A febre das “canetas do Paraguai”: como emagrecedores ilegais viralizam nas redes sociais
A busca por um corpo mais magro impulsiona um mercado ilegal e perigoso nas redes sociais, onde medicamentos proibidos pela Anvisa, como a tirzepatida, são promovidos como “queridinhas” e “canetas do Paraguai”. Esses produtos, frequentemente contrabandos do país vizinho, são anunciados em grupos de WhatsApp e por influenciadores digitais, prometendo emagrecimento rápido e sem esforço.
Apesar da proibição no Brasil, onde apenas o Mounjaro, sob prescrição médica e retenção de receita, é liberado, a oferta de emagrecedores ilegais é vasta e acessível. Vendedores utilizam táticas de marketing agressivas, incluindo promoções, depoimentos de usuários e garantia de entrega em domicílio, ignorando os riscos à saúde e as consequências legais do contrabando.
A Receita Federal aponta o crime organizado como um dos principais compradores desses produtos, que entram no país principalmente pela fronteira do Mato Grosso do Sul. A facilidade de acesso e a disseminação em plataformas digitais criam um cenário alarmante para a saúde pública, com apreensões recordes e um desafio constante para a fiscalização.
Tirzepatida e variações: os nomes por trás da promessa de emagrecimento
Na fronteira com o Paraguai, a tirzepatida, substância ativa em medicamentos para diabetes e obesidade, é comercializada sob diversos nomes como TG, Lipoless, Lipoland, Gluconex e Tirzec. Embora liberados para venda no país vizinho, esses produtos são estritamente proibidos no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A única alternativa aprovada e regulamentada no território nacional é o Mounjaro, que exige acompanhamento médico rigoroso e receita retida.
Apesar da regulamentação brasileira, o mercado ilegal floresce. Grupos em aplicativos de mensagem e redes sociais são palcos de intensa publicidade, com vendedores oferecendo dicas de como adquirir os produtos no Paraguai e “importá-los” para o Brasil. Os preços variam entre R$779 e R$929, com atrativos como frete grátis, alimentando um ciclo de consumo arriscado.
A facilidade de acesso a esses medicamentos, muitas vezes sem controle de qualidade ou refrigeração adequada durante o transporte, representa um grave risco à saúde dos consumidores. A falta de orientação médica qualificada e a possibilidade de efeitos colaterais adversos são preocupações constantes diante da popularidade desses produtos.
Redes sociais e WhatsApp: os canais de venda do contrabando
A reportagem identificou a circulação livre de links para grupos de WhatsApp que funcionam como verdadeiras farmácias online. Nesses ambientes, promoções, depoimentos de usuários e canais de atendimento ao cliente (SAC) são amplamente divulgados. A vendedora “Carol”, por exemplo, compartilha tabelas de preços e garante a entrega rápida e segura, incentivando a compra imediata com a alegação de estoques limitados.
O marketing agressivo inclui a exibição de fotos e vídeos enviados por clientes, que atestam o recebimento dos produtos e a eficácia no emagrecimento. No entanto, um detalhe crucial é frequentemente negligenciado: a necessidade de refrigeração para manter a integridade da molécula. Usuários relatam que os medicamentos chegam em suas casas sem a cadeia de frio adequada, o que pode comprometer sua eficácia e segurança.
A própria comunidade de usuários demonstra ciência da ilegalidade do esquema. Mensagens em grupos alertam sobre a importância de remover informações de rastreio e logos de transportadoras em fotos compartilhadas, visando dificultar a fiscalização policial. A preocupação com a apreensão dos produtos pelos Correios leva os compradores a sugerirem a contratação de um seguro adicional, evidenciando a percepção de risco inerente à transação.
A rota do contrabando: da fronteira paraguaia ao consumidor brasileiro
A rota de entrada desses medicamentos ilegais no Brasil é predominantemente pela fronteira do Paraguai com o Mato Grosso do Sul, passando por cidades como Pedro Juan Caballero e Ciudad del Este. De lá, os produtos são transportados até centros de distribuição, como Campo Grande, e subsequentemente enviados aos consumidores finais por meio de transportadoras.
A J&T Express, empresa de logística citada em um dos grupos como canal de envio, declarou estar ciente das denúncias e manter um diálogo com as autoridades. A transportadora afirmou estar colaborando com a Polícia Federal para fortalecer a segurança nas operações transfronteiriças e que segue a legislação brasileira, intensificando controles e bloqueando envios suspeitos.
A Receita Federal tem intensificado a fiscalização, especialmente em Mato Grosso do Sul, onde as apreensões de medicamentos contrabandeados têm aumentado significativamente. A dificuldade reside na fiscalização terrestre e em aeroportos, dada a vasta extensão da fronteira. Órgãos de inteligência colaboram para identificar e coibir essas atividades ilícitas.
O hiato legal e a “justificativa” para a importação
Um novo produto, a T36, uma suposta versão paraguaia da tirzepatida, tem sido promovida com a alegação de ainda não ter sido proibida oficialmente no Brasil. A Anvisa, contudo, reitera que o medicamento não possui liberação em território nacional, tornando sua comercialização ilegal. A agência reguladora esclarece que a importação por pessoa física para uso pessoal é permitida apenas em caráter excepcional e desde que não haja restrições específicas para o produto.
Esse cenário cria um vácuo explorado pelos vendedores. A ausência de proibição explícita para a T36, diferente de outras marcas paraguaias já listadas pela Anvisa, é utilizada como justificativa para que indivíduos cruzem a fronteira com o medicamento ou solicitem judicialmente a importação para uso próprio, munidos de receitas médicas.
A estratégia envolve a venda de um pacote completo, que inclui a oferta de consultas médicas online por valores acessíveis (R$70 a R$90), com a promessa de fornecer receitas e laudos médicos por R$250. Alguns dos profissionais que oferecem esses serviços alegam possuir registro ativo no Conselho Regional de Medicina, o que, em alguns casos, foi confirmado pela reportagem, gerando ainda mais credibilidade ao esquema ilegal.
Influenciadores e a “onda” das “queridinhas”: marketing de alto alcance
O tema dos emagrecedores se tornou viral nas redes sociais, com influenciadores de diversas áreas, incluindo médicos e nutricionistas, compartilhando suas opiniões, dicas de uso, efeitos colaterais e experiências pessoais. A linguagem popular, com termos como “queridinhas”, “canetas do Paraguai” e “a mais desejada do momento”, facilita a disseminação e o engajamento do público.
É comum encontrar vídeos que incentivam diretamente a compra de produtos contrabandeados, com indicações de farmácias, preços e até mesmo vendedores específicos na Cidade do Leste, no Paraguai. Essas publicações frequentemente exibem imagens das ruas paraguaias, com estratégias de marketing chamativas, como a presença de pessoas, bandeiras coloridas e personagens fantasiados, tudo para capturar a atenção do consumidor.
As próprias farmácias paraguaias mantêm perfis ativos nas redes sociais e em seus sites, destacando a venda da tirzepatida e prometendo entregas no Brasil, muitas vezes com descontos para compras em atacado. Embora a venda online desses medicamentos não seja crime no Paraguai, a entrada em território brasileiro configura o crime de contrabando, com penalidades que podem variar de dez a quinze anos de prisão.
Aumento expressivo de apreensões e o impacto no crime organizado
Os números revelam a dimensão do problema: somente na região da tríplice fronteira, a Receita Federal apreendeu mais de 76 mil unidades de medicamentos, totalizando um valor estimado em R$19 milhões. Este é o maior registro histórico de contrabando desse tipo de produto, que se posiciona como o segundo item mais traficado na fronteira, atrás apenas de celulares.
A Receita Federal também observa uma mudança no perfil do crime organizado, que tem diminuído o investimento em cigarros falsificados para direcionar recursos ao tráfico de medicamentos. A escalada nas importações de medicamentos legalizados com hormônios polipeptídeos, como semaglutida e tirzepatida, no Brasil, também reflete a alta demanda por essas substâncias, impulsionando as compras externas em mais de 85% no primeiro semestre de 2026.
É crucial diferenciar esses medicamentos legalizados, que passam por rigorosos processos de aprovação e controle de qualidade, dos produtos contrabandeados. A Anvisa tem trabalhado para ampliar o acesso a tratamentos seguros e eficazes, com a aprovação de versões genéricas e a regulamentação de medicamentos que realmente beneficiam a saúde da população, em contrapartida ao mercado ilegal e perigoso que se alastra pelas redes sociais.