O debate global sobre usar sapatos em casa: higiene ou costume?
A simples ação de tirar ou não os sapatos ao entrar em casa é um ponto de discórdia cultural que divide pessoas ao redor do mundo. Enquanto em algumas regiões, como grande parte do Oriente Médio, Ásia e Bálcãs, deixar os sapatos fora é um sinal de respeito e higiene, em outras, como partes da Europa e Estados Unidos, pedir para um convidado remover os calçados pode ser visto como indelicado.
Essa divergência de costumes foi evidenciada em um vídeo viral no TikTok, onde um casal demonstrou suas práticas opostas: um usando chinelos e outro de tênis dentro do apartamento. A repercussão gerou um amplo debate sobre qual comportamento seria mais higiênico e quais os reais riscos à saúde associados a essa prática.
Para desvendar essa questão, o Serviço Mundial da BBC buscou um laboratório de microbiologia, onde um par de tênis usado durante um fim de semana na cidade de Brighton, no Reino Unido, foi submetido a análise. Os resultados revelaram a presença de uma variedade de bactérias, algumas delas potencialmente prejudiciais à saúde humana. As informações foram divulgadas pelo Serviço Mundial da BBC.
A diversidade cultural em relação aos calçados domésticos
As tradições sobre o uso de sapatos dentro de casa variam significativamente entre diferentes culturas e geografias. No Japão, por exemplo, as regras são particularmente rigorosas. As casas frequentemente possuem uma área específica na entrada, chamada ‘genkan’, que delimita o espaço onde os sapatos são permitidos. Invadir esse espaço com calçados externos é considerado uma falha grave de etiqueta.
O professor de antropologia Fabio Gygi, da Universidade SOAS, de Londres, explica que a reação a um turista que esquece de tirar os sapatos no Japão pode ser imediata e visceral. Essa norma, segundo Gygi, possui tanto bases higiênicas quanto filosóficas. O exterior é simbolicamente associado à contaminação, ao perigo e à sujeira, enquanto o interior do lar é visto como um espaço de pureza e santidade, muitas vezes ligado a rituais religiosos.
Em contraste, em algumas culturas ocidentais, como nos Estados Unidos, onde Sophia, uma das envolvidas no vídeo viral, foi criada, a expectativa pode ser que os convidados permaneçam calçados. A ideia de que os pés de alguém possam causar desconforto olfativo também é um fator cultural, como relatado por Sophia em sua surpresa inicial com os hábitos do seu futuro marido, Pedja, originário da Sérvia.
Microbiologia em ação: O que os sapatos realmente carregam?
Para investigar a fundo a questão higiênica, um par de tênis, usado por um fim de semana na cidade inglesa de Brighton, foi levado a um laboratório de microbiologia na Universidade local. A microbiologista Sarah Pitt aplicou swabs na parte superior e inferior do calçado para coletar amostras. Estas foram incubadas em placas de Petri durante a noite.
No dia seguinte, a análise microscópica revelou uma surpreendente variedade de bactérias. Entre os microrganismos identificados estava o Staphylococcus aureus, uma bactéria conhecida por causar infecções que podem ser bastante incômodas, mesmo em indivíduos saudáveis. Pitt detalha que, se essa bactéria entrar em uma ferida, como um arranhão, pode levar à formação de um furúnculo purulento e infectado.
Além disso, o Staphylococcus aureus tem o potencial de causar pneumonias e infecções na corrente sanguínea, especialmente em pessoas com o sistema imunológico comprometido. Outro microrganismo encontrado foi o Staphylococcus epidermidis, um parente próximo do S. aureus que habita naturalmente a pele humana. Embora comum, este patógeno também pode agravar quadros em pacientes imunocomprometidos e é uma causa frequente de infecções em ambientes hospitalares.
Estudos adicionais indicam que os sapatos podem ser portadores de uma gama ainda maior de patógenos, incluindo bactérias fecais como a E. coli, além de fungos e parasitas. A microbiologista Sarah Pitt, que também preside o Instituto de Ciências Biomédicas do Reino Unido, ressalta que a diversidade de microrganismos em um par de sapatos pode ser vasta e variar dependendo do ambiente em que foram utilizados.
A sobrevivência e transmissão de bactérias do exterior para o interior do lar
Uma das principais preocupações levantadas pela ciência é a capacidade de sobrevivência e transmissão das bactérias dos sapatos para o ambiente doméstico. Pesquisas indicam que os calçados podem, de fato, transferir rapidamente os microrganismos adquiridos em ambientes externos para o interior das casas.
Sarah Pitt afirma que existem evidências robustas de que esses organismos podem sobreviver no ambiente doméstico e, potencialmente, transmitir infecções a outros moradores. O tempo de sobrevivência varia, mas em superfícies como tapetes, que oferecem um ambiente mais acolhedor, as bactérias podem persistir por dias ou até mais tempo.
O ato de caminhar sobre um tapete onde bactérias se encontram pode, inclusive,