Ansiedade sobre fertilidade masculina impulsiona mercado de conselhos sem base científica
Um número crescente de homens tem demonstrado preocupação com a própria fertilidade, impulsionados por discussões em redes sociais e pela queda nas taxas de natalidade globais. Essa ansiedade, no entanto, tem sido explorada por influenciadores que promovem práticas e produtos sem comprovação científica, como o uso de gelo nos testículos e a doação de sangue para “filtrar” microplásticos.
Apesar de haver uma base real na preocupação com fatores que afetam a qualidade do esperma, como poluentes ambientais e o calor excessivo, as soluções oferecidas por figuras populares na internet muitas vezes carecem de respaldo médico. Especialistas alertam que essas abordagens podem não apenas ser ineficazes, mas também apresentar riscos à saúde.
O fenômeno se intensifica em um contexto de debates sobre a queda na contagem de espermatozoides e a saúde reprodutiva masculina, com dados científicos que apontam para um declínio, embora a magnitude e as causas exatas ainda sejam objeto de estudo. Conforme informações divulgadas pela BBC.
O fenômeno da “melhora da fertilidade” nas redes sociais
Simon, um jovem de 28 anos, exemplifica essa tendência ao incorporar em sua rotina diária o uso de bolsas de gelo nos testículos, acreditando que isso ajuda a preservar uma alta contagem de espermatozoides. Ele também adota outras práticas, como tomar sol, exercitar-se, beber água filtrada e usar cuecas de algodão, tudo como parte de um regime voltado para a fertilidade, mesmo sem evidências médicas concretas de sua eficácia.
Sua preocupação não é infundada, pois fatores como poluentes ambientais e o aumento da temperatura escrotal podem, de fato, impactar a qualidade do esperma. Contudo, especialistas apontam que as medidas de Simon provavelmente não trarão um benefício significativo para sua fertilidade, embora o exercício físico contribua para sua saúde geral. A preocupação de Simon se estende à saúde endócrina, um medo sem base científica, já que baixa contagem de espermatozoides não causa problemas nesse sistema, embora ambas as condições possam coexistir.
O interesse de Simon pelo tema foi despertado por influenciadores em plataformas como TikTok e Instagram, onde hashtags relacionadas à fertilidade masculina acumulam milhões de visualizações. Ele nunca realizou um exame de sêmen, mas sente-se assustado com a possibilidade de problemas de fertilidade e, por isso, “escolhe proteger sua fertilidade”.
Influenciadores e a indústria da ansiedade de fertilidade
O influenciador Bryan Johnson, conhecido por seus experimentos de longevidade, é uma das figuras que inspiraram Simon. Johnson alega ter uma contagem de espermatozoides quatro vezes maior que a média, baseando-se em exames laboratoriais. Ele promove protocolos controversos, como a combinação de sauna e bolsas de gelo para aumentar testosterona e contagem de espermatozoides, que Simon tem seguido.
O conteúdo de Johnson, seguido por mais de seis milhões de pessoas, direciona seus seguidores para seu site, onde vende suplementos. Ele não está sozinho nesse nicho. Outros influenciadores promovem protocolos sem respaldo científico, incluindo suplementos específicos, terapia com luz vermelha e até mesmo a doação de sangue para remover microplásticos do corpo, uma alegação sem fundamento.
O professor Suks Minhas, especialista em fertilidade no Reino Unido, observa que, embora seja positivo dar mais visibilidade à infertilidade masculina, há um risco de alimentar preocupações desnecessárias. Ele aponta para o surgimento de uma indústria de influenciadores e produtos que lucram com essa ansiedade.
Queda nas taxas de natalidade e o debate sobre a fertilidade masculina
Essas práticas e preocupações surgem em meio a discussões globais sobre a queda nas taxas de natalidade. A taxa de fecundidade mundial caiu drasticamente, e 106 países já estão abaixo da taxa de reposição populacional, segundo projeções da ONU. Robert F. Kennedy Jr., Secretário de Saúde dos EUA, chegou a falar em uma “crise de fertilidade”, afirmando que a contagem de espermatozoides em adolescentes hoje é a metade da de 1970.
Análises científicas em larga escala confirmam uma queda significativa na contagem e qualidade dos espermatozoides desde a década de 1970. No entanto, a comparação direta entre gerações é complexa, e alguns estudos mais recentes, publicados em 2024 e 2025, em populações específicas nos EUA e Dinamarca, não encontraram evidências dessa queda acentuada, defendendo a necessidade de mais pesquisas.
Apesar da incerteza científica sobre a magnitude e as causas exatas do declínio, a percepção de uma crise de fertilidade é amplificada por influenciadores e figuras públicas. O relatório *State of World Population 2025* da ONU aponta que razões financeiras, instabilidade ambiental e política são fatores significativos que impedem as pessoas de ter o número de filhos desejado, evidenciando que a queda nas taxas de natalidade é multifatorial e não se resume apenas à capacidade reprodutiva masculina.
A ascensão de soluções sem comprovação científica
Enquanto o debate científico sobre a fertilidade masculina continua, o vácuo de informação confiável tem sido preenchido por influenciadores que comercializam soluções sem comprovação. O naturopata Lucas, por exemplo, alerta para uma “epidemia mundial” de redução da fertilidade, mas suas afirmações, como a de que os homens serão inférteis em 33 anos, carecem de embasamento científico.
Lucas vende cursos online, consultorias e suplementos voltados para o aumento da testosterona e melhora da fertilidade. Ele recomenda o uso de bolsas de gelo nos testículos, alegando que clientes relataram sucesso na gravidez de suas parceiras após adotar essa prática. Embora reconheça que a pesquisa é preliminar, ele considera a prática uma “intervenção promissora” que vale a pena tentar.
As orientações do NHS, sistema de saúde do Reino Unido, sugerem que roupas íntimas muito apertadas podem elevar a temperatura testicular, afetando a qualidade do esperma. Lucas também promove mudanças no estilo de vida, como alimentação saudável, sono e exercícios físicos, que são, de fato, medidas com sólida base científica, recomendadas por especialistas como o professor Channa Jayasena.
Perigos dos “stacks de fertilidade” e a terapia de reposição de testosterona
Paralelamente ao aumento dos conselhos de influenciadores, cresce o uso de medicamentos para aumentar os níveis de testosterona entre os homens. No entanto, o uso de esteroides anabolizantes e a terapia de reposição de testosterona (TRT) podem, ironicamente, prejudicar a fertilidade masculina.
Em uma tentativa de reverter esses danos, influenciadores promovem os chamados “stacks”, combinações de medicamentos como HCG e HMG, frequentemente vendidos em seus próprios sites. Embora esses medicamentos sejam prescritos para condições médicas específicas, seu uso sem orientação profissional para “reativar” a fertilidade é extremamente perigoso, podendo causar efeitos colaterais graves, como coágulos sanguíneos e ginecomastia (crescimento das mamas), com sequelas permanentes se não tratados rapidamente.
A BBC conversou com sete homens que estavam utilizando esses “stacks” para tentar recuperar a capacidade reprodutiva após TRT. Muitos, buscando reverter os efeitos negativos de altas doses de testosterona e esteroides anabolizantes, recorreram a orientações encontradas em fóruns online e no YouTube, sem saber dos riscos. Jamal, um desses homens, buscou ajuda profissional após falhar com os “stacks” e descobriu o perigo de usá-los sem acompanhamento médico.
A necessidade de informação confiável e acompanhamento médico
O professor Channa Jayasena, endocrinologista especializado em reprodução, destaca que, embora o aumento da conscientização sobre a fertilidade masculina seja positivo, ele também criou um vácuo de informação confiável. Homens como Jamal acabam recorrendo a conselhos de influenciadores por falta de acesso fácil a especialistas, o que pode levar a desinformação ou, pior, a práticas prejudiciais à saúde.
Jayasena enfatiza que a reversão de fatores como tabagismo, obesidade e sedentarismo são as medidas mais eficazes para melhorar a fertilidade. Ele aconselha que, se houver fatores reversíveis, como parar de fumar, perder peso e aumentar a atividade física, essas são, de longe, as melhores medidas que alguém pode adotar.
O endocrinologista também ressalta que Jamal, ao interromper os “stacks” e seguir orientação médica, está vendo seus níveis naturais de testosterona melhorarem, embora o hormônio estimulador da produção de espermatozoides ainda esteja baixo. Ele e seu médico estão otimistas com a recuperação. A mensagem central é clara: a busca por soluções para a fertilidade masculina deve ser guiada por evidências científicas e acompanhamento profissional, e não por promessas de influenciadores que podem comprometer a saúde.