Estudo da Embrapa Mapeia Pegada de Carbono do Soro de Leite e Aponta o Campo como Principal Foco para Redução de Emissões
Uma pesquisa pioneira no Brasil, realizada pela Embrapa Gado de Leite em parceria com a Sooro Renner Nutrição e a UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), trouxe à tona um dado surpreendente sobre a cadeia produtiva do leite: a transformação do soro de leite, antes considerado um resíduo com alto impacto ambiental, em whey powder (proteína concentrada do soro) representa uma estratégia eficaz para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no país.
O estudo, obtido com exclusividade pelo CNN Agro, utilizou a metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) para mapear as emissões de GEE em todas as etapas da produção, desde a fazenda até o processamento industrial. Os resultados indicam que cerca de 85% das emissões totais estão concentradas na fase inicial, no campo, o que direciona as futuras ações de descarbonização do setor lácteo.
Essa abordagem inovadora não apenas quantifica o impacto ambiental, mas também demonstra como a agregação de valor a um subproduto, que antes era descartado de forma inadequada, pode mitigar danos ecológicos e gerar benefícios econômicos. As informações foram divulgadas pela Embrapa Gado de Leite e parceiros.
Soro de Leite: De Passivo Ambiental a Ingrediente Estratégico
O soro de leite é o líquido que sobra após a coagulação e a retirada da coalhada na fabricação de queijos. Tradicionalmente, seu descarte em rios e corpos d’água representava um grave problema ambiental devido à sua altíssima carga orgânica, medida pela Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO). O lançamento in natura desse subproduto nos rios leva à rápida diminuição dos níveis de oxigênio na água, resultando na morte de peixes e no desequilíbrio de ecossistemas aquáticos.
Além do impacto direto nos ecossistemas, o descarte inadequado do soro de leite também significava um desperdício considerável de recursos. Por ser rico em lactose e proteínas, cada litro de soro descartado representava a perda de água, energia e terra que foram empregadas na produção do leite original. A industrialização, ao converter esse subproduto em whey powder, transformou um passivo ambiental em um insumo de alto valor agregado.
Hoje, o whey powder é amplamente utilizado em diversas indústrias, desde a produção de suplementos alimentares e esportivos até a fabricação de produtos de panificação e alimentos processados. Essa nova realidade não só elimina um problema ambiental histórico, mas também agrega valor econômico a um componente que, por muito tempo, foi tratado como lixo industrial.
A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) e sua Importância na Cadeia Láctea
Para mensurar de forma precisa o impacto ambiental da produção de soro em pó, a pesquisa empregou a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV). Esta metodologia científica é fundamental para rastrear e quantificar os impactos ambientais de um produto ou serviço ao longo de toda a sua existência, desde a extração das matérias-primas até o seu descarte final, englobando todas as etapas de produção, transporte e processamento.
Conhecida também como análise “do berço ao túmulo”, a ACV oferece uma visão holística e detalhada das pegadas ambientais. No contexto do soro de leite, pela primeira vez no Brasil, essa abordagem foi aplicada de forma integrada, considerando todos os elos da cadeia produtiva simultaneamente. Estudos anteriores tendiam a analisar cada etapa isoladamente, o que limitava a compreensão do impacto total.
A integração dos dados de produção primária (pecuária leiteira), transporte e processamento industrial permite identificar com clareza em qual estágio as emissões de GEE são mais significativas e, consequentemente, onde as intervenções para redução de impacto teriam maior efeito. Essa visão completa é crucial para o desenvolvimento de estratégias de sustentabilidade mais eficazes e direcionadas.
O Campo como Epicentro das Emissões de Gases de Efeito Estufa
Um dos achados mais relevantes da pesquisa é a constatação de que aproximadamente 85% das emissões totais associadas à produção de soro em pó ocorrem na fase inicial da cadeia, ou seja, no campo. Isso inclui as emissões provenientes da produção do leite, como o metano entérico (liberado pela digestão dos ruminantes), o óxido nitroso (associado ao uso de fertilizantes e ao manejo de dejetos animais) e o dióxido de carbono (ligado ao uso de energia nas propriedades rurais e ao manejo da terra).
Essa descoberta tem implicações diretas nas estratégias de descarbonização. Segundo Thierry Ribeiro Tomich, pesquisador da Embrapa Gado de Leite e um dos líderes do estudo, “diminuir o impacto ambiental na etapa inicial proporciona uma redução muito maior no impacto final do produto do que qualquer alteração na embalagem ou na matriz energética da indústria”. Isso ocorre porque as emissões no campo representam a maior parcela da cadeia produtiva.
O pesquisador reforça que a inclusão dos fluxos de transporte e das transformações industriais na análise “oferece um diagnóstico fiel do desempenho ambiental do setor. Assim é possível identificar onde estão os maiores gargalos de emissão de gases de efeito estufa”. Essa informação é vital para que empresas e órgãos governamentais direcionem investimentos e políticas públicas para as áreas de maior impacto.
Metodologia da Pesquisa: Detalhando a Cadeia Produtiva
A pesquisa foi estruturada em duas fases principais para garantir a abrangência e a precisão dos dados coletados. Na primeira etapa, o foco foi o mapeamento detalhado dos sistemas de produção de leite dos fornecedores da Sooro Renner Nutrição. Foram selecionados produtores que representassem a diversidade geográfica e tecnológica do setor, a fim de obter um panorama realista da pecuária leiteira brasileira.
Essa fase envolveu a coleta de informações sobre as práticas de manejo, alimentação do gado, uso de insumos, gestão de dejetos e consumo de energia nas propriedades rurais. O objetivo era quantificar as emissões de GEE diretamente associadas à produção primária do leite, que, como visto, é o principal foco de impacto.
Na segunda etapa, a pesquisa se voltou para o processamento industrial do soro de leite. Foram levantados dados reais e específicos de laticínios parceiros da Sooro, referentes ao ano de 2023. Essa coleta incluiu informações detalhadas sobre o consumo de energia elétrica e térmica, o uso de água, a quantidade de insumos utilizados no processo de transformação do soro em whey powder e as emissões de GEE geradas nas fábricas.
A combinação dessas duas etapas, aliada à metodologia ACV, permitiu uma análise integrada e completa, que reflete com fidelidade a pegada de carbono da cadeia produtiva do soro em pó no Brasil.
Transparência Ambiental e Eficiência Produtiva: Um Novo Horizonte para o Setor Lácteo
A analista da Embrapa Gado de Leite, Vanessa Romário de Paula, destacou a importância e o alcance da iniciativa, afirmando que “a cadeia láctea brasileira acaba de dar um passo decisivo rumo à transparência ambiental e à eficiência produtiva”. A disponibilização dos dados gerados pela pesquisa em plataformas abertas é um fator chave para impulsionar essa transformação.
As informações coletadas e analisadas estão acessíveis gratuitamente na SICV Brasil, uma plataforma do IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia). Essa iniciativa visa democratizar o acesso a dados reais e confiáveis sobre a produção brasileira, permitindo que outros pesquisadores, empresas e órgãos públicos utilizem essas informações para desenvolverem seus próprios projetos de ACV e para embasar a tomada de decisões estratégicas.
Thiago Oliveira Rodrigues, pesquisador do IBICT, ressaltou o valor dessa colaboração: “Essa iniciativa permite que outros pesquisadores, indústrias e órgãos governamentais utilizem dados reais da produção brasileira para outros projetos de ACV, facilitando tomadas de decisão”. A transparência e o compartilhamento de conhecimento são fundamentais para acelerar a adoção de práticas mais sustentáveis em todo o setor.
Alinhamento com Compromissos Internacionais e o Futuro da Produção de Lácteos
A pesquisa e suas conclusões estão em perfeita sintonia com os compromissos ambientais assumidos pelo Brasil em âmbito internacional. Um exemplo notável é o Compromisso Global de Metano, que visa uma redução de 30% nas emissões globais de metano até 2030. Ao focar na redução de GEE na pecuária leiteira, a cadeia produtiva brasileira contribui diretamente para o cumprimento dessa meta.
Adicionalmente, as ações decorrentes dessa pesquisa estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Em particular, os objetivos relacionados à produção e consumo responsáveis (ODS 12), ação contra a mudança global do clima (ODS 13) e vida na água (ODS 14) são diretamente impactados pela busca por uma cadeia láctea mais sustentável.
A parceria entre Embrapa, Sooro e UTFPR vai além da pesquisa, prevendo a entrega de um plano de ação detalhado com medidas concretas para reduzir os Gases de Efeito Estufa (GEE) em cada etapa da cadeia produtiva do soro. Esse plano será um guia prático para o setor, ajudando a cumprir as crescentes exigências de mercados externos, cada vez mais rigorosos em relação à sustentabilidade, e a atender a um consumidor cada vez mais consciente e atento à origem e ao impacto ambiental dos produtos que adquire.
Impacto Econômico e Social da Valorização do Soro de Leite
A transformação do soro de leite em whey powder não é apenas uma vitória ambiental, mas também um avanço econômico significativo. Ao agregar valor a um subproduto que antes representava um custo de descarte e um risco ambiental, as indústrias lácteas abrem novas fontes de receita e fortalecem sua competitividade no mercado.
A pesquisa demonstra que o foco na redução das emissões no campo, onde se concentra a maior parte do impacto, pode gerar economias e otimizações em toda a cadeia. Investimentos em tecnologias mais eficientes, práticas de manejo sustentável e melhorias na alimentação do gado, por exemplo, podem não só reduzir a pegada de carbono, mas também aumentar a produtividade e a rentabilidade das propriedades rurais.
Do ponto de vista social, a valorização do soro de leite e a busca por sustentabilidade na cadeia produtiva podem gerar empregos e renda, tanto no campo quanto na indústria. Além disso, a produção de alimentos com menor impacto ambiental contribui para a segurança alimentar e para a construção de um futuro mais resiliente e sustentável para todos.
O Futuro da Cadeia Láctea Brasileira: Inovação e Sustentabilidade
A pesquisa da Embrapa Gado de Leite, em colaboração com a Sooro Renner Nutrição e a UTFPR, marca um ponto de virada para a cadeia láctea brasileira. Ao desmistificar o impacto ambiental do soro de leite e apresentar soluções práticas e baseadas em dados científicos, o estudo oferece um roteiro claro para a descarbonização do setor.
A ênfase na produção rural como principal foco de intervenção é um chamado à ação para produtores, cooperativas, indústria e governo. A adoção de tecnologias e práticas inovadoras no campo, combinada com a contínua otimização dos processos industriais, será fundamental para consolidar o Brasil como um produtor de lácteos não apenas de alta qualidade, mas também de baixo impacto ambiental.
O sucesso dessa iniciativa abre caminho para que outros subprodutos da agroindústria sejam igualmente avaliados e transformados em fontes de valor e sustentabilidade, reforçando o potencial do Brasil em liderar a transição para uma economia verde e circular.