Anpocs 2026: Excelência Acadêmica em Xeque e o Debate sobre a Relevância Social das Ciências Sociais

A Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) anualmente promove um concurso que se propõe a ser uma vitrine da excelência acadêmica brasileira. No entanto, a edição de 2026 tem gerado um debate acalorado sobre os critérios que definem essa mesma excelência. Uma análise dos trabalhos inscritos revela uma tendência a temas centrados em debates identitários e objetos de estudo com relevância social ou econômica restrita, levantando questionamentos sobre a conexão da produção acadêmica com os problemas reais enfrentados pela população.

A impressão geral é a de um ambiente acadêmico cada vez mais voltado para o diálogo interno, premiando agendas e recortes que encontram forte repercussão dentro da universidade, mas cuja ligação com as necessidades e desafios da sociedade em geral nem sempre é clara. A Gazeta do Povo compilou uma lista de teses e dissertações cujos títulos e resumos sugerem essa desconexão, rotulando-as como “as piores entre as melhores” pré-selecionadas pela Anpocs, embora os vencedores ainda não tivessem sido divulgados até a publicação da reportagem.

A reportagem buscou contato com os autores dos trabalhos destacados para obter esclarecimentos sobre a importância de suas pesquisas e possíveis críticas quanto à sua relevância social. Até o fechamento da matéria, nenhum dos autores respondeu às solicitações.

O Corpo, a Natureza e as Travessuras do Controle: Uma Análise Inusitada da Agricultura

Um dos trabalhos que chamou a atenção é a dissertação de Joaquim Augusto de Araújo, da Unicamp, intitulada “As transversalidades do corpo e as travessuras do controle: uma etnografia sobre práticas agrícolas à luz dos estudos de gênero e das relações multiespécies”. A pesquisa busca relacionar práticas agrícolas com a sexualidade, propondo uma comparação entre os mecanismos de controle aplicados a corpos humanos e vegetais. Em essência, o estudo problematiza a identidade de gênero de frutas e vegetais, explorando como pressupostos dicotômicos e binários moldam a percepção desses elementos.

O trecho divulgado da dissertação aponta para a intenção de enfrentar teoricamente e metodologicamente a questão, partindo do entendimento de que corpos vegetais também são construídos a partir de preceitos ortodoxos. A pesquisa questiona os limites do que pode ser, dentro desses campos de entendimento, e quais conformidades criam categorias de conhecimento. O autor exemplifica com a distinção entre um morango orgânico e um tomate Sweet Grape, buscando entender as marcações que definem suas identidades dentro de um sistema de controle.

Regulação de Drogas e Controle Social: A Complexa Relação no Brasil

A tese de Luan do Nascimento Silva, da PUC-Rio, intitulada “Regulação internacional das drogas e controle social violento: o associativismo brasileiro no circuito da cannabis medicinal”, mergulha na complexa discussão sobre a regulamentação da maconha medicinal no Brasil. O trabalho argumenta que a proibição do uso recreativo da droga está intrinsecamente ligada a uma “racionalidade colonial-moderna de exercício do controle social violento” e ao racismo estrutural.

Silva explora como políticas proibicionistas, independentemente dos argumentos sobre saúde, impulsionam práticas de discriminação e controle social. Ele cita exemplos históricos, como a repressão ao ópio nos Estados Unidos direcionada a comunidades chinesas, e a ressonância de discursos religiosos na caracterização de drogas como demoníacas. A tese sugere que a moralidade na proibição de drogas, exceto quando associadas a rituais de religiões hegemônicas como o vinho no cristianismo, revela vieses sociais e culturais profundos.

“Puta Não Tem Amiga?”: Afetos e Conflitos na Prostituição Feminina

A tese de Adriely Clarindo Cattani, também da Unicamp, “‘Puta não tem amiga?’: afetos, conflitos e o imperativo de inimizade nas políticas da prostituição feminina”, investiga a dinâmica social e afetiva entre profissionais do sexo. A pesquisa analisa a condição de “inimizade” como um imperativo social que influencia a formação de vínculos e os processos de aprendizado na profissão, com a autora tendo vivenciado a realidade em prostíbulos no Brasil e em Portugal.

Cattani relata que a pandemia de COVID-19 acentuou os embates entre as trabalhadoras e outros agentes sociais, fornecendo pistas sobre as dinâmicas de disputa e apoio mútuo. A autora descreve experiências pessoais de conflito, onde olhares desdenhosos e expressões faciais hostis eram direcionados a ela quando um cliente demonstrava interesse, evidenciando o “imperativo de inimizade” que a tese se propõe a desvendar. O trabalho busca compreender como essas relações impactam a vida e a prática das mulheres.

Prazeres Venais, Amores Efêmeros: A Prostituição Feminina em São Paulo

Outra tese que aborda a prostituição feminina é a de Juno Ferreira, da Universidade de São Paulo (USP), intitulada “Prazeres venais, amores efêmeros: as trocas sexuais da prostituição feminina na cidade de São Paulo”. Financiada com bolsa do CNPq, a pesquisa se propõe a detalhar como as mulheres realizam a troca de sexo por dinheiro na maior metrópole do Brasil, explorando as nuances dessa “profissão mais antiga do mundo”.

Ferreira discute as experiências consideradas “abetas, impuras ou repulsivas”, que carregam estigma para quem as pratica. A tese explora os limites variáveis entre prazer e repulsa para cada profissional do sexo, tangenciando práticas como o cruzamento geracional, inversões de gênero e dinâmicas sadomasoquistas. O trabalho apresenta relatos de experiências detalhadas, incluindo situações que remetem a práticas extremas, como encenações que evocam a pedofilia, como no caso citado de uma cliente que pedia para ser chamada de “tia” por um cliente que vestia roupas de sua sobrinha adolescente.

O Crime como Composição: Facções Criminosas no Rio Grande do Sul

A tese de Marcelli Cipriani Rodrigues, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), “O crime como composição: as facções do Rio Grande do Sul entre redes mercantis, práticas de apoio e governança”, analisa a estrutura e funcionamento de grupos criminosos no estado. A pesquisa descreve essas organizações não como blocos homogêneos, mas como teias complexas de pessoas e objetos interconectados para o transporte de mercadorias.

Segundo a tese, a coesão desses grupos é mantida por meio de ajuda mútua e pela adesão a regras internas para organização e resolução de conflitos. A autora, contudo, é criticada por, em alguns momentos, transformar fatos em ficção, alterar nomes, datas e lugares, e apresentar uma visão que pode soar como complacente com os criminosos, por vezes retratados como vítimas do sistema. Um trecho ilustra essa abordagem, descrevendo um indivíduo que se junta a uma facção não por vocação criminosa, mas como uma “saída alternativa” para garantir um futuro melhor para sua família, sendo os membros apresentados como “trabalhadores comuns” e não como “bandidos”.

“Melhor que Filme de Ação”: Etnografia do Canal do YouTube da Polícia Militar de SC

A tese de Jo Pedro Barros Klinkerfus, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), “‘MELHOR QUE FILME DE AÇÃO’: Uma etnografia do canal de YouTube da Polícia Militar de Santa Catarina”, investiga a produção da websérie “Papa Mike SC”. A série, filmada por policiais militares com câmeras corporais, obteve sucesso significativo.

Klinkerfus aponta que o sucesso da série se deve a uma série de fatores, incluindo a edição que cria um “senso de perigo”, apelando para “sensibilidades modernas que colocam a figura do bandido como inimigo público”. O autor argumenta que essa narrativa trata indivíduos, populações e territórios como menos humanos, estabelecendo uma dicotomia clara entre “cidadão de bem” e “bandido”. As mortes de “criminosos” são vistas como merecidas, enquanto policiais que morrem são caracterizados como “heróis”, reforçando uma visão maniqueísta da realidade social e da atuação policial.

A Questão da Relevância Social na Produção Acadêmica

A discussão em torno das teses e dissertações inscritas na Anpocs 2026 levanta um ponto crucial para as Ciências Sociais: a necessidade de equilibrar a profundidade teórica e a investigação de nichos com a relevância prática e social. Enquanto a academia se beneficia da exploração de novas perspectivas e do aprofundamento de debates identitários, é fundamental que essa produção dialogue com os desafios concretos enfrentados pela sociedade brasileira, como desigualdade, violência, questões ambientais e de saúde pública.

A aparente desconexão entre alguns temas acadêmicos e a realidade da maioria da população pode levar a um distanciamento entre a universidade e a sociedade, minando a percepção pública sobre o valor e a contribuição das Ciências Sociais. O desafio para a Anpocs e para a comunidade acadêmica em geral é encontrar um ponto de convergência, onde a excelência acadêmica se traduza em conhecimento aplicável e relevante para a construção de um país mais justo e equitativo.

O Futuro do Debate Acadêmico e a Conexão com a Sociedade

A análise dos trabalhos apresentados na Anpocs 2026 sugere que a comunidade acadêmica de Ciências Sociais enfrenta o desafio de reavaliar seus critérios de relevância e de buscar pontes mais sólidas com a sociedade. A busca por temas inovadores e aprofundados é legítima e necessária para o avanço do conhecimento, mas não deve ocorrer em detrimento da capacidade da academia de oferecer insights e soluções para os problemas sociais mais prementes.

A expectativa é que, a partir deste debate, a Anpocs e outras instituições acadêmicas promovam discussões que levem a uma maior clareza sobre os objetivos e o impacto da pesquisa em Ciências Sociais. A capacidade de dialogar com o público em geral, traduzindo complexidades acadêmicas em linguagem acessível e demonstrando a aplicabilidade prática do conhecimento produzido, será fundamental para fortalecer o papel das Ciências Sociais na construção de um futuro melhor para o Brasil.

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