Tragédia no Monte Dukono: Guia em choque narra erupção fatal na Indonésia

Um guia turístico indonésio, Reza Selang, compartilhou o terror vivido durante uma erupção inesperada do vulcão Monte Dukono, na Indonésia, na semana passada. O evento catastrófico resultou na morte de três pessoas, incluindo turistas de Singapura e uma moradora local.

Selang escapou por pouco de ser atingido por rochas expelidas da cratera, mas viu amigos e clientes serem vitimados pela força da natureza. Atualmente, ele se diz “dilacerado” e incapaz de processar a magnitude da tragédia que testemunhou de perto.

As autoridades locais confirmaram a identidade das vítimas fatais e iniciaram uma investigação sobre as circunstâncias que levaram o grupo a escalar o vulcão, apesar de alertas e proibições prévias. As informações são baseadas em relatos divulgados pela BBC.

Alerta Ignorado e a Fúria do Dukono

O grupo de 20 trilheiros, composto por cidadãos de Singapura e indonésios, decidiu ascender ao cume do Monte Dukono mesmo com avisos prévios contra a atividade. O vulcão, localizado na ilha de Halmahera, em Maluku do Norte, já havia entrado em erupção mais de 200 vezes desde o final de março, motivando a proibição de escalada e o fechamento de áreas próximas à cratera, a 4 km de distância, desde 17 de abril.

Apesar das restrições, que incluíam avisos em redes sociais e banners nas trilhas, Reza Selang alega não ter conhecimento da proibição específica no momento da escalada. Ele também afirmou que os guias locais que o auxiliam regularmente não o informaram sobre a proibição vigente.

Um Dia Que Começou Tranquilo e Terminou em Caos

Reza Selang, proprietário de uma empresa de turismo na região, foi contatado no ano passado por Timothy Heng, um organizador de expedições de aventura de Singapura, para guiar um grupo pelo Dukono e outras montanhas da área. Na tarde de quinta-feira da semana passada, quando a escalada começou, o guia relatou que não havia “sinais de atividade vulcânica”.

Na manhã seguinte, o vulcão permanecia calmo quando o grupo atingiu o cume. Utilizando um drone para inspecionar a cratera, Selang não detectou nenhuma atividade visível, como fumaça ou sinais de erupção. Ele permitiu que parte do grupo, incluindo Timothy Heng, se aproximasse da cratera sob a condição de um retorno rápido.

A Erupção Repentina e o Desespero pela Sobrevivência

Por volta das 7h40 da manhã, horário local, enquanto Reza monitorava o grupo com o drone, a montanha entrou em erupção. Em um intervalo de poucos segundos, ocorreram duas explosões. A primeira liberou apenas fumaça, mas a segunda, devastadora, arremessou material vulcânico em direção aos trilheiros.

O grupo se dispersou em pânico, tentando fugir montanha abaixo. Através da câmera do drone, Selang avistou Shahin Muhrez bin Abdul Hamid, um dos turistas de Singapura, caído perto da cratera. Ao recuperar o drone e ir em socorro de Shahin, Heng também retornou para ajudar.

Sacrifício Heroico e o Peso da Perda

Enquanto arrastavam Shahin para longe, rochas choviam ao redor deles. De repente, uma rocha de aproximadamente 2 metros de largura foi expelida da cratera e avançou em direção aos três. Em um ato de bravura, Timothy Heng se lançou sobre Shahin para protegê-lo. A rocha atingiu os dois, causando a morte instantânea.

Reza Selang ficou paralisado pelo choque por cerca de um minuto antes de conseguir fugir montanha abaixo. A cena de horror e o peso da responsabilidade o assombrariam para sempre.

Operação de Resgate e a Identificação das Vítimas

Após conseguir se salvar, Reza alertou as autoridades, que imediatamente organizaram uma operação de busca e resgate. As buscas se concentraram nos dois turistas singapurianos e em Angel Krishela Pradita, uma indonésia que também estava desaparecida. Reza e outro membro da equipe auxiliaram nos trabalhos de resgate.

No sábado, o corpo de Angel Krishela Pradita foi encontrado próximo ao cume. No domingo, os restos mortais de Timothy Heng e Shahin Muhrez foram recuperados em meio a uma espessa camada de cinzas vulcânicas, sob uma grande rocha, evidenciando a violência da erupção.

Investigação e Possível Negligência

Em resposta à tragédia, as autoridades indonésias fecharam permanentemente todas as entradas do Monte Dukono, advertindo sobre sanções severas para quem desobedecer à proibição de escalada. Uma investigação foi iniciada para apurar as causas do incidente, com indícios de “possível negligência por parte de operadores turísticos ou indivíduos”.

Reza Selang foi interrogado pela polícia local e entregou as imagens do drone como prova. A polícia de North Halmahera declarou que a expedição é “fortemente suspeita de violar os regulamentos” e que duas pessoas associadas à empresa de turismo de Selang estão sendo investigadas. Embora considerados testemunhas no momento, o papel de cada indivíduo na organização da escalada perigosa está sob escrutínio.

O Peso da Culpa e o Sistema de Alerta Vulcânico

Reza Selang expressou sua disposição em aceitar as consequências legais, mas seu principal tormento é a culpa e o arrependimento. Ele lamenta a decisão de aceitar o trabalho e questiona o “e se” que o assombra diariamente. “Sinto que quero ir [para Singapura] e me ajoelhar aos pés dos pais das vítimas. Eu quero me desculpar”, declarou, sentindo-se profundamente responsável pela perda das vidas.

Apesar de insistir que desconhecia a proibição, Selang admitiu saber que o Dukono estava classificado como nível 2 no sistema de alerta de vulcões da Indonésia. Este nível indica um aumento observável na atividade vulcânica e a ameaça de erupção, com restrições de acesso a certas áreas. Ele justificou a escalada de nível 2 citando que outros vulcões com o mesmo nível, como o Monte Rinjani, ainda permitem atividades de caminhada, mesmo com proibições próximas às crateras.

O Contexto Geológico da Indonésia e Lições do Passado

A Indonésia, localizada no chamado “Círculo de Fogo do Pacífico”, é uma região geologicamente ativa, sujeita a frequentes terremotos e atividades vulcânicas devido ao encontro de placas tectônicas. Essa instabilidade geológica exige vigilância constante e respeito às normas de segurança.

O caso do Monte Dukono evoca a memória de outras tragédias, como a morte da brasileira Juliana Marins, de 26 anos, em 2023, durante uma trilha no Monte Rinjani, que também possui status de nível 2. Juliana caiu em um desfiladeiro, e seu corpo foi encontrado após quatro dias de buscas. Esses eventos ressaltam a importância de seguir rigorosamente os alertas e regulamentos em áreas de risco vulcânico.

O Futuro e a Busca por Redenção

Enquanto aguarda o desfecho das investigações, Reza Selang lida com o trauma e a culpa. A experiência no Monte Dukono o marcou profundamente, e ele busca uma forma de lidar com a dor e oferecer algum tipo de reparação às famílias enlutadas. A tragédia serve como um doloroso lembrete dos perigos inerentes à exploração de ambientes naturais voláteis e da necessidade de priorizar a segurança em todas as circunstâncias.

A investigação policial continua, e as autoridades enfatizam que não haverá tolerância para a negligência que resulte na perda de vidas. A esperança é que este evento trágico sirva como um ponto de virada para reforçar as medidas de segurança e conscientização em atividades de turismo de aventura na Indonésia e em outras regiões vulcanicamente ativas.

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