Ameaças e chantagem: irmã de “Sicário” alega ter material explosivo contra família Vorcaro

Um relatório da Polícia Federal, enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), revela que Joana Mourão, irmã de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, teria feito ameaças graves contra a família de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Joana alega possuir informações capazes de “acabar com a família inteira” de Vorcaro, em um contexto de desespero financeiro após o suicídio do irmão, que ocorreu após sua prisão na Operação Compliance Zero.

As declarações de Joana foram feitas em um grupo de WhatsApp com Manoel Rodrigues, o Manolo, um bicheiro que atuava para a família do banqueiro. Ela expressou profunda insatisfação com a situação financeira da família após a morte do irmão, acusando o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, de ter se apropriado do dinheiro do irmão e deixado sua família em “miséria”.

A irmã de “Sicário” afirmou estar “muito perto do abismo” e, caso algo lhe acontecesse, prometeu “levar ele [Henrique Vorcaro] junto”, ameaçando expor a delação do filho, do cunhado e ainda incriminá-los penalmente. As informações, que vieram à tona com a decisão do ministro André Mendonça de retirar o sigilo dos documentos, pintam um cenário de conflito e desespero, com alegações de ameaças de morte e pressões psicológicas intensas.

O desespero e as ameaças de Joana Mourão

Em mensagens datadas de abril, Joana Mourão explicitou sua revolta e o que ela considera ser uma injustiça por parte da família Vorcaro. “HV não se manifesta com nada $”, escreveu ela no grupo, referindo-se a Henrique Vorcaro. Ela detalhou que o pai do banqueiro teria “penhorado os 3 vales e colocado o dinheiro do meu irmão pra dentro e deixou a gente na miséria”. A situação a teria levado a um estado de fragilidade extrema, com perda de peso significativa e dificuldades para comer e dormir, chegando a pesar apenas 45 kg.

Joana atribui diretamente à “família maldita” de Vorcaro a responsabilidade pela morte de seu irmão e pela sua atual condição financeira precária, contrastando com a vida luxuosa que, segundo ela, os investigados levariam. “Acabo com a delação do filho, do cunhado e ainda jogo ele atrás das grades tbm (sic). Eu tenho material pra acabar com a família inteira”, declarou Joana, demonstrando sua intenção de expor as supostas irregularidades.

Além das ameaças de expor informações, Joana relatou ter recebido, juntamente com sua mãe, vídeos que mostravam fuzis e mensagens diretas de ameaça de morte. Essas intimidações, combinadas com pressões para que fossem presas ou sofressem golpes, teriam contribuído para seu estado de debilidade física e mental.

A família Vorcaro sob escrutínio e a atuação de Manolo

Diante das ameaças de Joana, que demonstrava a intenção de levar o caso a programas de grande audiência nacional como o “Fantástico” e “Câmera Record” (mencionado como “Cabrini”), a Polícia Federal identificou que a família Vorcaro e seus associados entraram em pânico. Para eles, Joana era vista como uma “menina descontrolada” e “doida”, capaz de desmantelar todo o esquema investigado.

Nesse cenário, Manoel Rodrigues, o Manolo, com a aparente anuência de Henrique Vorcaro, teria agido para comprar o silêncio dos familiares de “Sicário”. Documentos e mensagens interceptadas pela PF indicam tratativas urgentes para a transferência de contratos de ativos e o repasse de recursos financeiros para Joana e sua mãe. O objetivo era “estancar” a crise e impedir que o material guardado no iCloud de Luiz Phillipi Mourão chegasse às mãos da Polícia Federal.

Manolo relatou a Henrique Vorcaro as negociações em andamento: “Henrique boa noite, estamos conversando com a mãe aqui (…) vamos passar os contratos dos ativos pertinentes ao nosso amigo, no nome dela mãe, para resolver a questão, amanhã dr André já entrará em contato com o dr Thiago para alinhar isso”. A resposta de Henrique, “Foi bom?”, e a confirmação de Manolo, “Graças a dr André”, são considerados pela PF como elementos que justificaram o pedido de prisão preventiva de Henrique Vorcaro.

Estrutura de segurança e métodos agressivos do grupo

A investigação detalha que Manolo comandava uma estrutura de segurança notavelmente agressiva. Essa estrutura era composta por pessoal treinado, veículos blindados e armamento de alto potencial lesivo. Em uma interceptação telefônica, interlocutores descreveram o ambiente de reuniões com o grupo como a “Rússia do Putin”, devido à ostensividade do armamento presente.

Manolo chegou a fazer piadas sobre a intensidade da segurança, ironizando que seus seguranças, em vez de transmitirem proteção, deixavam os visitantes “assustados” e intimidados a ponto de não conseguirem falar. Em outras conversas, foram revelados métodos considerados brutais, incluindo menções ao uso de snipers (atiradores de elite) para proteção pessoal em reuniões de rescisão de contratos. Sua hostilidade aberta contra policiais militares também foi registrada, com a declaração de que “PM bom é debaixo de 7 palmos”.

Ameaças a ex-funcionários e informantes na PF

A Polícia Federal identificou também episódios de ameaças direcionadas a ex-funcionários de Daniel Vorcaro em Angra dos Reis. Esses incidentes sugerem que o grupo agia de forma sistemática e à margem da lei para punir qualquer indivíduo que contrariasse seus interesses. A estratégia de intimidação e retaliação parece ser uma constante na atuação do grupo investigado.

Um dos pontos mais alarmantes da investigação é a apreensão de documentos internos da própria Polícia Federal na residência de Henrique Vorcaro. Essa descoberta levanta a forte suspeita de que o grupo possuía informantes infiltrados na corporação policial. A finalidade desses informantes seria monitorar investigações em andamento e obter informações sobre alvos de interesse, indicando um alto nível de articulação e acesso a informações privilegiadas.

O risco de lavagem de dinheiro e a escalada da investigação

Até a deflagração das fases mais recentes da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal vinha monitorando as transferências financeiras e de ativos para Joana e sua mãe. Essas manobras, além de servirem como tentativa de silenciar testemunhas, podem configurar novos crimes de lavagem de dinheiro. A PF busca comprovar como os recursos foram movimentados e qual a origem exata desses valores.

A situação se agrava com a possibilidade de que o material retido no iCloud de Luiz Phillipi Mourão contenha provas contundentes contra os envolvidos. A tentativa de impedir que essas informações cheguem à PF, através de acordos financeiros e transferências de bens, demonstra a urgência e o desespero dos investigados em proteger seus esquemas e evitar consequências legais mais severas.

Próximos passos e o futuro da investigação

A revelação das ameaças e das tentativas de suborno, detalhadas no relatório da Polícia Federal, adiciona novas camadas à complexa investigação que envolve o Banco Master e seus executivos. A postura de Joana Mourão, embora motivada por desespero, colocou em xeque a segurança do esquema, forçando reações drásticas por parte dos envolvidos.

A Justiça agora analisará as evidências apresentadas pela PF, incluindo as mensagens e os documentos que detalham as negociações para compra de silêncio. A possibilidade de novos crimes, como lavagem de dinheiro, e a existência de supostos informantes dentro da própria polícia, são pontos cruciais que deverão ser aprofundados nas próximas etapas da Operação Compliance Zero. A Gazeta do Povo entrou em contato com a defesa de Daniel Vorcaro e busca manifestações dos demais citados para garantir o contraditório e a pluralidade de informações.

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