Irã e EUA sinalizam progresso em conversas, mas adiam acordo sobre Estreito de Ormuz e questões nucleares
Um certo grau de entendimento foi alcançado entre o Irã e os Estados Unidos em diversas questões, segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei. As declarações foram feitas em Teerã nesta segunda-feira (25), mas Baghaei fez questão de ressaltar que um acordo formal não é iminente e que o país persa mantém desconfiança sobre o cumprimento de compromissos por parte de Washington.
Apesar dos avanços pontuais, o programa nuclear iraniano foi explicitamente deixado de fora das discussões nesta fase. Baghaei reiterou a exigência de Teerã para o fim da guerra em todas as frentes, incluindo o conflito no Líbano, e que as negociações sobre os detalhes do programa nuclear só ocorrerão após o fim formal das hostilidades.
As declarações do porta-voz iraniano surgem em meio a um cenário de expectativas criadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que no sábado (23) havia sugerido um avanço significativo em um memorando de entendimento para reabrir o Estreito de Ormuz. No entanto, tanto o lado iraniano quanto o secretário de Estado americano, Marco Rubio, minimizaram a possibilidade de um acordo imediato, conforme informações divulgadas pelo Ministério das Relações Exteriores do Irã e por fontes americanas.
Desconfiança iraniana e a volatilidade das posições americanas
Esmaeil Baghaei expressou a dificuldade em avançar em negociações devido às constantes mudanças de posição do governo Trump. Segundo ele, em questão de horas, as posições americanas podem se tornar completamente diferentes e até contraditórias, o que, de acordo com o porta-voz, “cria problemas para qualquer processo de negociação”. Essa volatilidade é um fator crucial que alimenta a desconfiança iraniana quanto à concretização de quaisquer acordos.
O porta-voz também abordou a proposta iraniana de monetizar o Estreito de Ormuz, negando que se trate de um pedágio. Ele caracterizou a medida como taxas por “serviços” a serem prestados, que incluiriam a garantia de navegação segura e a proteção ambiental na região. “Qualquer país responsável acolheria com satisfação a criação de um mecanismo confiável e previsível para gerenciar o trânsito e a navegação pelo Estreito de Ormuz”, acrescentou Baghaei, buscando apresentar a iniciativa como uma solução logística e de segurança internacional.
EUA minimizam expectativas e priorizam diplomacia antes de “alternativas”
Em paralelo às declarações iranianas, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, também adotou um tom cauteloso. Durante uma visita a Nova Dheli, Rubio afirmou que os Estados Unidos darão todas as chances de sucesso à diplomacia antes de considerar “alternativas”. Essa postura alinha-se com a instrução dada por Donald Trump aos seus representantes para que não se precipitem na assinatura de acordos com o Irã, como ele mesmo declarou no domingo (24).
Rubio detalhou que existe uma proposta “bastante sólida” em relação à capacidade do Irã de abrir o Estreito de Ormuz, iniciar negociações “reais, significativas e com prazo determinado” sobre a questão nuclear, e expressou a esperança de que essas propostas possam se concretizar. No entanto, a ênfase na necessidade de negociações “com prazo determinado” sugere que os EUA mantêm uma pressão para obter resultados concretos em um período específico, o que pode ser um ponto de atrito com a abordagem iraniana.
Os contornos do acordo proposto e os pontos de discórdia
O presidente Trump havia inicialmente elevado as expectativas no sábado (23), ao afirmar que Washington e Teerã “negociaram em grande parte” um memorando de entendimento para um acordo de paz que reabriria o Estreito de Ormuz. O porta-voz iraniano, por sua vez, esclareceu que o Irã não cobraria pedágio, mas que “é normal que os serviços prestados tenham um preço”. Antes do conflito, o Estreito de Ormuz era responsável por um quinto das remessas globais de petróleo e gás natural liquefeito, tornando sua abertura crucial para a economia global.
Apesar dos avanços mencionados, ambos os lados permanecem em desacordo sobre questões complexas. Entre elas estão as ambições nucleares do Irã, a guerra de Israel no Líbano contra o grupo Hezbollah – apoiado pelo Irã –, e as exigências iranianas pelo levantamento das sanções e pela liberação de dezenas de bilhões de dólares em receitas petrolíferas congeladas em bancos estrangeiros. Esses pontos de discórdia representam os maiores obstáculos para a conclusão de um acordo abrangente.
Detalhes do acordo: abertura do Estreito e o futuro do programa nuclear
Um alto funcionário do governo Trump, falando sob condição de anonimato, delineou os contornos mais recentes das negociações. Segundo ele, o Irã teria concordado “em princípio” em abrir o Estreito de Ormuz, em troca do levantamento do bloqueio naval dos Estados Unidos, e em se desfazer de seu estoque de urânio altamente enriquecido. O funcionário também indicou que o líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, teria endossado o esboço geral do acordo.
O funcionário americano rebateu as sugestões de que o Irã não teria aceitado se desfazer de seu estoque de urânio enriquecido, afirmando que “a questão é como”. Essa ressalva sugere que os detalhes técnicos e os mecanismos para a desativação ou diluição do urânio são pontos que ainda precisam ser definidos. Um segundo alto funcionário do governo Trump mencionou no domingo (24) que a estrutura proposta daria aos negociadores 60 dias para chegar a um acordo final, indicando um cronograma para as próximas etapas.
A busca por “fórmulas viáveis” para o urânio enriquecido
Fontes iranianas informaram à Reuters que, em etapas futuras das negociações, “fórmulas viáveis” poderiam ser encontradas para resolver a disputa sobre o estoque de urânio altamente enriquecido. Uma das possibilidades discutidas seria a diluição do material sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a agência nuclear da ONU. Essa proposta visa garantir a natureza pacífica do programa nuclear iraniano, ao mesmo tempo em que respeita a soberania do país e suas necessidades energéticas.
A complexidade das negociações reside na necessidade de equilibrar as preocupações de segurança internacional, especialmente em relação ao programa nuclear iraniano, com os interesses e demandas do próprio Irã, incluindo o alívio das sanções econômicas que têm impactado significativamente o país. A abertura do Estreito de Ormuz, embora pareça um ponto de convergência, está intrinsecamente ligada a essas questões mais amplas e sensíveis.
O papel do Líbano e a pressão por um fim à guerra
A exigência iraniana para o fim da guerra em todas as frentes, com menção explícita ao Líbano, adiciona outra camada de complexidade às negociações. O apoio do Irã ao Hezbollah e o envolvimento de Israel no conflito são fatores regionais que transcendem as relações bilaterais entre Teerã e Washington. Qualquer acordo que não aborde essas dinâmicas regionais pode ser visto como incompleto ou instável.
A postura de Teerã em vincular o programa nuclear ao fim das hostilidades demonstra a estratégia iraniana de utilizar a negociação como uma ferramenta para alcançar objetivos de segurança e soberania mais amplos. A expectativa é que, mesmo com o “entendimento” alcançado, o caminho para um acordo duradouro e abrangente ainda seja longo e repleto de desafios, exigindo paciência, flexibilidade e confiança mútua entre as partes envolvidas.