Minas Gerais: Do quintal ao mercado global, o abacate vira protagonista na exportação

O abacate, outrora uma fruta restrita aos quintais de casa e às vitaminas matinais, está se transformando no novo “ouro verde” da produção nacional. Minas Gerais tem emergido como um polo fundamental nesse cenário, impulsionando o Brasil no mercado internacional de exportação da fruta. Com um crescimento expressivo na produção e um foco estratégico em variedades específicas, o estado mineiro consolida sua posição como potência na fruticultura.

A expectativa para os próximos anos é de um avanço ainda mais significativo nas exportações, com projeções que indicam um aumento considerável no volume destinado ao exterior. Estados como São Paulo e Paraná também figuram entre os principais produtores, mas Minas Gerais vem se destacando pela qualidade e potencial de crescimento, atraindo investimentos e expandindo suas áreas de cultivo.

Este crescimento reflete não apenas o aumento da produção, mas também a crescente demanda global por frutas frescas e de alta qualidade. O mercado internacional tem mostrado um interesse renovado pelo abacate, especialmente pela variedade Hass, conhecida por suas características ideais para o transporte e comercialização em longas distâncias. Conforme informações divulgadas pela Associação Abacates do Brasil e dados do IBGE.

A ascensão do abacate: de fruta caseira a commodity de exportação

A trajetória do abacate no Brasil é marcada por uma transformação notável. De um fruto comum em quintais, presente em receitas tradicionais como vitaminas e sobremesas, ele ascendeu ao status de commodity de exportação, com potencial econômico significativo. Em 2026, o país iniciou o ano com fortes expectativas de avanço nas exportações, com São Paulo, Minas Gerais e Paraná liderando a produção.

Dados do IBGE de 2024 revelam a força desses estados: São Paulo produziu 161.454 toneladas em 10.356 hectares, enquanto Minas Gerais alcançou 135.624 toneladas em 8.053 hectares. O Paraná aparece em terceiro, com 32.320 toneladas em 1.839 hectares. Esses números reforçam a importância da fruticultura para a economia nacional e a ambição de ampliar a presença brasileira no mercado internacional.

A projeção para a safra atual é de cerca de 60 mil toneladas adicionais, com uma parcela significativa, entre 40 mil e 45 mil toneladas, destinada à exportação, segundo a Associação Abacates do Brasil. No ano anterior, o volume exportado foi de aproximadamente 25 mil toneladas. Alberto Penariol, presidente da associação e produtor de avocado, demonstra otimismo, citando o clima favorável na primavera de 2025 e a entrada de novas áreas em produção como fatores impulsionadores.

Minas Gerais: um gigante na produção com regiões estratégicas

Minas Gerais, com mais de 12 mil hectares dedicados ao cultivo do abacate, apresenta um cenário animador para a fruticultura. A produção estadual está concentrada em cinco regiões principais, segundo dados da Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE. O Alto Paranaíba lidera com 57.440 toneladas, representando 42,35% da produção mineira em 2024.

Em seguida, o Sul de Minas contribui com 47.798 toneladas (35,24%), seguido pelo Triângulo Mineiro com 7.549 toneladas (5,57%), a Zona da Mata com 6.434 toneladas (4,74%) e a Região Central com 5.230 toneladas (3,86%). Essa distribuição geográfica demonstra a capilaridade e o potencial produtivo do estado.

Esses números consolidam Minas Gerais como um player de peso em um mercado global que valoriza cada vez mais a qualidade e a regularidade na oferta de frutas frescas. A demanda internacional crescente, aliada às condições favoráveis de cultivo em diversas regiões mineiras, posiciona o estado para um futuro promissor na exportação de abacate.

A estrela da exportação: o avocado tipo Hass

Dentro da diversidade de abacates cultivados em Minas Gerais – que inclui variedades como Breda, Fortuna, Geada, Margarida, Ouro Verde e Quintal – o tipo Hass, popularmente conhecido como avocado, é o único direcionado para a exportação. As demais variedades, classificadas como “tropicais”, são integralmente consumidas pelo mercado interno brasileiro.

A distinção se dá pelas características intrínsecas do Hass. Seu tamanho menor e casca mais espessa conferem uma maturação mais lenta e uma resistência superior durante o transporte. Essa durabilidade é crucial para suportar as longas viagens em contêineres até os destinos internacionais, garantindo que a fruta chegue em perfeitas condições aos consumidores.

Deny Sanábio, coordenador técnico de fruticultura da Emater-MG, corrobora essa visão, afirmando que a demanda internacional se concentra especificamente no Hass. “Quem está pensando em exportação já vai direto para o Hass, que é o único que tem demanda. Os outros abacates são grandes, o que vai na contramão de tendência de mercado. Principalmente fora do Brasil, a tendência é por frutas pequenas”, explica. A busca por porções individuais, impulsionada por famílias menores e um número crescente de pessoas vivendo sozinhas, reforça essa preferência por frutas de menor porte.

A ciência por trás da longevidade e sabor do avocado

A maturação lenta do avocado não é apenas uma vantagem logística, mas também uma característica que atrai novos produtores. O abacate é uma fruta climatérica, o que significa que seu processo de amadurecimento continua mesmo após ser colhida. Essa propriedade, ao contrário de frutas como a tangerina, permite que o produtor tenha maior flexibilidade na colheita e comercialização.

“O abacate é uma fruta climatérica. Quer dizer que o fruto continua o processo de maturação após a retirada da planta. Diferente do que acontece com a tangerina, que se colher verde, ela vai ficar verde; se estiver ácida, vai ficar ácida. Isso é uma vantagem muito boa porque o produtor pode colher, transportar para onde ele vai ser comercializado, e vai ficar na gôndola por um tempo maior”, compara Sanábio.

Além da durabilidade, o sabor é outro diferencial. O avocado possui um teor de gordura maior e um sabor mais intenso, o que o torna ideal para o preparo de receitas salgadas, forma de consumo predominante em muitos países da América Latina. Essa combinação de fatores – resistência, sabor e adequação ao transporte – solidifica a primazia do Hass no mercado de exportação.

Plantio em altitude: a estratégia mineira para estender a safra e diferenciar o produto

A produção comercial de abacates no Brasil iniciou-se há cerca de 30 anos, nos estados do Paraná e São Paulo. Com o tempo, produtores migraram para regiões como São Gotardo (MG), levando consigo o cultivo das variedades tropicais. Inicialmente, as fazendas eram de pequeno porte e o mercado, bastante fechado.

Alberto Penariol, com vasta experiência no setor agroindustrial, aprofundou-se na cultura do abacate a partir de 2020, ao ser convidado para liderar as operações de um grupo chileno no sul de Minas. Sua visão sobre o mercado mudou radicalmente ao perceber o potencial inexplorado do avocado, especialmente o Hass, e o gigantesco mercado mundial que o Brasil desconhecia.

Com base em sua experiência em Poços de Caldas, Penariol identificou uma oportunidade única: investir em plantios em altitudes mais elevadas, na Serra da Mantiqueira. Essa estratégia visa estender a janela de colheita do avocado, que naturalmente ocorre de fevereiro a outubro. Ao plantar em altitudes acima de 1.500 metros, busca-se obter uma produção mais distribuída ao longo do ano, aproveitando as condições climáticas amenas e as noites mais frescas, em contraste com as regiões de menor altitude e primavera mais seca e quente.

Minas Gerais: um ambiente propício para o crescimento do avocado

O estado de Minas Gerais oferece diversos atrativos para os produtores de abacate focados no mercado internacional. A abundância de áreas com altitude superior a mil metros, a qualidade do solo e a boa infraestrutura logística, especialmente na região sul, são fatores decisivos.

“Minas Gerais é onde está o grande foco de crescimento, está recebendo cada vez mais investidores porque tem essa possibilidade, tem uma logística boa, está perto dos grandes centros consumidores. A região que está às margens da (rodovia) Fernão Dias está crescendo bastante por causa da logística”, afirma Penariol.

A Serra da Canastra também se destaca pelo clima e altitude favoráveis, embora a logística ainda represente um desafio. A combinação desses fatores posiciona Minas Gerais como um centro estratégico para o desenvolvimento da cultura do avocado no Brasil, atraindo investimentos e impulsionando a economia local.

Resultados expressivos nas exportações e iniciativas de fomento

O avanço de Minas Gerais no comércio exterior de abacate é notável. Em 2025, o estado registrou US$ 12,8 milhões em exportações, embarcando 7 mil toneladas da fruta – o melhor resultado em anos recentes. Comparado a 2024, houve um crescimento expressivo de 135% em valor e 160% em volume.

Os principais destinos do abacate mineiro foram os Países Baixos e a Argentina, entre um total de oito mercados compradores. Municípios como Rio Paranaíba, São Gotardo e Ibiá despontaram como os maiores exportadores dentro do estado. Essa diversificação de mercados demonstra a competitividade do produto mineiro.

Para fortalecer ainda mais a fruticultura, o governo estadual implementou o programa “Certifica Minas Frutas”. Coordenado pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), o programa estabelece padrões de boas práticas agrícolas, rastreabilidade e sustentabilidade. A certificação, reconhecida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, auxilia os produtores a atenderem às exigências sanitárias, ambientais e de qualidade dos mercados internacionais, agregando valor ao produto e ampliando as oportunidades de exportação.

Agroexporta e o futuro da fruticultura mineira

Outra iniciativa governamental que visa impulsionar o agronegócio mineiro é o programa “Agroexporta”. Voltado para o estímulo da cultura exportadora, o programa oferece ações de orientação, articulação institucional e apoio à promoção comercial, conectando produtores e agroindústrias às oportunidades no mercado externo.

Essas iniciativas públicas, aliadas ao trabalho dos produtores e à vocação agrícola do estado, criam um ecossistema favorável para o crescimento contínuo da fruticultura mineira. O “Certifica Minas Frutas” e o “Agroexporta” são ferramentas essenciais para garantir que os produtos de Minas Gerais atendam aos mais altos padrões de qualidade e segurança alimentar, requisitos indispensáveis para o sucesso no comércio internacional.

Orientações para produtores: planejamento e informação são chaves para o sucesso

Para produtores que desejam ingressar no mercado de avocado, especialmente o tipo Hass, Alberto Penariol enfatiza a importância de um planejamento detalhado. A definição do local ideal para o pomar, o período de colheita e uma estratégia comercial clara são fundamentais, especialmente para pequenos e médios produtores com até 70 hectares de cultivo.

“Eu acredito que um produtor de pequeno e médio porte tem que estar alinhado numa cadeia de ponta a ponta. Tem que pensar o seguinte: ‘para onde eu vou mandar essa fruta? Onde eu vou plantar, o clima é bom, ameno? Qual é a janela de colheita e o que eu vou fazer com essa fruta?'”, detalha Penariol.

Ele ressalta que o mercado de avocado exige organização e informação. Diferentemente do abacate tropical, que pode ser comercializado localmente sem certificações rigorosas, o Hass demanda certificações de qualidade e a parceria com distribuidores especializados. “Um ponto muito importante sobre o setor é buscar informações e pessoas que conheçam o assunto. No abacate tropical, se um produtor quiser plantar uns pés no sítio dele, vai ter comprador local, não precisa ter certificações de qualidade. Com o avocado tem que ter a certificação, vai ter que ter um parceiro (para comercializar). Então, é preciso buscar ajuda”, conclui.

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