Brasil antecipa crescimento expressivo nas exportações de etanol, impulsionado pela produção recorde
O Brasil se prepara para um expressivo aumento de cerca de 20% nas exportações de etanol na safra 2026/27, com projeções que apontam para embarques de 1,535 bilhão de litros. Essa expansão ocorre em um cenário de produção recorde do biocombustível no país, fortemente influenciada pelo etanol derivado do milho, conforme levantamento da Argus. Apesar de um início de ciclo com ritmo mais lento no mercado internacional, a expectativa é de que o volume total exportado supere os 1,28 bilhão de litros registrados na safra anterior.
A consolidação do etanol de milho como um componente chave na oferta nacional tem redefinido a dinâmica do setor, exigindo a busca por novos mercados e a otimização das janelas de exportação. A safra atual também se beneficia da recuperação dos canaviais após períodos de seca e de um menor direcionamento da cana-de-açúcar para a produção de açúcar, fatores que somam-se para impulsionar a oferta do biocombustível.
Essas informações foram divulgadas com base em um levantamento da Argus, que analisa as tendências de produção e exportação do etanol brasileiro. A análise detalha os desafios e oportunidades que moldam o futuro do biocombustível no cenário global, destacando a importância da competitividade e da diversificação de mercados.
Produção de etanol atinge pico histórico impulsionada pela safra de milho
A safra 2026/27 promete ser um marco na história da produção de etanol no Brasil, com projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicando um volume recorde de 40,68 bilhões de litros. Este feito notável é amplamente atribuído ao crescimento acelerado da produção de etanol a partir do milho, que tem ganhado cada vez mais relevância nos últimos dez anos. Maria Ligia Barros, responsável pela precificação de etanol na Argus, destaca que essa expansão na base produtiva do milho tem sido um fator transformador para o mercado brasileiro.
“Essa safra de 2026/27 é marcada pela expectativa de uma produção recorde de etanol, muito fundamentada na expansão da produção a partir do milho”, afirmou Maria Ligia. A especialista ressalta que o aumento na oferta, proveniente tanto de novas plantas de processamento de milho quanto de uma recuperação nos canaviais após a seca de 2024, além de um menor volume de cana destinado à produção de açúcar, cria uma necessidade estrutural de expandir a demanda, incluindo novos mercados de exportação.
O etanol de milho, que há uma década tinha um papel secundário, agora se consolida como um pilar fundamental para o crescimento da oferta nacional de biocombustíveis. A capacidade de produção adicional exige que o setor olhe para além das fronteiras, buscando oportunidades de vendas em diferentes regiões do globo e explorando novas aplicações para o produto.
Exportações iniciam com ritmo mais lento, mas projetam recuperação significativa
Apesar da perspectiva otimista para o acumulado da safra 2026/27, os embarques de etanol brasileiro iniciaram o período com um ritmo mais moderado. Entre abril e junho, o país exportou aproximadamente 168,7 milhões de litros, com mais 178,5 milhões de litros em julho. Para atingir a meta de 1,535 bilhão de litros até o final da safra (março de 2027), cerca de 1,18 bilhão de litros ainda precisam ser exportados nos meses seguintes.
A janela de competitividade para o etanol brasileiro no mercado internacional, embora curta, tem sido crucial. Maria Ligia Barros explica que houve uma oportunidade de mercado em meados de julho, onde o etanol nacional se tornou mais competitivo em relação ao produzido nos Estados Unidos em determinados destinos. Essa janela, no entanto, já se encerrou, concentrando boa parte dos embarques contratados entre julho e setembro.
Os principais destinos que aparecem nas negociações incluem Índia, Nigéria, Filipinas, Coreia do Sul e diversos países europeus. A competitividade brasileira é influenciada não apenas pelo preço do etanol americano, mas também pela estabilidade de mercados tradicionais como Coreia do Sul e Japão, onde o produto nacional tem um fluxo de compra mais consolidado. A escolha dos compradores muitas vezes se baseia na arbitragem de preços entre as origens.
Disputa com etanol americano e preços internos moldam a estratégia de exportação
A competitividade do etanol brasileiro no mercado internacional enfrenta desafios contínuos, especialmente com a potencial retomada do espaço pelo etanol produzido nos Estados Unidos. Historicamente, o produto americano tende a se tornar mais competitivo entre outubro e março, período de menor demanda por combustíveis no Hemisfério Norte. Essa sazonalidade pode limitar novas janelas de exportação favoráveis ao Brasil até o final da safra 2026/27.
Adicionalmente, a trajetória dos preços domésticos do etanol no Brasil também desempenha um papel crucial na decisão de exportar. O etanol hidratado negociado em São Paulo atingiu seu menor patamar desde março de 2024 em 28 de julho, cotado a R$ 2.513 por mil litros. Embora tenha havido uma recuperação de aproximadamente R$ 230 por mil litros até 13 de agosto, chegando a R$ 2.743 por mil litros, essa variação impacta diretamente a margem para vendas externas.
Uma alta nos preços internos torna o produto brasileiro menos competitivo no exterior, evidenciando a forte correlação entre a disponibilidade interna, os preços domésticos e a estratégia de exportação das usinas e produtores. A gestão desses fatores é essencial para maximizar os retornos e garantir a sustentabilidade das operações no mercado global.
Crescimento da produção exige diversificação de mercados e novas aplicações
O aumento projetado nas exportações de etanol brasileiro não deve ser visto apenas como uma resposta a eventuais sobras de produto no mercado interno. Maria Ligia Barros enfatiza que a expansão contínua da capacidade produtiva cria uma necessidade estrutural de ampliar a demanda global por biocombustíveis. “Existem os dois fatores juntos. Tem a questão do preço, do que é oportunidade, e tem também esses custos já cativos, que já existem, já estão no planejamento das usinas e dos produtores”, explicou.
Para absorver o crescimento da oferta, o setor produtivo brasileiro tem buscado ativamente o desbloqueio de novos mercados e a exploração de aplicações inovadoras para o etanol. Além do uso tradicional como combustível rodoviário, o biocombustível tem potencial para aplicações em setores como a aviação, através do desenvolvimento do combustível sustentável de aviação (SAF), e no transporte marítimo.
Essa diversificação de mercados e aplicações é fundamental para garantir a sustentabilidade e a competitividade do setor a longo prazo. Ao encontrar novos nichos e demandas, o Brasil pode consolidar sua posição como um dos principais players globais no mercado de biocombustíveis, aproveitando seu potencial de produção e sua expertise tecnológica.
Intensidade de carbono como diferencial competitivo no mercado internacional
Além do preço, a intensidade de carbono do etanol brasileiro emerge como um fator cada vez mais relevante para conquistar espaço em mercados internacionais, especialmente na Europa. Segundo Maria Ligia Barros, o etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil apresenta uma menor pegada de carbono em comparação com o etanol de milho dos Estados Unidos. Da mesma forma, o etanol de milho brasileiro também pode oferecer vantagens ambientais sobre o seu similar americano.
Essa característica ambiental ganha peso em um cenário global onde políticas de descarbonização se tornam mais rigorosas. Na Europa, por exemplo, a diferenciação de combustíveis com base na matéria-prima e na intensidade de carbono pode favorecer o produto brasileiro. Regulamentações que incentivam a redução das emissões de gases de efeito estufa criam um ambiente propício para biocombustíveis com menor impacto ambiental.
No entanto, a especialista ressalta que a vantagem ambiental, por si só, não garante automaticamente um aumento na demanda. As regras e classificações de biocombustíveis variam significativamente entre os mercados, com critérios específicos para etanol de primeira e segunda geração, por exemplo. Portanto, é crucial que o setor produtivo brasileiro esteja atento a essas regulamentações e trabalhe na certificação e comunicação de suas credenciais ambientais para capitalizar plenamente essa vantagem.
Desafios e oportunidades para o futuro do etanol brasileiro no cenário global
O futuro das exportações de etanol brasileiro na safra 2026/27, embora promissor em termos de volume, apresenta um cenário complexo de desafios e oportunidades. A produção recorde, impulsionada pelo etanol de milho, exige a abertura de novos mercados e a exploração de aplicações inovadoras. A competitividade de preços, a volatilidade das janelas de exportação e a disputa com outros produtores globais, como os Estados Unidos, são fatores que demandam atenção constante.
A estratégia de diversificação de mercados, que inclui destinos como Índia, Nigéria e Filipinas, além dos tradicionais mercados europeus, asiáticos e africanos, é fundamental para mitigar riscos e garantir um fluxo de exportação mais estável. A busca por novas aplicações, como SAF para aviação e uso no transporte marítimo, abre caminhos para um crescimento sustentável e alinhado às metas globais de descarbonização.
A vantagem da baixa intensidade de carbono do etanol brasileiro, especialmente o de cana, é um diferencial competitivo importante, mas que precisa ser articulado com as regulamentações ambientais de cada mercado importador. A capacidade do setor de se adaptar às dinâmicas globais, inovar em produtos e processos, e comunicar efetivamente seus atributos ambientais e econômicos será crucial para consolidar o Brasil como líder mundial em biocombustíveis nos próximos anos.