Esquerda em SC aposta em Gelson Merísio, ex-apoiador de Bolsonaro, para conquistar eleitorado moderado
Em uma manobra estratégica para ampliar sua base eleitoral em Santa Catarina, a frente de esquerda no estado lançou a pré-candidatura ao governo de Gelson Merísio, ex-deputado que migrou do Solidariedade para o PSB. Conhecido por seu histórico na centro-direita e por ter apoiado Jair Bolsonaro em eleições passadas, Merísio agora lidera um palanque que reúne PSB, PT, PDT e PSOL, com o objetivo de sustentar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no estado. A chapa majoritária conta com Ângela Albino (PDT) como vice e Dácio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) como candidatos ao Senado, conforme informações divulgadas pela imprensa local e por veículos especializados em política.
A decisão de lançar Merísio reflete uma estratégia calculada para atrair eleitores mais moderados, um segmento crucial em Santa Catarina, estado com forte inclinação conservadora. A análise política aponta que o perfil de Merísio, com sua trajetória e sua capacidade de diálogo, pode ajudar a equilibrar a disputa em um cenário dominado pela direita. A expectativa é que essa aposta em um nome com maior apelo ao centro possa fragmentar o voto conservador e abrir caminho para um segundo turno mais competitivo para a esquerda.
A inflexão política de Merísio se acentuou a partir de 2022, quando se aproximou do PT e coordenou a campanha de Dácio Lima ao governo. Ele justifica seu deslocamento citando decepção com a gestão de Bolsonaro e a busca por um ambiente de respeito e diálogo. A nova aliança busca não apenas fortalecer a candidatura de Lula, mas também apresentar uma imagem renovada de Santa Catarina, dissociada de radicalismos e intolerância, conforme declarações do próprio pré-candidato.
Gelson Merísio: Do Apoio a Bolsonaro à Liderança da Esquerda Catarinense
Gelson Merísio, natural do oeste catarinense, construiu sua carreira política em bases de centro-direita. Sua trajetória inclui passagens como vereador em Xanxerê, deputado estadual e a presidência da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) por duas vezes. Em 2018, o ex-deputado disputou o governo pelo PSD, chegando ao segundo turno, mas foi derrotado por Carlos Moisés. O ponto de virada em sua carreira ocorreu em 2022, quando se aproximou do PT, coordenando a campanha de Dácio Lima ao governo estadual. Em declarações recentes, Merísio reconheceu seu apoio a Bolsonaro em 2018 como um voto em um momento de “rompimento do tecido político”, mas afirmou ter se decepcionado com a condução da pandemia e a falta de agenda com o estado durante o governo do ex-presidente.
“Quem mudou fui eu. Acho que existe um espaço para diálogo, para conversa e para que haja respeito”, declarou Merísio, explicando seu deslocamento político. Ele também mencionou que a decisão de apoiar Lula em 2022 foi fruto de uma avaliação pragmática do cenário político e de suas experiências pessoais. Ao lançar sua pré-candidatura, Merísio criticou a percepção negativa de Santa Catarina no cenário nacional, associada a episódios de intolerância e radicalização, e declarou o desejo de “recuperar a imagem de um estado acolhedor, de um estado amigo”.
A Estratégia da Esquerda: Conquistar o Eleitor Moderado em Santa Catarina
A escolha de Gelson Merísio como pré-candidato ao governo de Santa Catarina pela frente de esquerda é vista por analistas políticos como uma estratégia calculada para aumentar a competitividade eleitoral. Daniel Pinheiro, analista político e pesquisador da Udesc, aponta que Merísio reúne características que se alinham melhor ao perfil do eleitor catarinense, frequentemente mais moderado. “Santa Catarina demonstrou, nos últimos anos, forte adesão à direita. Nesse contexto, lançar um nome com perfil mais ao centro ajuda a equilibrar a disputa”, afirmou Pinheiro à Gazeta do Povo. Essa tática de buscar nomes com maior apelo ao centro não é inédita e já foi adotada em outros estados pela esquerda, visando ampliar o alcance eleitoral e facilitar o diálogo com diferentes segmentos da sociedade.
Apesar de ser cedo para prever o resultado eleitoral, a candidatura de Merísio pode fragmentar o eleitorado de centro e direita, criando um cenário mais propício para um segundo turno. Essa estratégia é reforçada pelo histórico das eleições de 2022, quando a divisão de votos entre candidaturas de direita e centro contribuiu para que o PT chegasse ao segundo turno no estado. A expectativa é que, conforme a eleição se aproxima e a disputa presidencial polariza o ambiente, votos estratégicos possam se deslocar, beneficiando a centro-esquerda em Santa Catarina.
Pesquisa Revela Cenário Eleitoral e Potencial de Merísio
Uma pesquisa recente divulgada pela Atlas/Intel aponta Gelson Merísio com 13,8% das intenções de voto para o governo de Santa Catarina, atrás de Jorginho Mello (PL) com 49,4% e João Rodrigues (PSD) com 21,4%. Em cenários simulados de segundo turno, a pesquisa indica que Merísio perderia para ambos os adversários. No entanto, a entrada de Merísio na disputa pode embaralhar o xadrez eleitoral, especialmente entre eleitores de centro e direita, potencialmente abrindo caminho para um segundo turno mais disputado. A polarização em nível nacional, com a candidatura à reeleição de Lula, também pode influenciar o comportamento do eleitorado catarinense.
Para o Senado, a pesquisa da AtlasIntel também apresenta um cenário competitivo. Carol de Toni (PL) lidera com 30,7%, enquanto a segunda vaga está indefinida, com Esperidião Amin (PP) a 20,1%, Carlos Bolsonaro (PL) a 18,3% e Dácio Lima (PT) a 13,4%, todos tecnicamente empatados dentro da margem de erro. A montagem da chapa majoritária de esquerda, com a participação direta de Lula na articulação para a disputa pelas duas cadeiras de senadores, demonstra a importância estratégica do estado para o cenário nacional.
O Papel de Dácio Lima e a Concorrência no Senado
A decisão de lançar Dácio Lima como pré-candidato ao Senado, em vez de concorrer novamente ao governo, é uma peça chave na estratégia da esquerda em Santa Catarina. Com um recall de votos do segundo turno de 2022 e tendo ocupado a presidência nacional do Sebrae após indicação de Lula, Lima é considerado um nome forte para disputar uma das vagas ao Senado. A concorrência no campo da direita para as cadeiras senatoriais, com pré-candidaturas de Carol de Toni (PL), Carlos Bolsonaro (PL) e Esperidião Amin (PP), pode criar uma “janela de oportunidade” para Dácio Lima, aumentando a competitividade do petista em um estado tradicionalmente conservador.
O analista Daniel Pinheiro ressalta que a fragmentação de votos na direita, caso novos nomes surjam, pode beneficiar a centro-esquerda. “A entrada de novos nomes pela direita pode criar uma janela de oportunidade. Se isso se confirmar e Dácio Lima avançar, seria um resultado expressivo para a centro-esquerda em um estado tradicionalmente conservador”, analisou. A pesquisa da AtlasIntel, com margem de erro de 3 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, ouviu 1.280 pessoas entre 25 e 30 de março, com registro no TSE nº SC-05257/2026, indicando um cenário de alta competitividade para as duas vagas em disputa.
Análise da Estratégia: Equilíbrio e Fragmentação do Eleitorado
A estratégia da esquerda em Santa Catarina, ao apostar em Gelson Merísio, visa primordialmente alcançar o eleitorado moderado, que pode ser decisivo em um estado com forte identidade conservadora. A análise de Daniel Pinheiro, pesquisador da Udesc, sugere que a escolha de um nome com perfil ao centro é uma tentativa de “equilibrar a disputa”, especialmente diante da predominância da direita nos últimos anos. Essa abordagem não é inédita e tem precedentes em outras disputas eleitorais no Brasil, onde a centro-esquerda buscou ampliar seu alcance através de alianças e candidaturas mais ao centro.
A fragmentação do voto de direita é outro fator estratégico que a campanha de Merísio pretende explorar. Com a possibilidade de múltiplos candidatos conservadores disputando o eleitorado, a chance de um segundo turno se torna mais real. Esse cenário, onde a disputa se estende para além do primeiro turno, é historicamente mais favorável para candidaturas de centro-esquerda em estados conservadores, permitindo a articulação de alianças e a mobilização de eleitores em torno de uma candidatura menos polarizada em nível estadual.
O Impacto da Polarização Nacional nas Eleições Catarinenses
A polarização política em nível nacional, com a disputa presidencial entre Lula e seus oponentes, tende a reverberar nas eleições estaduais, incluindo Santa Catarina. A pesquisa Atlas/Intel sugere que, mesmo com a forte liderança de Jorginho Mello nas intenções de voto, a dinâmica do segundo turno pode ser influenciada por votos estratégicos e pela consolidação de candidaturas de centro. A presença de Merísio no páreo, alinhado com a campanha de Lula, pode intensificar essa polarização em nível estadual, forçando eleitores a se posicionarem e, potencialmente, a reconsiderarem seus votos.
O analista Daniel Pinheiro destaca que “há uma tendência de voto estratégico conforme a eleição se aproxima, especialmente quando a disputa presidencial polariza o ambiente”. Essa dinâmica pode ser crucial para a definição do segundo turno em Santa Catarina, onde a centro-esquerda busca uma brecha para se consolidar. A capacidade de Merísio de atrair eleitores que não se identificam com os extremos do espectro político será fundamental para o sucesso dessa estratégia.
Desafios e Oportunidades para a Frente Democrática em SC
A frente democrática em Santa Catarina enfrenta o desafio de superar um histórico de votação conservadora, mas também vislumbra oportunidades na fragmentação da direita e na polarização nacional. A candidatura de Gelson Merísio representa uma aposta em um perfil mais moderado, buscando atrair eleitores que se sentem desconfortáveis com discursos mais radicais. A articulação com partidos como PT, PSB, PDT e PSOL demonstra a busca por uma união ampla em torno de um projeto comum, com o objetivo de fortalecer a candidatura de Lula e apresentar uma alternativa competitiva ao governo estadual.
O sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de Merísio em consolidar seu eleitorado, atrair votos de centro e, possivelmente, conquistar parte do eleitorado que hoje se inclina para a direita. As pesquisas de intenção de voto, embora iniciais, indicam um cenário de disputa acirrada, onde a fragmentação do voto e a influência da polarização nacional podem ser determinantes. A eleição em Santa Catarina promete ser um termômetro importante para a força da centro-esquerda em estados conservadores.
Metodologia da Pesquisa e Confiança nos Dados
A pesquisa citada, realizada pela Atlas/Intel, ouviu 1.280 pessoas entre os dias 25 e 30 de março, com uma margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos, e um nível de confiança de 95%. O registro no TSE é nº SC-05257/2026. Esses parâmetros metodológicos são importantes para avaliar a confiabilidade dos dados apresentados, que servem como um indicativo do cenário eleitoral em Santa Catarina. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto, o que é uma prática comum e aceita no meio jornalístico e acadêmico.
Os números da pesquisa fornecem uma fotografia do momento eleitoral, mostrando as posições iniciais dos pré-candidatos e as tendências de voto. É fundamental ressaltar que o cenário político é dinâmico e pode sofrer alterações significativas à medida que a campanha avança, com debates, eventos e possíveis novas alianças ou desistências. A análise desses dados, em conjunto com a compreensão das estratégias políticas adotadas pelas campanhas, permite uma melhor avaliação das perspectivas eleitorais em Santa Catarina.