Casas Bahia se apega ao passado e ignora o digital, diz especialista em meio à crise

A Via, dona das Casas Bahia e do Ponto, protocolou um pedido de recuperação judicial na noite de domingo (16), em um movimento que busca reestruturar suas finanças diante de um cenário de juros altos, crédito restritivo e endividamento crescente.

No entanto, Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, aponta que os problemas da companhia são mais profundos e estruturais do que os fatores macroeconômicos que afetam todo o varejo.

Segundo Tozzi, a Casas Bahia falhou em se adaptar às novas realidades do mercado, mantendo um foco excessivo em lojas físicas e negligenciando o crescimento e a inovação em seus canais digitais, conforme informações divulgadas pela CNN Brasil.

Modelo de negócio obsoleto: o calcanhar de Aquiles da Casas Bahia

A principal crítica de Ana Paula Tozzi à estratégia da Casas Bahia reside na excessiva ancoragem no modelo de lojas físicas. Enquanto concorrentes apostavam na expansão digital e em modelos de negócio mais ágeis, a empresa teria ficado para trás, com crescimento limitado nos canais digitais e uma inovação insuficiente.

“No caso específico das Casas Bahia, o modelo de negócio se afastou do modelo dos principais concorrentes”, afirmou Tozzi, destacando que a empresa não acompanhou as transformações do mercado varejista.

A especialista ressalta que, mesmo após um anúncio de recuperação extrajudicial em abril de 2024, no valor de R$ 4,1 bilhões, poucas mudanças estruturais foram implementadas no modelo de negócio. As iniciativas focaram mais em redução de custos e otimização logística do que em uma transformação agressiva e necessária.

Medidas de corte insuficientes para reverter o quadro

A recente notícia de que a Casas Bahia fechou quase 300 lojas e demitiu cerca de 2 mil pessoas na semana anterior ao pedido de recuperação judicial é vista por Tozzi como medidas paliativas e insuficientes para reverter a situação financeira delicada da companhia.

“Não será suficiente você fechar lojas e fazer demissões para buscar esse fôlego. A empresa vai precisar ter fôlego para investir no seu processo de transformação de negócio”, explicou a CEO da AGR Consultores.

Para Tozzi, a estratégia de demissões antes do pedido de recuperação judicial pode ter sido uma forma de organizar o fluxo de obrigações, uma vez que as dívidas trabalhistas geradas por esses cortes podem ser parceladas dentro do processo de recuperação, aliviando a pressão imediata sobre o caixa.

Crediário e o desafio do capital de giro: um dilema financeiro

Outro ponto crucial levantado por Ana Paula Tozzi é a complexidade do capital de giro e da gestão de estoques da Casas Bahia. O setor de varejo de eletroeletrônicos geralmente opera com cerca de 90 dias de estoque, mas a companhia estaria trabalhando com apenas 75 dias.

Essa menor janela de tempo para girar as mercadorias dificulta a geração de caixa e a obtenção de capital de giro livre, essencial para a continuidade das operações e para investimentos em novas estratégias.

“É preciso girar o varejo para poder, desse giro, trazer capital de giro livre para que possa continuar investindo e continuar crescendo”, detalhou Tozzi.

O retorno ao crediário: uma faca de dois gumes

A especialista também comentou o movimento de retorno ao crédito direto ao consumidor, por meio de crediários próprios, que tem sido observado em diversas empresas do setor varejista. Embora possa parecer uma solução para impulsionar vendas, Tozzi alerta para os riscos.

Essa prática, segundo ela, envolve taxas de juros mais elevadas do que as praticadas pelo sistema financeiro tradicional, o que acaba penalizando, especialmente, as camadas de menor renda da população.

“O varejo deixa de trabalhar com o seu modelo raiz e passa, na verdade, a virar uma financeira”, concluiu, ressaltando que a competência para a concessão de crédito é, primordialmente, do setor bancário, e não do varejo.

Fatores macroeconômicos: um problema para todos, mas não o único

Embora Ana Paula Tozzi reconheça a relevância dos fatores macroeconômicos, como juros elevados e crédito restritivo, ela enfatiza que esses elementos afetam igualmente todos os concorrentes do setor de varejo.

Para a CEO da AGR Consultores, o diferencial da Casas Bahia reside em sua incapacidade de adaptação estrutural. A empresa não teria conseguido se reinventar a tempo de mitigar os impactos desses cenários econômicos desfavoráveis.

A piora das condições financeiras, o endividamento crescente e a dificuldade de acesso a crédito são sintomas de um problema mais profundo, que se manifesta na falta de agilidade e inovação em seu modelo de negócios.

O futuro incerto: recuperação judicial e a necessidade de transformação

O pedido de recuperação judicial representa um marco crítico para a Casas Bahia. A empresa agora terá que apresentar um plano detalhado para reestruturar suas dívidas e recuperar sua saúde financeira.

No entanto, como aponta Tozzi, a simples redução de custos e a renegociação de dívidas não serão suficientes. A transformação genuína do modelo de negócio, com um forte investimento em canais digitais e em novas formas de interação com o consumidor, é o caminho essencial para a sobrevivência e o futuro da empresa.

A competitividade no varejo moderno exige agilidade, inovação e uma profunda compreensão das mudanças de comportamento do consumidor. A Casas Bahia terá que demonstrar, nos próximos meses, se possui a capacidade de realizar essa virada estratégica e se desprender de um modelo que, segundo especialistas, se tornou um entrave para seu crescimento.

Desempenho passado e a sombra das disputas internas

A análise de Ana Paula Tozzi também lança luz sobre o contexto em que a empresa se encontrava antes do pedido de recuperação judicial. Em abril de 2025, as notícias sobre a companhia giravam em torno de disputas internas no Conselho de Administração e discussões complexas sobre a conversão de debêntures em participação acionária.

Esse cenário de instabilidade corporativa pode ter contribuído para a lentidão na tomada de decisões estratégicas e na implementação de mudanças necessárias, agravando ainda mais a situação financeira já delicada.

A falta de um consenso interno sobre os rumos da empresa pode ter dificultado a execução de um plano de recuperação eficaz, permitindo que os problemas estruturais se aprofundassem e levassem à atual situação de recuperação judicial.

A importância da agilidade e da adaptação no varejo

A jornada da Casas Bahia serve como um alerta para todo o setor varejista sobre a importância da agilidade e da adaptação em um mercado em constante evolução. A dependência excessiva de modelos tradicionais, como as lojas físicas, sem um investimento proporcional no digital e na inovação, pode levar empresas à beira do colapso.

A capacidade de gerar capital de giro de forma eficiente, gerenciar estoques de maneira otimizada e oferecer crédito com responsabilidade são pilares fundamentais para o sucesso no varejo contemporâneo.

A recuperação judicial da Casas Bahia é um capítulo doloroso, mas que pode representar um ponto de inflexão, caso a empresa consiga, de fato, implementar as transformações estruturais e estratégicas necessárias para se reinventar e reconquistar seu espaço no mercado.

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