IBGE lança mapa-múndi “inclusivo” em projeção Equal Earth, gerando debate internacional

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a destacar em sua loja virtual a projeção Equal Earth, um novo modelo de mapa-múndi que tem sido promovido como mais “inclusivo” e “equilibrado” pela Organização das Nações Unidas (ONU). A iniciativa do órgão brasileiro de adotar e divulgar esta representação do planeta dialoga com a busca por uma cartografia que reflita “mais equilíbrio e justiça”, segundo afirmações da diretoria do instituto. A decisão, no entanto, já gerou controvérsia, com os Estados Unidos votando contra a adoção da projeção na ONU, alegando que ela “promove uma agenda ideológica”.

Esta nova abordagem cartográfica substitui a tradicional projeção Mercator, utilizada por séculos e que tem sido criticada por distorcer as proporções dos continentes, especialmente ao superestimar o tamanho de países localizados em altas latitudes, como os europeus e norte-americanos, em detrimento de nações africanas e sul-americanas. A escolha do IBGE em aderir à Equal Earth, especialmente em comemoração à Independência do Brasil, reforça a tendência de buscar representações geográficas que considerem uma perspectiva global mais equitativa.

A projeção Equal Earth foi aprovada em votação na ONU com uma expressiva maioria de 164 votos favoráveis e apenas seis abstenções. A oposição solitária dos Estados Unidos destaca o embate de visões sobre como o mundo deve ser representado cartograficamente, com implicações que vão além da estética, tocando em questões de percepção geopolítica e representatividade. As informações foram divulgadas pelo IBGE e repercutidas pela Agência Brasil.

O que é a Projeção Equal Earth e por que ela é considerada “inclusiva”?

A projeção Equal Earth, desenvolvida pelos cientistas cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny, tem como principal objetivo apresentar uma representação mais fiel das áreas relativas dos países e continentes. Ao contrário da projeção Mercator, que prioriza a conformidade das formas e a facilidade de navegação em rotas de navegação, a Equal Earth foca na equivalência de área. Isso significa que a área de cada país e continente é representada de forma proporcional à sua área real na superfície terrestre.

Essa característica é fundamental para a percepção de tamanho e importância relativa dos territórios. Na projeção Mercator, por exemplo, a Groenlândia aparece com uma área similar à da África, quando na realidade o continente africano é cerca de 14 vezes maior. A Equal Earth corrige essa distorção, mostrando a África em sua dimensão real em comparação com outros continentes. Essa representação mais fiel contribui para uma visão mais equilibrada da geografia mundial, onde países tradicionalmente representados de forma menor podem ter sua dimensão real reconhecida.

A diretora de Geociências do IBGE, Maria do Carmo Bueno, destacou que a adoção da Equal Earth “dialoga com demandas sociais por mais equilíbrio e justiça na forma de mapear o nosso planeta”. Essa declaração sublinha a intenção de que a cartografia não seja apenas uma ferramenta técnica, mas também um reflexo de valores sociais e de uma busca por maior representatividade e reconhecimento das diversas partes do mundo.

A Projeção Mercator: um padrão histórico e suas críticas

A projeção Mercator foi criada em 1569 pelo cartógrafo Gerhard Mercator e rapidamente se tornou o padrão para mapas náuticos devido à sua propriedade de representar linhas de rumo constante como segmentos retos. Essa característica facilitava a navegação, pois um capitão poderia traçar uma linha reta em seu mapa para seguir um curso específico. No entanto, a projeção Mercator introduz distorções significativas nas áreas e nas distâncias à medida que se afasta do equador.

Quanto mais distante do equador um território se encontra, maior é a sua distorção em termos de área na projeção Mercator. Isso resulta em países e continentes localizados em altas latitudes, como Canadá, Rússia e países nórdicos, parecendo desproporcionalmente grandes em comparação com regiões equatoriais e tropicais, como a América do Sul e a África. Essa distorção visual tem implicações culturais e geopolíticas, podendo influenciar a percepção da importância e do tamanho dos diferentes países no cenário mundial.

Críticos argumentam que a projeção Mercator pode perpetuar uma visão eurocêntrica ou norte-cêntrica do mundo, onde as nações mais desenvolvidas e localizadas em latitudes mais altas ocupam uma porção visualmente maior do mapa. A substituição ou a coexistência com projeções como a Equal Earth buscam desafiar essa percepção histórica e promover uma representação mais democrática e precisa do planeta.

A controvérsia na ONU: “agenda ideológica” versus “equilíbrio”

A decisão da ONU de apoiar a projeção Equal Earth foi recebida com resistência por parte dos Estados Unidos, que votaram contra a sua adoção. A justificativa apresentada pela delegação americana foi que o novo modelo “promove uma agenda ideológica”. Essa alegação sugere que os EUA veem a mudança de representação cartográfica não apenas como uma questão técnica, mas como uma tomada de posição política.

A interpretação americana de “agenda ideológica” pode estar ligada à percepção de que a Equal Earth, ao enfatizar a equivalência de área e desfavorecer a proeminência visual de certas regiões, estaria promovendo uma visão de mundo que contraria interesses nacionais ou uma ordem geopolítica estabelecida. Por outro lado, defensores da projeção a veem como um avanço em direção a uma representação mais justa e menos enviesada do planeta, alinhada com os princípios de igualdade e diversidade promovidos pela ONU.

A diretora de Geociências do IBGE, Maria do Carmo Bueno, refutou implicitamente essa visão ao afirmar que a adoção da projeção “dialoga com a busca por mais equilíbrio e justiça”, indicando que o objetivo é a precisão e a equidade, e não a promoção de uma ideologia específica. A divergência entre o IBGE e a posição americana evidencia um debate global sobre a neutralidade da cartografia e o seu papel na formação da percepção mundial.

O Brasil no centro do mapa: uma nova perspectiva

O IBGE, ao disponibilizar mapas na projeção Equal Earth, optou por apresentar uma série de representações com o Brasil posicionado centralmente. Tradicionalmente, muitos mapas-múndi colocam o Meridiano de Greenwich como referência central, posicionando a Europa e a África em destaque. A centralização do Brasil em alguns dos novos mapas divulgados pelo instituto pode ser interpretada como uma forma de valorizar a perspectiva sul-americana e diminuir a ênfase em representações eurocêntricas.

Essa escolha de centralização não é nova para o IBGE. O instituto já vinha, em administrações anteriores, dando destaque em seu site a representações em que o Hemisfério Sul aparece na parte superior do mapa, desafiando a convenção de que o Norte deve estar sempre em cima. Essas iniciativas visam a desconstruir noções geográficas hierárquicas e a promover uma visão mais democrática do espaço terrestre, onde diferentes regiões podem reivindicar sua centralidade e importância.

A disponibilidade desses mapas, especialmente a partir da comemoração da Independência do Brasil, pode ser vista como um ato simbólico de afirmação da identidade nacional e de uma projeção de país no cenário global. Ao colocar o Brasil no centro, o IBGE convida a uma reflexão sobre a relação do país com o mundo e a forma como ele é percebido e se auto-representa.

O impacto da “ideologia” na cartografia: o caso do IBGE

A discussão sobre a “ideologia” na cartografia não é nova e ganhou contornos específicos no Brasil durante a gestão do economista Fá bio Pochmann no IBGE. Conforme mencionado na fonte, o instituto, sob sua administração, foi marcado por um “caráter profundamente ideológico”, o que teria levado o órgão a uma “pior crise de sua trajetória”. Essa referência histórica sugere que o debate sobre a neutralidade e o viés político em instituições públicas de pesquisa, como o IBGE, é um tema sensível.

Neste contexto, a crítica dos EUA à projeção Equal Earth como “ideológica” pode ser vista sob duas óticas. Por um lado, pode ser uma tentativa de deslegitimar a projeção e a sua adoção por órgãos internacionais, associando-a a uma agenda política específica que os EUA não endossam. Por outro lado, pode ser um reflexo da própria percepção americana sobre o que constitui uma representação “neutra” ou “objetiva” de um mapa, uma percepção que pode ser moldada por seus próprios interesses e visões de mundo.

A diretora do IBGE, ao defender a adoção da Equal Earth como uma ferramenta que dialoga com “equilíbrio e justiça”, posiciona o instituto na vanguarda de uma cartografia que busca ser mais inclusiva e representativa. A forma como o IBGE gerencia essa nova projeção e como o debate internacional se desenvolve pode definir novos padrões para a representação geográfica no século XXI, afastando-se de convenções históricas que podem perpetuar desequilíbrios.

Por que a representação do mapa importa para a percepção global?

A forma como o mundo é mapeado tem um impacto significativo na maneira como as pessoas percebem a geografia, a geopolítica e a importância relativa das diferentes regiões. Mapas não são meros desenhos; são ferramentas de interpretação e comunicação que moldam nossa compreensão do espaço.

A projeção Mercator, por exemplo, contribuiu para a ideia de que o Hemisfério Norte é o “centro” do mundo, com países como os Estados Unidos e a Europa ocupando posições de destaque visual. Essa representação pode influenciar a percepção de poder, desenvolvimento e importância, mesmo que inconscientemente. Ao apresentar o Hemisfério Sul de forma distorcida e menor, a Mercator pode, inadvertidamente, reforçar noções de subdesenvolvimento ou menor relevância para essas regiões.

A projeção Equal Earth, ao corrigir essas distorções e apresentar áreas mais proporcionais, busca oferecer uma visão mais igualitária do planeta. Isso pode encorajar uma reavaliação da importância de países e continentes que historicamente foram sub-representados visualmente. A iniciativa do IBGE em adotar e destacar essa projeção alinha-se com um movimento global em direção a uma cartografia que reflita uma compreensão mais complexa e multifacetada do mundo, onde a diversidade e a igualdade territorial são valorizadas.

O futuro da cartografia: entre a precisão e a percepção

A adoção da projeção Equal Earth pelo IBGE e seu reconhecimento pela ONU marcam um passo importante na evolução da cartografia. O debate gerado pela resistência dos EUA evidencia que a escolha de uma projeção cartográfica pode transcender a mera técnica, tornando-se um campo de disputa por narrativas e percepções globais.

Enquanto a projeção Mercator continuará a ter seu valor para aplicações específicas, como a navegação, a busca por projeções como a Equal Earth reflete uma demanda crescente por mapas que sejam mais precisos em termos de área e que promovam uma representação mais equitativa do globo. Essa tendência sugere um futuro onde a cartografia se torna cada vez mais consciente de seu papel na formação da opinião pública e na promoção de uma visão de mundo mais inclusiva.

O IBGE, ao posicionar-se a favor de projeções como a Equal Earth, reafirma seu compromisso com a ciência geográfica e com a responsabilidade social de oferecer ferramentas que permitam uma compreensão mais justa e equilibrada do planeta. A forma como essa transição se consolidará e como outras nações reagirão ao debate definirá o próximo capítulo na história da representação cartográfica mundial.

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