China Aumenta Vigilância e Restrições Contra Comunidades Católicas, Diz HRW
A China intensificou suas medidas de controle e vigilância sobre as comunidades católicas no país, impondo novas restrições e pressionando fiéis a se alinharem com as diretrizes do Partido Comunista Chinês. A situação, detalhada em um relatório recente da Human Rights Watch (HRW), afeta aproximadamente 12 milhões de católicos chineses, com um foco particular nas comunidades que se recusam a jurar lealdade ao regime.
A pressão governamental tem se intensificado especialmente sobre os grupos católicos considerados “clandestinos” ou “não registrados”, que buscam manter sua fé fora do controle estatal. Essas comunidades enfrentam agora um cerco ideológico e prático cada vez maior, visando forçá-las a se integrar à Associação Patriótica Católica Chinesa, a igreja oficial controlada pelo Estado.
A campanha de “sinicização” das religiões, lançada em 2016 pelo presidente Xi Jinping, é apontada como o principal motor dessa repressão. A iniciativa busca moldar as práticas religiosas e os ensinamentos para que reflitam a cultura chinesa e a ideologia do Partido Comunista. As informações foram divulgadas pela organização de direitos humanos Human Rights Watch (HRW).
Campanha de “Sinicização” Amplia o Controle Estatal sobre a Fé
Desde abril de 2016, quando o presidente Xi Jinping deu início à sua ambiciosa campanha de “sinicização” das religiões, a China tem visto um aumento significativo na repressão contra diversas comunidades religiosas, incluindo a católica. Esta política, segundo a Human Rights Watch (HRW), visa garantir que todas as manifestações religiosas no país estejam em conformidade com a ideologia do Partido Comunista Chinês e com os valores culturais chineses tradicionais, interpretados sob a ótica do regime.
A sinicização exige que igrejas e ensinamentos religiosos se adaptem para refletir a cultura chinesa de matriz han e, crucialmente, a ideologia do Partido Comunista. Essa imposição tem levado à remoção de cruzes, à demolição de igrejas e à proibição de reuniões em locais não registrados pelo Estado. Para as autoridades chinesas, a religião deve servir como um instrumento de unidade nacional e lealdade ao Partido, e não como um espaço de autonomia espiritual ou crítica ao governo.
O impacto dessa campanha é profundo, com centenas de locais de culto tendo sido alvo de demolição ou descaracterização. Fiéis que tentam manter suas práticas em comunidades não oficiais são frequentemente impedidos de se reunir, vivenciando um constante estado de vigilância e incerteza. A HRW documentou casos em que a liberdade de expressão religiosa foi severamente limitada, com sermões e atividades pastorais sendo monitorados e, em muitos casos, censurados.
Comunidades Católicas Clandestinas Sob Pressão Crescente
As comunidades católicas clandestinas, que se recusam a reconhecer a autoridade do Partido Comunista Chinês sobre a Igreja, são o principal alvo da nova onda de repressão. Estima-se que cerca de 12 milhões de fiéis chineses pertençam a essas comunidades, que operam fora da estrutura formal da Associação Patriótica Católica Chinesa. A HRW relata que o governo tem intensificado os esforços para forçar a adesão desses grupos à igreja oficial, vista como um braço do Estado.
A pressão se manifesta de diversas formas, incluindo a vigilância constante, a restrição de viagens e a intimidação de líderes religiosos. O objetivo é claro: erradicar qualquer forma de organização religiosa que não esteja sob o controle direto do Partido. Para os fiéis dessas comunidades, a escolha é entre a submissão e a perseguição, uma dicotomia que tem levado a sofrimentos e dificuldades crescentes.
O relatório da HRW detalha como as autoridades chinesas utilizam táticas de pressão psicológica e legal para desarticular essas comunidades. Sacerdotes e líderes religiosos clandestinos são frequentemente detidos, interrogados e, em alguns casos, forçados a denunciar sua afiliação religiosa independente. A autonomia da fé é vista pelo regime como uma ameaça à sua hegemonia política.
O Acordo Vaticano-China como Ferramenta de Repressão
Um dos aspectos mais controversos da política chinesa em relação aos católicos é o uso do Acordo Provisório de 2018 entre o Vaticano e Pequim sobre a nomeação de bispos. Embora o acordo tenha sido apresentado como um meio de regularizar a situação da Igreja na China e facilitar o diálogo, a HRW argumenta que ele tem sido instrumentalizado pelo regime para aumentar a pressão sobre as comunidades católicas independentes.
Segundo a organização, o tratado, que já foi renovado por três vezes e tem validade até outubro de 2028, tem servido como um argumento para que as autoridades chinesas pressionem os católicos clandestinos a se filiarem à igreja oficial. Relatos colhidos pela ONG indicam que sacerdotes detidos foram informados de que “o Vaticano havia ordenado” sua adesão à Associação Patriótica Católica Chinesa, uma afirmação que a HRW considera ser uma tática de manipulação.
A HRW critica o Vaticano por não ter sido mais rigoroso na proteção dos fiéis católicos na China e por permitir que o acordo seja utilizado como ferramenta de repressão. A organização sugere que a Santa Sé deveria exercer maior pressão sobre Pequim para garantir que os princípios de liberdade religiosa sejam respeitados, em vez de facilitar o controle estatal sobre as nomeações e a estrutura da Igreja.
Vigilância Aumentada Dentro e Fora das Igrejas
A vigilância sobre os fiéis católicos na China atingiu novos patamares, segundo o relatório da HRW. Autoridades têm instalado câmeras de vigilância dentro de igrejas oficiais, monitorando as atividades dos fiéis e do clero. Além disso, horários de missas têm sido reorganizados para se tornarem menos convenientes, dificultando a participação de muitos, especialmente aqueles com compromissos de trabalho ou familiares.
Em algumas regiões, a participação em cultos agora exige pré-cadastro, um sistema que permite às autoridades rastrear e controlar quem frequenta os templos. Uma das medidas mais preocupantes é a política que impede sistematicamente a entrada de crianças em igrejas. Um católico entrevistado pela HRW descreveu essa prática como uma tentativa de “cortar os laços geracionais dentro da comunidade católica”, visando impedir a transmissão da fé às novas gerações e, consequentemente, minar o futuro da religião no país.
Essa vigilância ostensiva e as restrições criam um ambiente de medo e desconfiança, onde os fiéis se sentem constantemente observados e limitados em sua liberdade de expressão e prática religiosa. A intenção do governo parece ser a de desestimular a prática religiosa e enfraquecer os laços comunitários que a sustentam.
Restrições Severas ao Clero e Controle de Viagens
O cerco do regime comunista chinês se estende também ao clero católico, com regulamentações cada vez mais rigorosas. Uma norma publicada em dezembro de 2025 obriga todos os sacerdotes, bispos, diáconos e freiras a entregar seus documentos de viagem ao Estado. Isso significa que qualquer deslocamento pessoal ao exterior, incluindo visitas a familiares ou participação em eventos religiosos internacionais, agora depende da aprovação governamental.
Além do controle de viagens, o clero está sujeito a sessões de treinamento ideológico frequentes, que em algumas localidades ocorrem até duas vezes por semana. O conteúdo desses treinamentos visa doutrinar os religiosos nos princípios do Partido Comunista e garantir que suas mensagens estejam alinhadas com a política governamental. Os sermões precisam ser aprovados previamente pelas autoridades, eliminando qualquer espaço para discursos que possam ser considerados críticos ou independentes.
Essas medidas visam garantir que o clero atue como um agente do Estado, promovendo a ideologia oficial e desencorajando qualquer forma de dissidência. A autonomia pastoral é suprimida, e a liderança religiosa é cooptada para servir aos interesses do Partido Comunista, minando a integridade e a independência da Igreja Católica na China.
Apelo Internacional por Liberdade Religiosa na China
Diante do crescente quadro de repressão, a Human Rights Watch (HRW) faz um apelo contundente à comunidade internacional e à Santa Sé para que pressionem Pequim a cessar a perseguição às comunidades católicas. A organização reitera a importância do respeito à liberdade religiosa, um direito fundamental que tem sido sistematicamente violado na China.
Yalkun Uluyol, pesquisador da HRW para a China, afirmou que “o governo chinês deve parar de perseguir e intimidar fiéis por manterem sua fé de forma independente do controle do Partido Comunista”. Ele enfatiza que a autonomia religiosa não representa uma ameaça à estabilidade do país, mas sim um direito humano inalienável que deve ser protegido.
A organização espera que a pressão internacional possa levar a uma mudança nas políticas chinesas, garantindo que os católicos e outros grupos religiosos possam praticar sua fé livremente, sem medo de perseguição ou vigilância. A situação na China continua sendo um ponto de atenção para defensores dos direitos humanos em todo o mundo.