Acusações de homem condenado por assassinato abalam o governo do Maranhão; Carlos Brandão nega contato
Um homem condenado por assassinato no Maranhão, cujo caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro Flávio Dino, fez alegações bombásticas em depoimento à Polícia Federal. Gilbson Júnior, como é identificado, afirmou ter frequentado o gabinete do governador Carlos Brandão (MDB-MA) e mantido reuniões com o político e seu sobrinho, Daniel Brandão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA) que foi recentemente afastado de suas funções por decisão de Dino.
As declarações, prestadas em junho de 2025, sugerem um envolvimento direto do governador e de seu sobrinho em negociações que teriam culminado no assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, supostamente ligado a disputas por propinas. Gilbson Júnior relatou ainda supostos pagamentos para garantir seu silêncio após o crime. As informações foram apuradas pela TV Globo e pelo G1.
Tanto o governador Carlos Brandão quanto Daniel Brandão negaram enfaticamente qualquer tipo de relação com Gilbson Júnior, classificando as acusações como mentiras sem provas e colocando-se à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos. O caso ganha contornos ainda mais complexos com o afastamento de Daniel Brandão do TCE-MA, decisão também contestada pelo conselheiro. Conforme informações divulgadas pelo g1 e pela TV Globo.
O depoimento que revela suposto trânsito livre no Palácio dos Leões
No seu depoimento sigiloso à Polícia Federal, Gilbson Júnior detalhou como teria se aproximado do então vice-governador Carlos Brandão em 2021. Ele afirmou que possuía uma vaga designada no Palácio dos Leões, a vaga número 6, e que suas visitas eram registradas em ata. Segundo o condenado, ele frequentemente se comunicava com Daniel Brandão para agendar suas entradas, utilizando a área de vivência do governador para acessar o salão principal.
A narrativa de Gilbson indica que Carlos Brandão passou a convidá-lo para reuniões e, posteriormente, o colocou em contato com Daniel Brandão. Inicialmente, as negociações teriam envolvido questões agrárias. Contudo, o teor das conversas teria mudado, evoluindo para uma cobrança relacionada a pagamentos de uma empresa ao governo estadual, dos quais parte do montante deveria retornar ao grupo político de Brandão, mas que estariam bloqueados devido a uma dívida trabalhista.
O condenado descreveu uma reunião no complexo empresarial Tech Office, em São Luís, onde o empresário João Bosco também esteve presente. Segundo seu relato, houve uma cobrança pelo dinheiro, e após ameaças, ele teria sacado uma arma e disparado três vezes contra Bosco. A investigação sobre o assassinato do empresário aponta para uma possível ligação com a disputa por propinas.
Promessas de silêncio e pagamentos em espécie após o crime
Após o assassinato de João Bosco Sobrinho, Gilbson Júnior alegou ter recebido orientações para se entregar à polícia e manter o silêncio, com a promessa de ser liberado posteriormente. Ele também afirmou que sua família passou a receber pagamentos em espécie após o crime. Os valores teriam variado ao longo do tempo, começando com R$ 40 mil mensais para que ele não saísse de casa.
Segundo Gilbson, após a eleição de Carlos Brandão, o valor teria diminuído para R$ 30 mil e, por fim, para R$ 15 mil por mês. Ele mencionou ainda nomes como o do ex-secretário de Segurança Pública, Raimundo Cutrim, e do advogado Flávio Costa – que foi nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão em 2026 por Carlos Brandão – como supostos intermediários desses pagamentos. Em outro trecho do depoimento, Gilbson relatou ter recebido uma ligação de Marcus Brandão, irmão do governador, enquanto estava preso, com a mensagem de que “vai dar tudo certo” se os nomes de Carlos e Daniel não fossem mencionados.
Polícia Federal aponta falhas na investigação inicial e depoimento sob pressão
A Polícia Federal também levantou a existência de imagens de câmeras de segurança no local do assassinato, mas destacou que a Polícia Civil do Maranhão não teria identificado Daniel Brandão como participante da reunião que antecedeu o crime. Gilbson Júnior, por sua vez, declarou que seu primeiro depoimento à polícia foi uma “armação” e que ele foi instruído a não mencionar o nome de Daniel Brandão. Ele descreveu a cena:
“Quando eu fui me apresentar na delegacia, que eu cheguei lá, já estava tudo armado. O delegado, todo mundo. O delegado até escreveu um nome no papel assim em branco […] ele escreveu assim: Não bota o nome, não fale Daniel. Aí botou em cima da mesa, assim, virado”, relatou.
Essa declaração levanta sérias dúvidas sobre a condução inicial das investigações e sugere uma possível interferência para proteger figuras políticas. A Polícia Federal busca agora reconstituir os fatos com base no depoimento mais recente e em outras provas colhidas.
Carlos e Daniel Brandão negam veementemente as acusações e rebatem as alegações
Em resposta às graves acusações, o governador Carlos Brandão emitiu uma nota oficial e utilizou suas redes sociais para negar qualquer envolvimento com Gilbson Júnior e refutar as alegações de ligação com o crime. Ele classificou os relatos como “mentirosos” e sem qualquer base probatória.
“Nunca tive relação com esse condenado confesso. Nunca o recebi no Palácio, nem em qualquer lugar”, declarou Brandão, ressaltando que as acusações carecem de provas concretas. O governador enfatizou sua longa trajetória de 35 anos na vida pública, marcada pela ausência de processos antes do rompimento político com outros grupos, o que, segundo ele, o tornou alvo de acusações. Ele reafirmou que sua trajetória, família e patrimônio foram construídos com muito trabalho e que não aceitará que sua história seja “jogada na lama”.
Carlos Brandão também mencionou que sua defesa ainda não teve acesso à integralidade dos autos do inquérito, mas que, mesmo assim, três decisões foram seletivamente publicizadas. Ele destacou que a própria Procuradoria-Geral da República se manifestou no sentido de que o caso não deveria ser conduzido pelo STF. O governador concluiu afirmando ter serenidade de que a verdade prevalecerá e que, com mais de 70% de aprovação, segue focado em trabalhar pelo povo do Maranhão.
Daniel Brandão declara inocência e expressa perplexidade com afastamento do TCE
Daniel Brandão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) e sobrinho do governador, também se pronunciou sobre as acusações e seu recente afastamento do cargo. Ele declarou “absoluta inocência” e afirmou estar à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários. Daniel Brandão manifestou “perplexidade” com a decisão de afastamento, que, segundo ele, ainda não foi oficialmente intimado.
“Embora ainda não tenha sido oficialmente intimado de seu teor, recebo a notícia com profunda perplexidade. Reafirmo, de forma serena e categórica, minha absoluta inocência e minha confiança de que a verdade dos fatos será devidamente esclarecida”, declarou, reiterando sua total disposição para colaborar com as investigações, inclusive tendo peticionado espontaneamente nos autos para ser ouvido.
Daniel Brandão assegurou que sempre pautou sua atuação pelo respeito às instituições e ao Poder Judiciário. Apesar de discordar profundamente da medida de afastamento, afirmou que a cumprirá integralmente. Ele também anunciou que adotará, pelos meios legais, todas as providências cabíveis para exercer plenamente seu direito de defesa e demonstrar a verdade dos fatos. O afastamento do TCE-MA, decidido por Flávio Dino, adiciona uma nova camada de complexidade ao escândalo.
Outros nomes citados e o papel do Poder Judiciário no caso
Além de Carlos e Daniel Brandão, o depoimento de Gilbson Júnior também citou o ex-secretário de Segurança Pública, Raimundo Cutrim, e o desembargador Flávio Costa, como supostos intermediários nos pagamentos. Flávio Costa, nomeado desembargador em 2026 por Carlos Brandão, ainda não havia se manifestado sobre as acusações até a publicação da reportagem. A Polícia Federal segue investigando o papel de cada um dos citados nas supostas transações.
O caso tem repercussão direta no cenário político do Maranhão, especialmente considerando a rivalidade política entre o grupo do governador Carlos Brandão e o grupo liderado pelo ministro Flávio Dino. O fato de o caso do assassinato ter chegado ao STF sob relatoria de Dino, e o subsequente afastamento de Daniel Brandão do TCE-MA por ele, intensificam as tensões. A Justiça agora tem o desafio de apurar as alegações de Gilbson Júnior e determinar a veracidade dos fatos, garantindo o devido processo legal para todos os envolvidos.
O que diz a defesa e os próximos passos da investigação
A defesa de Carlos Brandão tem argumentado que o acesso aos autos do inquérito tem sido limitado, o que dificulta a plena apresentação de sua defesa. A menção de que a Procuradoria-Geral da República recomendou que o caso não fosse conduzido pelo STF é um ponto que a defesa do governador pretende explorar. A estratégia parece ser demonstrar que o caso, embora grave, não possui elementos que justifiquem a tramitação na Suprema Corte, e que as alegações carecem de lastro probatório robusto.
Por outro lado, a Polícia Federal e o Ministério Público buscam consolidar as provas apresentadas por Gilbson Júnior, buscando corroborar suas declarações com outras evidências. A investigação sobre o assassinato de João Bosco Sobrinho, que pode estar ligado a disputas financeiras e propinas, é central para desvendar a rede de relações e possíveis crimes associados. O afastamento de Daniel Brandão do TCE-MA, embora contestado por ele, indica que o Poder Judiciário está agindo com base nas informações que lhe foram apresentadas, buscando assegurar a lisura dos órgãos de controle.
Contexto político e o impacto das acusações no governo estadual
As alegações de Gilbson Júnior chegam em um momento delicado para o governo do Maranhão. A relação entre o governador Carlos Brandão e o ministro Flávio Dino, ambos de grupos políticos rivais, já era tensa. O fato de um condenado por assassinato citar o gabinete do governador e um conselheiro afastado por Dino, lança uma sombra de suspeita sobre a administração estadual e pode gerar instabilidade política.
A opinião pública maranhense acompanha de perto os desdobramentos, com expectativas de que a justiça seja feita e que a verdade venha à tona. A credibilidade das instituições e a transparência na gestão pública estão sob escrutínio. O desenrolar deste caso poderá ter implicações significativas no futuro político do estado, impactando a confiança dos cidadãos e o equilíbrio das forças políticas locais.
O que pode acontecer a partir de agora
As investigações policiais e judiciais seguirão seu curso para apurar a veracidade das declarações de Gilbson Júnior. A Polícia Federal deverá aprofundar a coleta de provas, incluindo análise de documentos, quebras de sigilo telefônico e bancário, e novos depoimentos de pessoas citadas. O Ministério Público oferecerá a denúncia, caso haja elementos suficientes para embasar uma ação penal.
O Tribunal de Justiça do Maranhão e, possivelmente, o Supremo Tribunal Federal analisarão o caso, dependendo da configuração das acusações e das provas apresentadas. O afastamento de Daniel Brandão do TCE-MA é um indicativo da seriedade com que as autoridades estão tratando as informações. Tanto o governador quanto o conselheiro afastado deverão apresentar suas defesas de forma robusta, buscando comprovar suas alegações de inocência e a inexistência de qualquer ligação com os crimes imputados a Gilbson Júnior.