Uma área de 133 mil hectares, equivalente a mais de 840 parques Ibirapuera ou quase 17 vezes o Parque Estadual da Cantareira, na Patagônia chilena, foi salva de se tornar um alvo de especulação imobiliária. A maior propriedade privada de Cochamó, localizada a 1.060 km de Santiago, estava à venda, mas agora tem seu futuro garantido pela preservação.

Desde dezembro do ano passado, uma campanha de arrecadação de fundos liderada por diversas organizações conseguiu reunir mais de US$ 78 milhões, cerca de R$ 412 milhões. Esse montante permitiu a compra e a subsequente proteção dessa vasta e praticamente inexplorada região no sul do Chile, consolidando um marco importante para a conservação da Patagônia.

O sucesso da iniciativa encerra anos de incerteza sobre o destino da propriedade, iniciando um novo capítulo dedicado à proteção e gestão a longo prazo da área. Essas informações foram divulgadas por fontes ligadas à campanha, detalhando os esforços e os resultados alcançados para salvar terras na Patagônia chilena.

A História da Propriedade e o Início da Luta pela Conservação

A história dessa importante área na Patagônia remonta a 1920, quando o antigo Ministério das Terras e Colonização concedeu grandes extensões de terra. O objetivo era o desenvolvimento produtivo e o povoamento de diversas regiões do Chile, concedendo a propriedade à empresa Sociedade Agroflorestal Puchegüín.

No entanto, a maior parte do local permaneceu intocada por muitos anos. Os declives acentuados e a natureza robusta da região dificultavam a exploração e o cultivo agrícola, preservando de forma natural suas características originais. Ao longo das décadas, a propriedade passou por diversos proprietários, até chegar aos últimos herdeiros.

Em 2022, com a titularidade da terra finalmente definida, ativistas locais reconheceram a urgência e decidiram lançar uma campanha para comprá-la. A iniciativa, batizada de Conserva Puchegüín, é liderada pela Puelo Patagonia e conta com o apoio de organizações de renome como The Nature Conservancy, Fundação Freyja, Patagonia Inc. e Fundação Wyss, todas empenhadas na preservação da Patagônia.

Andrés Diez, diretor executivo da Puelo Patagonia, explicou que sua organização foi criada inicialmente para proteger a bacia do rio Puelo da especulação imobiliária, impulsionada por um projeto hidrelétrico. Os ativistas rapidamente perceberam o valor inestimável da propriedade de Puchegüín, tanto por suas características ambientais únicas quanto por seu profundo valor cultural para os moradores locais, que inclui a presença de antigas pinturas rupestres.

O Tesouro Natural de Cochamó: Biodiversidade e Florestas Milenares

A região de Cochamó é um verdadeiro santuário natural, abrigando florestas primárias que se mantiveram intocadas por milhares de anos. Essas florestas cobrem cerca de metade da propriedade e são um testemunho da riqueza ecológica da Patagônia chilena.

Nesses ecossistemas primitivos, cresce o alerce, também conhecido como cipreste da Patagônia ou Fitzroya cupressoides. Esta espécie arbórea, de grande valor, foi intensamente explorada no passado para a extração de madeira, o que torna sua proteção atual ainda mais crucial, conforme destacou Diez.

Além da vegetação exuberante, o território de Puchegüín é lar de uma diversidade notável de espécies ameaçadas. Entre elas, destacam-se o marsupial “monito del monte” e o huemul, também conhecido como cervo sul-andino, um dos animais que honrosamente aparece no brasão nacional do Chile. A campanha para salvar terras na Patagônia chilena é, portanto, vital para a sobrevivência dessas espécies.

Essa propriedade recém-adquirida integra-se a uma vasta rede de áreas protegidas, que totaliza 1,6 milhão de hectares, estendendo-se entre o Chile e a Argentina. Essa conexão é fundamental para a manutenção da biodiversidade regional, o armazenamento de carbono e o bem-estar das comunidades que dependem desses ecossistemas.

Um Modelo de Gestão Sustentável e o Papel das Comunidades Locais

O grupo de conservação não se limitou apenas à compra da propriedade, mas também desenvolveu um plano abrangente de gestão. Por meio de um site criado pelos organizadores, a iniciativa monitorou ativamente a fauna e a flora locais, estabeleceu regulamentações para o turismo e manteve um diálogo constante com as comunidades.

A participação das comunidades locais é considerada essencial para o futuro modelo de gestão da área. A organização planeja que até 20% da propriedade possa ser destinada a práticas sustentáveis, enquanto pelo menos 80% permanecerá sob rigorosa proteção. A ideia é criar zonas de conservação em áreas já utilizadas pelas comunidades, enquanto as regiões ecologicamente mais sensíveis serão designadas para proteção integral.

Diez ressalta que a população residente ao redor da propriedade é composta por famílias de colonos chilenos, que se estabeleceram na região há aproximadamente cem anos. Eles mantêm um estilo de vida profundamente ligado à agricultura e à pecuária, com tradições e cultura próprias, vivendo em contato íntimo com a natureza.

“São pessoas do campo, andam a cavalo, têm suas tradições, sua cultura; sabem viver em contato com a natureza, e acreditamos que esse modo de vida ainda é relevante”, afirmou Diez, sublinhando a importância de integrar o conhecimento e a vivência dessas comunidades nos planos de preservação da Patagônia.

Futuro da Área: Turismo, Integração e Plano Diretor

Atualmente, parte da área comprada já está acessível para visitação, segundo o ativista. O circuito mais conhecido para trilhas na região é o La Herradura, que pode ser percorrido em cerca de sete dias, oferecendo uma experiência imersiva na natureza selvagem de Cochamó.

“A área já conta com sinalização, infraestrutura e estamos trabalhando para melhorá-la. E também há serviços oferecidos pelos locais, como alimentação, hospedagem ou passeios guiados a cavalo, que funcionam bem”, explicou Diez, indicando o potencial para um turismo sustentável que beneficie a economia local e promova a conservação da Patagônia.

A organização não tem planos de adquirir novas porções de terra no momento. A meta principal para os próximos anos é focar na integração de Puchegüín com a realidade e as necessidades da população local, garantindo que a proteção ambiental caminhe lado a lado com o desenvolvimento comunitário.

“Vamos trabalhar para entender e desenvolver uma proposta que aborde tanto o aspecto social quanto o de conservação. Para isso, estamos pesquisando, trabalhando e coletando informações. Temos um prazo de dois anos para desenvolver um plano diretor com esse objetivo”, concluiu Diez, reforçando o compromisso com um futuro equilibrado para essa joia da Patagônia chilena.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

Brasil importa derivados de petróleo por falta de refino, mesmo com produção em alta, aponta especialista

Brasil enfrenta paradoxo de importar combustíveis apesar de ser grande produtor de…

Real Soccer x São Paulo na Copinha: Horário, Onde Assistir ao Vivo e Detalhes do Duelo Crucial Pelo Grupo 19

O palco está montado para um dos confrontos mais aguardados da terceira…

BYD Dolphin Híbrido Plug-in: Autonomia de 1.000 km e Lançamento no Brasil em 2027

“`json { “title”: “BYD Dolphin Híbrido Plug-in: Autonomia de 1.000 km e…

Homem é Preso Após Invadir Zoológico no RS e Matar Veado-Campeiro; Outros Animais Ficam Feridos

Homem é preso após invadir zoológico e matar veado no Rio Grande…