Queda drástica em fusões e aquisições no setor de consumo: Entenda os motivos por trás da retração de 51%
O setor de consumo no Brasil vivenciou uma expressiva queda de 51% no volume de fusões e aquisições (M&A) no primeiro semestre de 2026, comparado ao mesmo período do ano anterior. Foram registradas 48 transações, contra as 98 operações do ano anterior. Essa retração, embora significativa em número, não reflete um colapso no valor total dos negócios, uma vez que um fator excepcional distorceu a comparação inicial. A KPMG, consultoria responsável pelo levantamento, detalha as causas dessa desaceleração, que incluem o cenário de juros elevados, restrições de crédito e incertezas políticas.
A análise da KPMG revela que a aparente queda de 87% no valor dos negócios no primeiro semestre de 2026, em relação a 2025, foi fortemente influenciada pela fusão entre BRF e Marfrig, que criou a MBRF (MBRF3). Essa operação isolada representou a maior parte do valor movimentado pelo setor em 2025, mascarando o desempenho real do mercado.
Ao remover o impacto dessa transação extraordinária, o cenário se altera consideravelmente. O volume financeiro das operações no primeiro semestre de 2026 atingiu cerca de R$ 2,4 bilhões, um aumento em relação aos aproximadamente R$ 2,2 bilhões registrados no mesmo período de 2025, desconsiderando a fusão BRF-Marfrig. As informações foram divulgadas pela consultoria KPMG.
O Efeito Outlier da Fusão BRF-Marfrig e a Nova Fotografia do Mercado
Fernando Fernandes, sócio da KPMG especializado no setor de Consumo, explicou que a fusão entre BRF e Marfrig foi um evento isolado de proporções monumentais. Segundo ele, essa única transação foi responsável por aproximadamente R$ 16,7 bilhões dos R$ 17,6 bilhões movimentados pelo setor no segundo trimestre de 2025. Esse dado, por si só, demonstra o quão distorcida a comparação de valores poderia parecer sem o devido ajuste.
“Essa transação é um outlier. Sozinha, ela respondeu por quase todo o valor negociado no segundo trimestre do ano passado. Quando limpamos esse efeito, a fotografia do setor passa a ser outra”, afirmou Fernandes em entrevista. A implicação prática é que, embora o número de negócios fechados tenha diminuído, os acordos anunciados mantiveram valores relevantes e alinhados com a realidade do segmento de consumo.
Entre as operações de destaque divulgadas em 2026, a KPMG citou a venda da operação brasileira da General Mills para a 3Corações, por cerca de R$ 800 milhões. Outros negócios incluem a compra da Casa de Bolos pela AB Mauri Food, avaliada em aproximadamente R$ 200 milhões, e a aquisição de uma fábrica de farinha de peixe do Grupo Patense pela Gomes da Costa, por R$ 135 milhões. Esses exemplos ilustram transações de porte mais comum no setor.
Juros Altos, Crédito Restrito e o Cenário de Incerteza Eleitoral Pressionam o Consumo
A notável queda no número de transações de M&A no setor de consumo não se resume apenas ao efeito estatístico de um grande negócio. Diversos fatores macroeconômicos e conjunturais têm levado empresas e investidores a adotar uma postura mais cautelosa. O setor de consumo, que abrange desde fabricantes de alimentos e bebidas até varejistas, restaurantes, shoppings, marcas de bens de consumo e empresas de comércio eletrônico, é diretamente impactado pelos gastos das famílias brasileiras.
De acordo com o executivo da KPMG, a combinação de juros elevados, restrição de crédito, pressão sobre o poder de compra das famílias e as incertezas inerentes a um ano eleitoral têm contribuído significativamente para essa retração. Empresas e potenciais investidores preferem aguardar um cenário mais claro antes de fechar novos negócios ou realizar investimentos estratégicos.
“Estamos em um ano de eleição. As pessoas vão segurar as decisões porque estão aguardando uma informação que ainda não existe: vamos para um lado ou vamos para o outro? É natural que haja uma certa retração, tanto para o investidor quanto para aquele que, eventualmente, estava disposto a vender o próprio negócio. Todos adotam uma postura de ‘vamos aguardar’”, explicou Fernandes. Essa cautela se estende tanto a compradores quanto a vendedores, que adiam decisões estratégicas diante da imprevisibilidade do ambiente de negócios.
O Impacto da Renda Familiar Limitada e a Dificuldade de Crescimento do Consumo
A situação do setor de consumo é agravada por um cenário macroeconômico desafiador, onde a renda disponível das famílias tem sido cada vez mais comprometida. Juros altos encarecem o crédito, enquanto a inflação corrói o poder de compra, resultando em uma parcela menor da renda sendo destinada ao consumo discricionário.
Fernandes ressalta a limitação da renda disponível como um dos principais gargalos para o crescimento do setor. “Não tem mágica: o consumo não vai crescer se não houver mais renda. E a renda discricionária que sobra para o consumidor brasileiro é muito pequena porque já está comprometida de alguma maneira. Então, ainda que não seja um cenário de recessão, não deve haver um aumento no consumo e nem uma melhora nos perfis de consumo”, alertou.
Essa dinâmica impacta diretamente as projeções de crescimento e os planos de expansão das empresas. O desafio não reside apenas no tamanho do mercado brasileiro, com seus 200 milhões de consumidores potenciais, mas na capacidade efetiva de gasto desses consumidores. A pergunta crucial é: quanto desses consumidores realmente possui renda disponível para impulsionar o mercado?
Private Equity com Menos Apetite: Juros Elevados Dificultam Retornos Atrativos
O ambiente de negócios atual também tem afetado o apetite de fundos de private equity e venture capital, que historicamente desempenham um papel crucial no mercado de M&A. Das 48 transações registradas no primeiro semestre de 2026, apenas 13 envolveram fundos de investimento, indicando uma participação reduzida desses players.
O sócio da KPMG aponta os juros elevados como um dos principais motivos para essa retração. Com uma taxa de juros na casa dos 15%, torna-se significativamente mais difícil para os fundos gerar retornos atrativos sobre seus investimentos. “Com um juros de 15%, como conseguimos dar um retorno maior? Não há tanto projeto tão bom a ponto de atrair o investidor a fazer o empenho do capital. Há um recuo da atuação dos fundos porque fica muito difícil justificar investimentos de risco nesse ambiente”, explicou Fernandes.
A cautela dos fundos de investimento reflete a deterioração das condições de consumo e a incorporação desses riscos nos planejamentos de longo prazo das empresas. O cenário de juros altos eleva o custo de oportunidade do capital, tornando investimentos em empresas com fluxos de caixa menos previsíveis menos atraentes.
Marasmo Econômico: O Que Esperar do Futuro Próximo para o Setor de Consumo?
A possibilidade de uma recessão econômica no Brasil tem ganhado espaço nas discussões de executivos, investidores e conselhos de administração. No entanto, segundo Fernando Fernandes, o cenário-base que as empresas observam não é necessariamente de retração da atividade econômica, mas sim de um crescimento insuficiente para impulsionar o consumo de forma significativa.
As preocupações com o ambiente macroeconômico, como juros elevados, renda pressionada e desafios fiscais, são constantes. Contudo, a expectativa predominante não é de um colapso econômico, mas sim de um período de baixo crescimento, caracterizado como um “marasmo”.
“Estive, recentemente, em uma reunião de conselho em que um economista apresentou um cenário bastante desafiador para os próximos dez anos. Não era um cenário de catástrofe. A visão era de crescimento baixo, algo próximo de 2% ao ano (…) Crescer 2% ao ano é muito diferente de cair 1%, claro. Mas crescer 2%, com inflação próxima de 6%, significa que sobra pouco espaço para consumo novo. Vamos andar nesse marasmo”, detalhou Fernandes.
A perspectiva, portanto, é de uma continuidade do cenário atual, a menos que ocorram mudanças significativas. “O cenário mais provável é uma certa continuidade do que estamos vendo hoje. Pode acontecer alguma mudança, uma medida que destrave a economia, uma redução mais acelerada dos juros. Mas, se nada disso acontecer, a perspectiva é de continuidade desse ambiente mais desafiador”, concluiu o executivo.
O Impacto dos Ciclos Eleitorais e a Busca por Estabilidade
A proximidade de um ciclo eleitoral adiciona uma camada extra de incerteza ao ambiente de negócios, especialmente para o setor de consumo, que é altamente sensível às expectativas dos consumidores e à estabilidade econômica. A falta de clareza sobre o futuro cenário político e econômico leva a uma postura de “esperar para ver” por parte de empresas e investidores.
A decisão de adiar investimentos e negociações estratégicas durante períodos eleitorais é uma prática comum no mercado. Essa cautela visa mitigar riscos e aguardar a definição de políticas públicas e a direção econômica que o país tomará após as eleições. Para o setor de consumo, onde as margens podem ser apertadas e a demanda depende fortemente da confiança do consumidor, essa prudência se torna ainda mais acentuada.
A KPMG reforça que essa retração não é exclusiva do mercado brasileiro, mas uma tendência observada em diversas economias que enfrentam desafios semelhantes de inflação, juros e incertezas políticas. A recuperação do dinamismo em fusões e aquisições dependerá, em grande parte, da melhora do cenário macroeconômico e da redução das incertezas.
Desafios Estruturais e a Necessidade de Renda Disponível para o Consumo
Além dos fatores conjunturais, o setor de consumo no Brasil enfrenta desafios estruturais que afetam seu potencial de crescimento a longo prazo. A concentração de renda e a baixa parcela do orçamento familiar destinada a bens e serviços não essenciais limitam o alcance de muitas empresas.
A análise da KPMG destaca a importância de se olhar para além do número absoluto de consumidores e focar na capacidade real de gasto. A melhoria do poder de compra das famílias, através de políticas de geração de emprego e renda, é fundamental para destravar o potencial do mercado de consumo.
Sem um aumento significativo na renda disponível, o setor pode permanecer em um ciclo de baixo crescimento, com poucas oportunidades para expansão e consolidação via M&A. A recuperação do dinamismo dependerá de uma combinação de fatores: estabilidade macroeconômica, juros mais baixos, melhora na confiança do consumidor e, crucialmente, um aumento sustentado da renda das famílias brasileiras.
O Futuro das Fusões e Aquisições no Setor de Consumo: Um Cenário de Adaptação
O cenário atual de queda em fusões e aquisições no setor de consumo exige das empresas uma adaptação estratégica. Em vez de buscar grandes consolidações, o foco pode se voltar para aquisições mais pontuais, otimização de portfólio e busca por eficiências operacionais.
A KPMG sugere que, mesmo em um ambiente desafiador, oportunidades podem surgir para empresas bem posicionadas e com capacidade de investimento. A análise de ativos subvalorizados ou a aquisição de tecnologias e expertise podem se tornar estratégias mais relevantes em detrimento de grandes fusões.
A recuperação do mercado de M&A no setor de consumo estará intrinsecamente ligada à evolução do cenário macroeconômico. Uma eventual queda da taxa de juros, a estabilização política e a retomada do crescimento da renda disponível seriam catalisadores importantes para um novo ciclo de negócios. Até lá, a cautela e a adaptação deverão prevalecer.