Gana Lidera Movimento Global por Reparações da Escravidão, Cobrando Justiça da Europa e EUA
O debate sobre o legado da escravidão transatlântica ganhou um novo fôlego em 2023, com nações africanas, notadamente Gana, impulsionando um clamor por reparações formais. A exigência abrange desde pedidos de desculpas e perdão de dívidas até compensações financeiras substanciais por parte de países e instituições que lucraram historicamente com o tráfico de pessoas.
Essa demanda ganhou destaque em março, com a aprovação de uma resolução da ONU que reconhece a escravidão como o “maior crime contra a humanidade”. No entanto, a abstenção das nações europeias e o voto contrário de Estados Unidos e Argentina evidenciam a complexidade e a resistência em torno do tema.
O Reino Unido, um dos principais atores históricos do tráfico, tem sido particularmente resistente a pedidos de reparações, cujos valores estimados podem atingir trilhões de libras. Contudo, essa oposição não arrefeceu o ímpeto de Gana, que se consolidou como a principal voz na luta por justiça restaurativa, conforme informações divulgadas pela BBC.
A Vanguarda de Gana na Luta por Justiça Restaurativa
Gana tem assumido um papel central na articulação global por reparações. Foi o país que apresentou a resolução à ONU e sediou, em junho, uma importante cúpula em sua capital, Acra. O evento reuniu delegados de aproximadamente 80 países, que convergiram na ideia de que a compensação pelo tráfico de escravizados é uma dívida histórica inadiável.
O Ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okuzeto Ablakwa, ressaltou o histórico de liderança pan-africana do país, lembrando sua pioneira conquista da independência na África subsaariana como um símbolo de resistência ao poder imperial. A União Africana, reconhecendo esse protagonismo, confiou a Gana a missão especial de ser um “campeão da justiça restaurativa”.
A forte ligação de Gana com a questão se deve ao fato de que entre 10% e 15% dos cerca de 12 milhões de africanos escravizados foram originários da região que hoje compreende o país. Essa realidade histórica confere a Gana uma perspectiva única e um senso de urgência na busca por responsabilização dos perpetradores.
Propostas de Reparações: Além do Dinheiro
O Ministro Ablakwa delineou um sistema de justiça restaurativa que vai além do mero pagamento financeiro. As propostas incluem o financiamento de bolsas de estudo, capital de risco para jovens empreendedores africanos e o investimento em pesquisas para lidar com problemas de saúde persistentes, que muitos acreditam ter raízes na desnutrição severa e nas condições desumanas impostas pela escravidão.
Embora o ministro enfatize que essas medidas não visam o benefício financeiro direto das lideranças africanas, uma das demandas centrais da cúpula de Acra foi explicitamente o alívio e o cancelamento da dívida externa dos países africanos. Essa proposta busca reverter um ciclo de endividamento que, para muitos, é uma consequência direta do legado colonial e escravagista.
A busca por reparações também abrange a responsabilização de instituições que lucraram com o tráfico. Entre elas, a Igreja Anglicana tem sido alvo de atenção, dada sua histórica participação no sistema escravista.
O Papel da Igreja Anglicana e o Legado da Escravidão
No século XVIII, o braço missionário da Igreja Anglicana administrava plantações e possuía centenas de escravizados, cujos trabalhos financiavam suas atividades missionárias nas Américas e em outros continentes. Além disso, muitos clérigos da igreja possuíam escravizados individualmente, e um relatório recente do fundo patrimonial da instituição revelou investimentos significativos no tráfico, gerando lucros vultosos.
Em julho, a líder da Igreja Anglicana, a Arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, visitou Gana, um de seus primeiros compromissos internacionais. Sua visita ao Castelo de Cape Coast, um dos locais históricos onde escravizados eram mantidos antes da travessia para as Américas, foi marcada por profunda emoção.
Ao percorrer as masmorras e passar pela “porta sem retorno”, Mullally expressou o impacto da experiência: “Senti a magnitude da maldade que o tráfico transatlântico de escravizados representava. É impossível não se comover profundamente com as condições horríveis em que essas pessoas viviam”. Ela reconheceu o envolvimento da Igreja no comércio de escravizados e a necessidade de ação.
Ações e Resistências da Igreja Anglicana
Em resposta ao seu passado, a Igreja Anglicana pediu desculpas pelo seu papel no tráfico transatlântico de escravizados e estabeleceu um fundo de impacto social de US$ 135 milhões (cerca de R$ 694 milhões) para beneficiar comunidades afetadas. No entanto, a criação deste fundo enfrentou resistência interna, assim como a pressão global por reparações.
A arcebispa também refletiu sobre a cumplicidade da Igreja, questionando como a instituição pôde permanecer inerte diante dos horrores da escravidão. Essa reflexão interna busca não apenas reconhecer o passado, mas também pavimentar o caminho para ações concretas e significativas.
Apesar dos passos dados, a comunidade global e as nações africanas continuam a pressionar por medidas mais abrangentes e efetivas, que vão além das desculpas formais e dos fundos de impacto social, buscando uma reparação mais profunda e transformadora.
A Complexidade da Cumplicidade Africana no Tráfico de Escravizados
Um dos principais argumentos contrários aos pedidos de reparações centra-se na participação de alguns africanos na captura e venda de seus próprios compatriotas. Essa narrativa, no entanto, é veementemente rejeitada pelo Ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okuzeto Ablakwa.
Ablakwa classifica essa argumentação como uma “estratégia de dividir para conquistar” e de “criar uma confusão artificial”. Ele sustenta que a estrutura da escravidão foi concebida pelas potências ocidentais, que exploraram habitantes locais para executar seus planos. “Quando as leis, as apólices de seguro e as estruturas financeiras do comércio foram elaboradas, não havia um único africano à mesa de negociações”, afirma.
Ele denuncia e rejeita categoricamente a alegação de que os africanos sejam tão culpados quanto aqueles que orquestraram essa atrocidade. Para Ablakwa, a responsabilidade primária recai sobre os arquitetos europeus do sistema escravista, que se beneficiaram enormemente à custa da desumanização e exploração de milhões de africanos.
Reconhecimento e Pedido de Desculpas de Líderes Tradicionais Africanos
Apesar da postura oficial de Gana, o debate sobre a cumplicidade africana é complexo e multifacetado. Dentro do próprio continente, alguns líderes tradicionais têm optado por um caminho de reconhecimento e pedido de desculpas, buscando a cura através da admissão das falhas do passado.
Um exemplo notável é o Rei Tackie Teiko Tsuru II, líder do povo Ga em Gana. Ele proferiu um pedido público de desculpas pelo envolvimento de seus ancestrais no comércio de escravizados, reconhecendo que “nossos ancestrais também participaram como agentes desse comércio”. O povo Ga atuou como intermediário, negociando africanos escravizados em troca de produtos europeus.
O rei estendeu seu pedido de desculpas em nome de todas as autoridades tradicionais e ancestrais africanos que desempenharam um papel na escravização de seus irmãos e irmãs. Ele acredita que admitir a culpa é um passo essencial para a cura e para avançar, fortalecendo a posição moral da África e estabelecendo um precedente para o futuro.
A Iniciativa “Year of Return” e o Turismo de Reparação
Gana tem sido pioneira em outras iniciativas para lidar com o legado da escravidão, como a campanha “Year of Return” (Ano do Retorno), que convida a diáspora africana, especialmente afro-americanos, a visitar o continente. A proposta inicial era unir pessoas através de uma história compartilhada e focada em “reparação”.
No entanto, o doutorando ganês Yaw Asare, que trabalhou no Gabinete da Presidência da Diáspora de Gana, aponta que a iniciativa, inicialmente uma “experiência bela e profunda, desprovida de motivações capitalistas”, gradualmente mudou seu foco. A Autoridade de Turismo de Gana aderiu à campanha para impulsionar o turismo, transformando a “reparação” em uma meta de cumprimento de cotas turísticas.
Asare critica essa comercialização, argumentando que a iniciativa passou a encarar o retorno da diáspora como um meio de obter dinheiro estrangeiro, o que eleva preços e impacta negativamente as economias locais. Ele observa que os ganenses locais se sentem marginalizados economicamente e questiona por que a diáspora, em busca de cura e conexão histórica, é obrigada a pagar as mesmas taxas de entrada que turistas europeus em locais de memória tão sensíveis.
Reparação Genuína: Conexão Humana e Cura
Para Yaw Asare, a verdadeira justiça restaurativa deve priorizar a conexão humana e a cura, em detrimento de transações financeiras. Ele argumenta que a comercialização excessiva da iniciativa “Year of Return” ofuscou o trabalho psicológico urgentemente necessário para moradores locais e membros da diáspora.
Asare descreve como ansiedades seculares, como o medo de ser sequestrado, ainda moldam a vida em bairros como Jamestown, em Acra, onde as pessoas vivem próximas umas das outras por receio. Ele compara essa situação a um “medo gravado na própria geografia e psicologia de Gana”, resultado direto do trauma histórico da escravidão.
A visão de Asare para reparações reais envolve “remover o curativo e olhar para a ferida, a ferida aberta que está ali”, para então “ver como podemos tratá-la, cuidar dela e curá-la”. Essa perspectiva enfatiza a necessidade de um processo profundo de cura emocional e psicológica, em vez de focar apenas em compensações materiais, fortalecendo a unidade e a identidade africana.