexidade e a variedade dos queijos catarinenses.

Paraná: Inovação e Tradição Garantem Selos de Ouro na Queijaria

O Paraná também se destacou na 4ª edição do Mundial do Queijo, com quatro de seus queijos conquistando o selo “Super Ouro”, o reconhecimento máximo do concurso. Este selo é concedido apenas a produtos com pontuação próxima da perfeição, atestando a altíssima qualidade e o rigor técnico empregados em sua produção. Entre os premiados estão queijos de diferentes produtoras, mostrando a diversidade e a força do setor no estado.

A Queijaria Flor da Terra, de Toledo, apresentou o queijo Abaporu, uma releitura contemporânea de técnicas tradicionais que incorpora madeiras aromáticas nativas na maturação, resultando em um queijo de alta cremosidade e sabores complexos. Já a Cooperativa Agroindustrial Witmarsum apresentou seu queijo tipo gouda, com sabor intenso e notas de nozes, ideal para derreter em pratos quentes. A Queijaria Deleite apostou no frescor do seu queijo frescal, destacando a qualidade da matéria-prima e técnicas aprimoradas.

O queijo Vale do Heimtal, com um ano de maturação, oferece sabor adocicado e textura cremosa, com sua produção localizada em um terroir específico no vale do rio Jacutinga, que assegura umidade e temperatura ideais. De Palmeira, o queijo Bacchus, do Ateliê Lotschental, conquistou o 2º lugar na categoria “Campeão dos Campeões”, maturando por seis meses com borra de vinho, o que lhe confere uma massa macia, levemente adocicada e picante. O queijo Passionata, da Flor da Terra, também obteve destaque, com infusão de maracujá e flores comestíveis.

A Força da Cadeia Leiteira e o Impacto Econômico no Paraná

A tradição queijeira do Paraná está intrinsecamente ligada à força de sua cadeia leiteira, que o posiciona como o segundo maior produtor nacional de leite, atrás apenas de Minas Gerais. Com uma produção anual que supera 4,4 bilhões de litros e um Valor Bruto de Produção (VBP) de R$ 12,1 bilhões, o setor lácteo representa um peso econômico significativo para o estado, impulsionando a produção de derivados de alto valor agregado, como os queijos finos.

O modelo de formação de queijeiros no Paraná, conduzido pelo parque tecnológico Biopark em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), tem sido um diferencial. O programa aplica rigor técnico para capacitar famílias rurais a produzirem itens de alto valor agregado, capazes de alcançar preços até três vezes superiores aos de produtos convencionais. Essa iniciativa, com investimento de R$ 3,8 milhões e apoio do governo estadual, foca no desenvolvimento de queijos que estimulam os sentidos, contando histórias através de suas texturas, temperaturas e impactos visuais.

Kennidy de Bortoli, pesquisador do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Queijos Finos do Biopark, explica que o objetivo é criar produtos que surpreendam o consumidor em cada etapa da degustação, transformando o alimento em uma experiência. Essa abordagem inovadora, aliada à expertise técnica e ao apoio governamental, tem sido fundamental para elevar o padrão da queijaria paranaense e projetá-la no cenário nacional e internacional.

Pequenos Produtores no Topo: Um Sinal de Maturidade e Potencial da Queijaria Brasileira

As premiações recentes no Mundial do Queijo do Brasil reforçam a ideia de que o tamanho da operação não é o único determinante da qualidade. Pequenas agroindústrias, com foco no cuidado com o processo, na excelência da matéria-prima e na construção de uma identidade única para seus produtos, são capazes de alcançar padrões internacionais. As conquistas de queijos catarinenses e paranaenses servem de inspiração para outros produtores e fortalecem a imagem do Brasil como um país com grande potencial na produção de queijos de alta qualidade.

A combinação de fatores como o clima favorável, a herança cultural europeia, a diversidade de terroirs e o investimento em tecnologia e capacitação técnica tem posicionado o Sul do Brasil como um epicentro da queijaria artesanal. O sucesso desses pequenos produtores no cenário mundial é um indicativo claro da maturidade do setor e do potencial de crescimento e de conquista de novos mercados, consolidando a região como referência global na produção de queijos finos e diferenciados.

A crescente valorização dos produtos artesanais e a busca por experiências gastronômicas autênticas impulsionam ainda mais o mercado de queijos especiais. O reconhecimento internacional obtido pelos produtores do Sul do Brasil não apenas valida seus esforços, mas também abre novas oportunidades de negócios e de intercâmbio de conhecimento, prometendo um futuro ainda mais promissor para a queijaria nacional.

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