Entregadores expressam frustração com governo Lula e criticam novas medidas de crédito
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um crescente descontentamento por parte dos entregadores de aplicativos. Apesar de esforços para regulamentar o trabalho e oferecer linhas de crédito subsidiado, a categoria considera que as ações são insuficientes e possuem um caráter eleitoreiro, especialmente em ano pré-eleitoral.
A principal frustração reside na falha do projeto de lei que visava melhorar a remuneração dos trabalhadores por aplicativo, que não avançou no Congresso. Agora, as novas medidas de crédito, como o programa Move Brasil, são vistas com ceticismo, pois muitos acreditam que elas não atingem os trabalhadores mais necessitados e podem, na verdade, aprofundar o endividamento.
Representantes de associações de entregadores, que reúnem cerca de 1,7 milhão de pessoas segundo o IBGE, apontam que a baixa remuneração paga pelas plataformas continua sendo o problema central, algo que as atuais propostas de financiamento não abordam. As informações são baseadas em declarações de lideranças da categoria e análises de suas associações.
Programa Move Brasil: Uma aposta do governo com dúvidas da categoria
Uma das principais iniciativas do governo para o setor é a linha de crédito de aproximadamente R$ 4 bilhões do programa Move Brasil, com previsão de início de operação em 27 de julho. O programa tem como objetivo facilitar a aquisição de motos e bicicletas elétricas para entregadores e mototaxistas, oferecendo prazos de até 48 meses e dois meses de carência.
No entanto, Abel Santos, presidente da Associação dos Trabalhadores por Aplicativos e Motociclistas (Atam), expressa preocupação de que o programa não beneficie aqueles que mais precisam renovar seus veículos. Segundo ele, muitos entregadores já possuem restrições de crédito ou um alto nível de endividamento, o que dificulta a aprovação de novos financiamentos.
“Oferecer empréstimos não resolve o principal problema dos entregadores, que é a baixa remuneração paga pelas plataformas”, afirma Santos. Ele ressalta que a prioridade deveria ser aumentar os ganhos, e não apenas facilitar o acesso a dívidas, especialmente em um cenário de instabilidade econômica.
Experiência negativa com linha de crédito para motoristas acentua desconfiança
O ceticismo em relação às novas medidas de crédito é reforçado pela experiência anterior com uma linha de financiamento de R$ 30 bilhões destinada a motoristas de aplicativo, anunciada em maio. Para testar a eficácia do programa, a Atam realizou um teste com dez motoristas que possuíam bom histórico de crédito e nome limpo.
Embora todos tenham sido aprovados na fase inicial, ao buscarem os bancos para efetivar o financiamento, as ofertas recebidas foram parciais, cobrindo apenas uma pequena porcentagem do valor dos veículos. Essa limitação impediu a concretização da compra.
“Quando chegou ao banco, ofereceram financiamento de no máximo 25% do valor do carro. Ninguém conseguiu efetivar o financiamento. Se não funcionou para os motoristas, a expectativa para as motos é zero”, lamenta Abel Santos. Essa experiência serve como um alerta para as dificuldades que os entregadores podem enfrentar com o programa Move Brasil.
Críticas de “eleitoreirismo” e o atraso das ações governamentais
Alexandre Santos, presidente da Associação União Maior, de Santa Catarina, compartilha a visão de que as ações do governo são percebidas pela categoria como “eleitoreiras”. Ele critica o fato de as iniciativas surgirem apenas no período pré-eleitoral, apesar de o governo ter dialogado com os entregadores desde o início do mandato.
“Não somos contra as medidas, mas elas chegaram tarde”, declara Alexandre. “O governo dialoga conosco desde o início do mandato e só agora, em período pré-eleitoral, começaram a aparecer essas iniciativas”, complementa.
Ele argumenta que o governo tenta solucionar um problema de renda com mais crédito, o que, em sua opinião, é uma abordagem equivocada. “Sem melhorar a remuneração, oferecer crédito significa apenas criar mais endividamento. Crédito sem renda não resolve”, enfatiza.
Risco de endividamento em cenário de instabilidade no delivery
A preocupação com o endividamento se agrava diante da instabilidade atual no mercado de delivery. A chegada de novas plataformas, muitas delas chinesas, tem gerado um aumento temporário na remuneração em algumas cidades. Contudo, lideranças da categoria alertam que esses ganhos costumam desaparecer em poucos meses, tornando o planejamento financeiro e a contratação de financiamentos de longo prazo ainda mais arriscados.
Alexandre Santos explica que o aumento da concorrência, embora traga uma melhora pontual nos ganhos, é insuficiente para alterar a realidade de longo prazo dos trabalhadores. “É uma melhoria, mas ela tem uma duração muito limitada. É coisa de meses, às vezes até de um mês”, afirma.
Ele detalha que as plataformas utilizam essa estratégia de aumentar os pagamentos em suas fases iniciais para atrair entregadores e acelerar a expansão de suas operações. Após a consolidação da base de trabalhadores, os valores pagos retornam aos patamares anteriores, muitas vezes mais baixos.
Abel Santos corrobora essa visão, citando o exemplo da plataforma 99: “A 99 chegou, por três meses pagou bem para chamar o trabalhador e depois já está igual ao iFood”. Ele alerta que a sensação de ganho, mesmo que temporário, pode levar os entregadores a assumir dívidas que não conseguirão honrar, pois não há garantia de que esses valores se sustentarão.
Projeto de regulamentação: O ponto de inflexão na relação com o governo
A atual frustração da categoria com o governo Lula não é recente e tem raízes profundas na condução do projeto de regulamentação do trabalho por aplicativo. Durante a campanha eleitoral de 2022, o presidente prometeu avançar nessa questão, e um grupo de trabalho foi criado no início do mandato para elaborar uma proposta.
Entretanto, o projeto enfrentou forte resistência tanto das empresas de aplicativo quanto de parcelas significativas dos próprios entregadores. O principal ponto de discórdia e impasse na Câmara dos Deputados foi a proposta de criação de uma remuneração mínima por entrega, defendida pelo ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), mas rejeitada pelas plataformas e contestada por parte das lideranças da categoria.
Para Abel Santos, a forma como as negociações foram conduzidas acabou por deixar de lado reivindicações consideradas prioritárias pelos entregadores, gerando um desgaste considerável na relação com o governo. “O Lula sai horrivelmente desgastado”, avalia. “A pauta ficou concentrada na remuneração mínima de R$ 10 por entrega, que não solucionava o problema. Nós queríamos discutir proteção ao trabalhador, piso e jornada, e isso nunca foi debatido.”
Desgaste com Ministro Boulos e acusações de instrumentalização política
Além do forte atrito com as empresas do setor, a gestão do projeto de regulamentação pelo governo acabou se tornando um “tiro no pé” para o Planalto. Entregadores acusam o ministro Guilherme Boulos de ter instrumentalizado lideranças trabalhistas para negociar um projeto que, segundo eles, não atendia às demandas da base, com o intuito de obter ganhos eleitorais.
Em fevereiro, o presidente da Atam declarou que Boulos teria utilizado a Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativo (Anea), uma das entidades mais representativas do movimento e participante das negociações, para atender seus próprios interesses eleitorais. “Ele instrumentalizou as lideranças, criou uma narrativa única sobre as reivindicações dentro da bancada e, no final, negociou apenas o INSS, deixando o trabalhador sem direito a nada”, disse.
O motofretista e ativista Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como “Paulo Galo”, que era um aliado histórico de Boulos e uma figura proeminente nas mobilizações da categoria, também rompeu com o ministro e passou a criticá-lo publicamente em redes sociais. Essa ruptura evidencia a profundidade do racha entre parte da base de entregadores e o ministro.
Perspectivas futuras e a dificuldade de reconquistar a confiança da categoria
Na avaliação de Abel Santos, a sequência de iniciativas governamentais, especialmente as linhas de crédito lançadas às vésperas da campanha eleitoral, deixou uma imagem negativa do governo entre os entregadores. Ele considera que essa percepção é difícil de reverter apenas com as medidas atuais.
“Se ele precisar de um voto da categoria para vencer o segundo turno, ele não vai ter”, afirma Abel, demonstrando a gravidade do distanciamento. A falta de avanço em pautas consideradas essenciais, como a melhoria da remuneração e a garantia de direitos trabalhistas, combinada com a percepção de ações eleitoreiras, criou uma barreira de confiança que as novas propostas de crédito parecem incapazes de transpor.
A categoria segue em busca de soluções que abordem a raiz dos seus problemas: a baixa remuneração e a precarização do trabalho. A expectativa é que o governo repense suas estratégias e priorize o diálogo genuíno e a construção de políticas públicas que realmente beneficiem os milhões de trabalhadores por aplicativo no Brasil, antes que seja tarde demais para reconquistar seu apoio.