Irã Condena Mulheres à Morte em Meio a Intensificação de Protestos e Repressão
O regime islâmico do Irã impôs sentenças de morte a duas mulheres acusadas de participação em protestos que eclodiram no final de 2025 e ganharam força em janeiro deste ano, marcando um novo capítulo na repressão às manifestações contra a ditadura. As condenações ocorreram em processos separados relacionados a eventos na região de Isfahan, um dos epicentros da mobilização nacional, de acordo com organizações de direitos humanos.
Uma das mulheres sentenciadas é Taraneh Rahimi, de 20 anos, que recebeu a pena capital junto com nove homens por episódios ocorridos em uma praça de Isfahan, onde houve mortes, incluindo a de um membro das forças de segurança. A outra condenada é Leila Abolhasani, de 43 anos, mãe de duas adolescentes, acusada de participar do incêndio de um estabelecimento comercial durante as manifestações.
Essas condenações ocorrem em um contexto de escalada de execuções ligadas aos protestos, com pelo menos 29 homens já executados neste ano por acusações relacionadas às manifestações. Até o momento, nenhuma mulher havia sido executada especificamente por sua participação nesses atos, o que torna as sentenças de Rahimi e Abolhasani particularmente preocupantes, segundo a organização Iran Human Rights (IHR).
O Contexto dos Protestos e a Repressão Governamental
As manifestações que abalaram o Irã começaram no final de 2025, impulsionadas pela deterioração econômica e pelo aumento do custo de vida. Contudo, rapidamente evoluíram para críticas diretas ao regime islâmico, questionando sua legitimidade e a estrutura de poder. Em resposta, as forças de segurança iranianas adotaram uma postura de repressão severa, com prisões em massa e o uso de força letal contra os manifestantes, conforme denunciado por organizações de direitos humanos sediadas fora do país.
A intensidade e a abrangência dos protestos, que envolveram diversas cidades e setores da sociedade, expuseram um descontentamento generalizado com as políticas governamentais e a falta de liberdades. A reação do regime, marcada pela violência e pela judicialização dos participantes, sinalizou a determinação em sufocar qualquer forma de oposição.
Taraneh Rahimi e a Acusação em Isfahan
Taraneh Rahimi, uma jovem de 20 anos, foi condenada à morte em um processo que envolveu nove homens, todos acusados por eventos ocorridos em uma praça central de Isfahan. Segundo informações da organização Hengaw e da Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos Estados Unidos, os incidentes resultaram na morte de duas pessoas, incluindo um integrante das forças de segurança. A gravidade das acusações, que podem incluir “inimigo de Deus” (moharebeh), é frequentemente aplicada em casos de protestos considerados de alta periculosidade pelo regime.
A HRANA também relatou que outros acusados no mesmo processo receberam penas severas, chegando a 36 anos de prisão, incluindo Romina, a irmã de Taraneh. Uma das principais reclamações levantadas pela defesa é a falta de acesso a partes cruciais do processo e a alegação de que os advogados tiveram tempo insuficiente para analisar as provas apresentadas pela acusação. Essa dificuldade no acesso à defesa é um ponto recorrente em julgamentos relacionados a protestos no Irã.
Leila Abolhasani: Incêndio e a Acusação de “Guerra Contra Deus”
A segunda mulher condenada, Leila Abolhasani, de 43 anos e mãe de duas adolescentes, foi sentenciada por um tribunal de Isfahan sob a acusação de participação no incêndio de um estabelecimento comercial durante os protestos. Relatos de familiares, divulgados pela HRANA e pelo observatório jurídico Dadban, negam a participação direta de Abolhasani no ato de vandalismo, afirmando que ela estava no local apenas para filmar o ocorrido quando foi detida.
Apesar das alegações de sua família, a Justiça iraniana a condenou pelo crime de “guerra contra Deus” (efsad-e fel-arz), uma acusação grave prevista na legislação do país, que pode acarretar a pena de morte. O caso de Leila Abolhasani foi encaminhado à Suprema Corte do Irã para revisão, e ela está detida há mais de sete meses. A sua execução poderá ocorrer caso a sentença seja mantida pelo tribunal superior, conforme noticiado pelo portal Iran International.
Escalada de Execuções e o Papel da Pena de Morte
As condenações de Rahimi e Abolhasani ocorrem em um momento de notável escalada nas execuções relacionadas aos protestos. A organização Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, informou que ao menos 29 homens foram executados neste ano por acusações derivadas das manifestações. Este número sublinha a severidade com que o regime iraniano tem lidado com a dissidência, utilizando a pena capital como um instrumento de intimidação e controle.
O uso da pena de morte pelo regime iraniano contra opositores tem sido amplamente denunciado por organizações internacionais de direitos humanos. Segundo o Abdorrahman Boroumand Center, uma ONG com sede nos Estados Unidos, aproximadamente 950 pessoas já foram executadas no país desde o início de 2026, em um indicativo da contínua aplicação de sentenças capitais em diversas esferas, não apenas ligadas aos protestos recentes.
Aceleração de Julgamentos e Confissões Sob Coerção
O Center for Human Rights in Iran (CHRI) destacou em junho que presos políticos e condenados à morte em várias prisões do país iniciaram uma campanha semanal de greves de fome como forma de protesto contra as execuções. A entidade aponta que o regime iraniano acelerou processos judiciais e execuções após os protestos de janeiro, especialmente durante o período de tensões com os Estados Unidos e Israel. Esses processos, segundo o CHRI, são frequentemente marcados pela falta de acesso adequado à defesa e por denúncias de confissões obtidas sob coerção, levantando sérias dúvidas sobre a justiça dos julgamentos.
A falta de transparência nos processos judiciais e as alegações de violações dos direitos dos réus, incluindo a negação de acesso a advogados e a admissão de evidências obtidas sob tortura ou pressão, são pontos centrais nas críticas internacionais. A aplicação de penas como “guerra contra Deus” permite ao judiciário iraniano punir severamente atos que considera ameaças à ordem estabelecida, muitas vezes com base em interpretações extensivas da lei islâmica.
Impacto e Preocupações Internacionais
As sentenças de morte contra mulheres por participação em protestos representam um novo e alarmante desenvolvimento na resposta do Irã à dissidência. Organizações de direitos humanos expressam profunda preocupação com a possibilidade de que a pena capital seja utilizada de forma cada vez mais ampla contra mulheres que se manifestam, ampliando o escopo da repressão. A situação de Taraneh Rahimi e Leila Abolhasani, em particular, destaca a vulnerabilidade de jovens e mães em meio a um sistema judicial que, segundo relatos, não garante os direitos básicos à defesa e a um julgamento justo.
A comunidade internacional, através de órgãos de direitos humanos e governos, tem reiterado o apelo ao Irã para que cesse o uso da pena de morte e respeite os direitos humanos fundamentais. No entanto, o regime iraniano tem demonstrado pouca receptividade a essas pressões, continuando a aplicar medidas drásticas para manter o controle social e político. O desenrolar desses casos e a possibilidade de novas execuções são acompanhados de perto por defensores dos direitos humanos em todo o mundo, que buscam justiça e a proteção das vidas ameaçadas.
A Luta por Liberdade e Direitos no Irã
A onda de protestos que varreu o Irã, embora tenha sido duramente reprimida, reflete um anseio profundo por mudanças sociais e políticas. As exigências por liberdade, igualdade e melhores condições de vida continuam a ecoar, mesmo diante da violência estatal. As mulheres, que têm desempenhado um papel central e corajoso nos movimentos de contestação, enfrentam riscos particularmente elevados, como evidenciado pelas recentes condenações.
O futuro imediato para as ativistas e para a sociedade civil iraniana permanece incerto. A intensificação da repressão e o uso de penas extremas como a morte sugerem um período de alta tensão. No entanto, a resiliência dos movimentos sociais e a contínua denúncia das violações de direitos humanos por parte de organizações internas e externas oferecem um fio de esperança para aqueles que lutam por um Irã mais justo e livre.