Uefa acusa Infantino de “falta de transparência” e “acordo obscuro” após recuo da FIFA em plano comercial
A União Europeia de Associações de Futebol (Uefa) declarou neste sábado (1º) ter perdido a confiança em Gianni Infantino, presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), após a entidade máxima do futebol mundial abandonar um controverso plano de vender uma participação em seus direitos comerciais, incluindo os da Copa do Mundo.
A proposta, que visava arrecadar até 4,2 bilhões de dólares com a venda de cerca de 20% de participação a investidores privados em uma nova unidade de negócios, gerou forte oposição das confederações regionais, que se sentiram pegas de surpresa e criticaram a falta de consulta e transparência.
O rápido recuo da FIFA expôs um crescente desconforto com o estilo de liderança de Infantino e intensificou os pedidos por maior fiscalização sobre decisões que moldam a governança e o futuro comercial do esporte, conforme informações divulgadas pela Uefa.
O plano da FIFA e a forte reação das confederações
A proposta da FIFA, anunciada na terça-feira (28), consistia em criar uma nova entidade para gerenciar a organização de eventos, incluindo a Copa do Mundo, e vender uma participação minoritária a investidores privados. O objetivo era levantar um montante significativo de dinheiro, estimado em 4,2 bilhões de dólares, para supostamente reinvestir no desenvolvimento do futebol.
No entanto, a iniciativa foi recebida com forte oposição das confederações regionais, incluindo a Uefa, cujos 55 membros rejeitaram a proposta por unanimidade. As entidades reclamaram que não foram consultadas sobre uma medida que poderia alterar fundamentalmente a estrutura comercial do futebol mundial e que o projeto foi conduzido em sigilo.
O xeique Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), expressou sua satisfação com o abandono do projeto, mas enfatizou a necessidade de que futuras iniciativas sejam discutidas de forma transparente e com a participação de todas as partes interessadas, incluindo as confederações, o Conselho da FIFA e as associações-membro.
Uefa declara “vitória para todo o futebol” e exige reconstrução da confiança
A Uefa classificou a retirada do projeto pela FIFA como uma “vitória para todo o futebol”. Em um comunicado contundente, a entidade europeia afirmou que a “tarefa de reconstruir a confiança na FIFA” está apenas começando e que a atual liderança da entidade perdeu não apenas a confiança da Uefa, mas também de muitos outros membros da família do futebol.
A associação agradeceu o apoio de torcedores, ligas, clubes, jogadores e outras entidades que se opuseram ao plano, ressaltando que o futebol “não está à venda”. A Uefa criticou veementemente a condução do projeto, descrevendo-o como “projetos secretos conduzidos em ritmo acelerado, elaborados por pessoas sem identificação e de benefício duvidoso para o futebol”. A entidade exigiu a identificação e responsabilização dos envolvidos.
“Não podemos continuar dessa forma, com projetos secretos conduzidos em ritmo acelerado, elaborados por pessoas sem identificação e de benefício duvidoso para o futebol. Precisamos identificar os responsáveis e responsabilizá-los”, declarou a Uefa, reforçando a necessidade de maior transparência e governança no futebol mundial.
Críticas ao “acordo obscuro” e falha nas promessas de Infantino
A Uefa relembrou as promessas feitas por Gianni Infantino quando foi eleito presidente da FIFA em 2016, incluindo o compromisso com a transparência e a declaração de que os recursos da entidade pertenciam às associações nacionais. Segundo a entidade europeia, Infantino falhou em cumprir ambas as promessas.
O “acordo obscuro, feito nos bastidores e sem transparência, que ele elaborou e tentou impor, esteve longe de ser transparente”, criticou a Uefa, referindo-se ao plano de venda de participação nos direitos comerciais. A entidade também apontou que, apesar das reservas superiores a 5 bilhões de dólares, a FIFA falhou em utilizar o dinheiro das associações em benefício do futebol.
Diante desse cenário, a Uefa anunciou que iniciará imediatamente um trabalho com parceiros e partes interessadas de todo o mundo para propor uma nova forma de distribuição de recursos através do atual programa FIFA Forward, buscando garantir que os fundos sejam utilizados de maneira mais eficaz e transparente para o desenvolvimento do esporte.
O impacto na tentativa de reeleição de Infantino
A controvérsia em torno do plano comercial fracassado surge em um momento crucial para Gianni Infantino, que em abril manifestou a intenção de buscar a reeleição para um quarto mandato como presidente da FIFA. Desde que assumiu o cargo em 2016, após a renúncia de Sepp Blatter, Infantino foi reeleito duas vezes sem adversários, consolidando seu controle sobre a organização.
Embora sua reeleição para o mandato de 2027 a 2031 parecesse uma formalidade, especialistas ouvidos pela agência Reuters apontam que a reação contrária à proposta fracassada expôs a insatisfação de uma parcela dos membros da FIFA. Essa insatisfação pode dificultar o caminho de Infantino rumo a um novo mandato, especialmente com o Congresso da entidade marcado para março, no Marrocos.
Bob Dorfman, analista de marketing esportivo, comentou que Infantino demonstrou um comportamento “um tanto egomaníaco” e que algumas de suas decisões desagradaram diversas associações-membro. Ele também citou a escolha de alguns países para sediar Copas do Mundo como questionável, indicando um envolvimento excessivo da política no esporte.
Especialistas alertam para “momento delicado” e “luta pela sobrevivência política”
A rapidez com que o cenário político em torno de Infantino mudou chamou a atenção. Há menos de duas semanas, o presidente da FIFA celebrava a Copa do Mundo mais bem-sucedida comercialmente da história. No entanto, a polêmica sobre a venda de participação nos direitos comerciais o colocou em uma posição delicada.
Victor Matheson, economista e especialista em negócios esportivos, descreveu a situação como uma mudança drástica na trajetória política do dirigente. “Há apenas duas semanas, ele estava no topo do mundo, à frente do evento esportivo de grande porte mais bem-sucedido da história do planeta. Apenas duas semanas depois, está lutando pela própria sobrevivência política”, analisou Matheson.
A insatisfação demonstrada pela Uefa e outras confederações, somada à percepção de falta de transparência e de decisões tomadas “nos bastidores”, pode minar o apoio que Infantino precisará para garantir sua reeleição. A necessidade de “identificar os responsáveis e responsabilizá-los”, como exigido pela Uefa, sinaliza um desejo por maior accountability na gestão da FIFA.
O futuro da governança da FIFA e a necessidade de diálogo
A controvérsia ressalta a importância da boa governança, transparência e consulta efetiva na gestão do futebol mundial. Especialistas e dirigentes de diferentes confederações, como Anter Isaac, presidente da Football Australia, defendem a inovação, mas alertam contra medidas que desrespeitem os princípios fundamentais do esporte.
“O futebol nunca ficou parado, e não deve ficar”, afirmou Isaac. “Alguns princípios, porém, jamais devem mudar: integridade, independência, boa governança, transparência, consulta efetiva e devido processo. Esses princípios não são obstáculos ao progresso. São o que torna possível um progresso duradouro.”
A exigência por um diálogo coletivo e respeito às estruturas de governança estabelecidas no esporte, como defendido pelo xeique Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, indica um anseio por um modelo de gestão mais inclusivo e democrático na FIFA, onde as decisões que afetam o futuro do futebol sejam tomadas em conjunto com as associações-membro e outras partes interessadas.
O que mudou e os próximos passos para a FIFA
Com o recuo da FIFA, o plano de vender uma participação nos direitos comerciais foi temporariamente arquivado. No entanto, a crise de confiança gerada pela proposta secreta e a subsequente reação negativa deixam marcas na gestão de Gianni Infantino.
A Uefa, por sua vez, já se movimenta para propor novas formas de distribuição de recursos, buscando maior eficácia e transparência no programa FIFA Forward. Essa iniciativa pode representar um passo importante para remodelar a forma como os fundos são geridos e distribuídos no futebol mundial.
A FIFA e Gianni Infantino se recusaram a comentar o comunicado da Uefa, o que pode indicar uma estratégia de aguardar o desdobramento dos acontecimentos ou de evitar mais embates públicos. Contudo, a pressão por maior transparência e diálogo parece ter sido amplificada, e os próximos meses serão cruciais para definir o futuro da governança da FIFA e a posição de Infantino no cenário do futebol internacional.
A FIFA sob pressão: um alerta para o futuro do futebol
A recente polêmica em torno da proposta de venda de direitos comerciais serve como um alerta sobre a necessidade de equilibrar a busca por novas fontes de receita com a manutenção dos princípios de boa governança e transparência no futebol. A forma como a FIFA lidou com a situação, com uma proposta inicialmente secreta e um recuo rápido diante da oposição, levanta questões sobre a sua estrutura de decisão e a relação com suas associações-membro.
A exigência da Uefa por responsabilização e a necessidade de “reconstruir a confiança” indicam que os desafios para a liderança de Infantino vão além da simples reeleição. Será preciso demonstrar uma mudança genuína na abordagem de gestão, priorizando o diálogo e a transparência em todas as decisões estratégicas.
O futebol mundial, em sua essência, é um esporte de paixão e união. As decisões que afetam seu futuro devem refletir esses valores, garantindo que o esporte continue a prosperar de forma íntegra e inclusiva para todos os seus praticantes e admiradores.