Brasil sob Lula: Um comparativo histórico e o aumento alarmante do antissemitismo
O Brasil atravessa um período de intensas discussões sobre o antissemitismo, com especialistas e a comunidade judaica apontando para um aumento expressivo de casos e um clima de insegurança sem precedentes desde a Era Vargas. O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido marcado por declarações controversas, a retirada do país de um importante fórum internacional de combate ao Holocausto e uma crise diplomática com Israel, eventos que, segundo analistas, criam um ambiente propício para manifestações de ódio contra judeus.
Dados recentes da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) revelam um crescimento de 350% nos casos de antissemitismo entre 2022 e 2024. Esse cenário, para muitos, é um reflexo direto das ações e posicionamentos do governo federal, que vão além das legítimas divergências políticas com o governo israelense. A situação é comparada a períodos históricos de restrição e perseguição, acendendo um alerta sobre a segurança e o bem-estar da comunidade judaica no país.
Especialistas ouvidos pela reportagem qualificam o momento atual como o mais grave desde o Estado Novo de Getúlio Vargas, período em que o Brasil impôs restrições à imigração judaica e deportou a militante comunista Olga Benário para a Alemanha nazista. A comparação histórica ressalta a gravidade das preocupações atuais, evidenciadas por pesquisas que mostram que a maioria dos judeus brasileiros considera o antissemitismo um problema sério e que muitos evitam expressar sua identidade judaica em público. conforme informações divulgadas pela CONIB e por especialistas em antissemitismo.
O Legado de Vargas e a Sombra do Antissemitismo Histórico
Para traçar um paralelo com o presente, é crucial revisitar o passado. Durante o ano de 1935, em pleno regime de Getúlio Vargas, o Brasil impôs restrições ao visto de imigrantes de origem judaica, justamente quando a Alemanha Nazista promulgava as Leis de Nuremberg, retirando a cidadania dos judeus. Essa medida, que dificultou a fuga de muitos que buscavam refúgio do crescente antissemitismo europeu, já sinalizava uma política de exclusão.
O ápice dessa política ocorreu em abril de 1936, com a deportação de Olga Benário Prestes, judia e comunista, para a Alemanha de Hitler. Ela, que estava grávida, foi enviada a um destino trágico, sendo assassinada em uma câmara de gás no campo de extermínio de Bernburg anos depois. A decisão de Vargas, em meio a uma complexa política externa de neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial, que ora sinalizava aos nazistas, ora aos aliados americanos, deixou uma marca indelével na história das relações do Brasil com a comunidade judaica.
Passados quase 80 anos do fim da Segunda Guerra e do Estado Novo, a atual gestão federal, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, é apontada por especialistas como um período que reacende preocupações históricas. A professora Daphne Klajman, especialista em antissemitismo, afirma categoricamente: “Estamos diante do governo mais antissemita desde a Era Vargas”, contextualizando a gravidade das declarações e ações recentes.
O Aumento Alarmante dos Casos de Antissemitismo no Brasil
Os números divulgados pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB) são um retrato preocupante da realidade. Entre 2022 e 2024, os casos de antissemitismo no país registraram um aumento de 350%. O pico de ocorrências foi observado em outubro de 2023, logo após os ataques terroristas do Hamas em Israel, que resultaram na morte de mais de 1.200 israelenses, incluindo quatro brasileiros.
Uma pesquisa realizada pela mesma CONIB com 1.427 judeus brasileiros revelou que 86% consideram o antissemitismo um problema grave no país. Mais alarmante ainda, 22% dos entrevistados declararam ter deixado de se identificar como judeus em determinadas situações, evidenciando o impacto psicológico e social do aumento do ódio e da discriminação. Esse receio se manifesta em medidas de segurança em escolas judaicas, onde alunos são orientados a não usar símbolos religiosos publicamente, e na necessidade de reforçar a proteção de instituições judaicas.
A professora Daphne Klajman destaca que, embora o Brasil já tenha vivenciado momentos de tensão com a comunidade judaica, como a votação da ONU que equiparou sionismo a racismo durante o governo Geisel ou a recusa de Dilma Rousseff em aceitar um embaixador israelense, as situações atuais são de outra magnitude. Para ela, os eventos anteriores foram pontuais, ao contrário do cenário atual de medo e insegurança generalizada.
Declarações Controversas e o Mito da Lealdade Dupla
As declarações do presidente Lula e de membros de seu governo têm sido um ponto central nas críticas. Klajman aponta como particularmente problemáticas as falas do presidente que responsabilizam a comunidade judaica por ações do governo israelense, como a afirmação de que “é responsabilidade da comunidade judaica rejeitar as ações de Israel”, e a minimização do antissemitismo ao chamá-lo de “vitimismo”.
“Na prática, ele diz que o antissemitismo é culpa nossa por não tomar por responsabilidade um governo estrangeiro, aplicando ativamente o mito de lealdade dupla à comunidade judaica”, explica Klajman. Ela ressalta que o presidente não impõe a mesma responsabilidade a outras comunidades nacionais por ações de governos estrangeiros de suas origens, como a comunidade russa pelas ações de Putin, a chinesa pelas ações de Xi Jinping, ou as comunidades palestina e libanesa.
Daniel Osowicki, mestre em História e especialista em Oriente Médio, corrobora essa análise, afirmando que a experiência brasileira após outubro de 2023 demonstra um aumento expressivo de manifestações hostis dirigidas à comunidade judaica. “Em numerosos casos, judeus passaram a ser responsabilizados coletivamente pelas decisões do governo israelense, estabelecendo-se uma associação automática entre identidade judaica e política estatal israelense”, observa Osowicki. Ele enfatiza que o conflito internacional não deveria ter efeitos diretos sobre uma minoria nacional sem responsabilidade institucional pelas ações de outro país.
A Passividade com o Hamas e a Crise Diplomática com Israel
A condenação dos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro pelo Brasil, embora formalmente declarada, foi marcada por uma notável passividade e cautela, diferentemente da maioria dos países ocidentais. As notas divulgadas pelo Itamaraty, ao não citarem o Hamas como grupo terrorista em seus posicionamentos iniciais e optarem por uma linguagem branda, geraram críticas.
O foco do Ministério das Relações Exteriores na “urgência da retomada das negociações de paz” e na criação de um “Estado Palestino economicamente viável”, sem uma condenação explícita e enfática do Hamas, contrastou com a posição de aliados internacionais. Enquanto isso, nas redes sociais, Lula condenou os “ataques terroristas realizados contra civis”, mas também evitou, inicialmente, nomear o grupo responsável. O apoio de entidades ligadas ao governo, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que chamou os ataques de “brava resistência”, intensificou as críticas.
A oposição, por sua vez, adotou um tom mais incisivo, defendendo o direito de autodefesa de Israel, algo que, segundo reportagens, não foi contemplado nas notas do Itamaraty, que por vezes tratou as ações israelenses como “genocídio”. Levantamento indica que, nos meses anteriores à guerra, o Itamaraty se posicionou mais de 60 vezes contra o governo de Benjamin Netanyahu, contra apenas 10 vezes contra grupos como Hamas, Hezbollah e o Irã.
O Abandono de Michel Nisembaum e a Falta de Ação Prática
Um dos casos mais emblemáticos e dolorosos é o do sequestro e posterior morte de Michel Nisembaum, brasileiro natural de Niterói, sequestrado pelo Hamas em 7 de outubro enquanto tentava salvar a neta. Apesar de o presidente Lula ter se encontrado com a família de Nisembaum em dezembro de 2023 e prometido que “ninguém ficaria para trás”, os familiares relataram falta de contato e ações concretas por parte do governo para repatriar o refém.
Cerca de seis meses após o encontro no Palácio do Planalto, a sobrinha de Nisembaum, Ayala Harel, expressou em maio de 2024 a angústia da família: “Não ouvimos nada de Lula. Nada. Não sabemos nada do Michel. Nem se ele está vivo ou não”. Essa queixa contrasta com a promessa de Lula, feita em novembro de 2023, de enviar aviões para retirar brasileiros da Faixa de Gaza. Curiosamente, o governo brasileiro conseguiu repatriar 127 pessoas de Gaza, incluindo Hasan Rabee, um palestino naturalizado brasileiro com histórico de defender a explosão de ônibus em Israel.
Michel Nisembaum foi resgatado sem vida pelo Exército israelense em 24 de maio de 2024. Embora Lula tenha lamentado sua morte nas redes sociais, em seu discurso seguinte, voltou a acusar Israel de “continuar matando mulheres e crianças”, sem mencionar o brasileiro assassinado. A professora Daphne Klajman critica a falta de ações práticas do Itamaraty para resgatar Michel, apontando que o encontro com a família foi a única medida, e que o Brasil não buscou apoio do Irã, país com influência sobre o Hamas e com o qual o Brasil mantém boas relações.
A Retirada do Brasil da IHRA e a Definição de Antissemitismo
A decisão do governo Lula de retirar o Brasil da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA) em 2024 gerou forte repúdio de organismos nacionais e internacionais, como a CONIB e a Organização dos Estados Americanos (OEA). A IHRA é uma organização intergovernamental dedicada a promover a educação, a memória e a pesquisa sobre o Holocausto, além de ter estabelecido uma definição de antissemitismo amplamente adotada por mais de 40 países.
O Brasil, que atuava como membro observador desde 2021, sob o governo Bolsonaro, tomou a decisão de se retirar, o que, segundo analistas, pode ser interpretado como um flerte com o antissemitismo. Projetos de lei apresentados por congressistas como Tabata Amaral (PSB-SP) e Eduardo Pazuello (PL-RJ) buscavam reintegrar o país à IHRA e adotar sua definição de antissemitismo. No entanto, essas propostas enfrentaram forte resistência de deputados e ativistas de extrema-esquerda, que alegaram “interferência sionista” e a criminalização da crítica a Israel.
Políticos como Sâmia Bomfim (Psol-SP) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ) defenderam que a definição da IHRA transformaria a crítica legítima à Palestina em crime e colocaria “uma mordaça na boca” de quem luta contra o sionismo e o genocídio. A pressão da esquerda levou à perda de força do projeto de Tabata Amaral, com nove deputados, incluindo cinco do PT, retirando suas assinaturas. Klajman rebate essa argumentação, explicando que a definição da IHRA foi criada justamente para diferenciar críticas legítimas a Israel de manifestações antissemitas, e que países como Noruega e Irlanda, críticos de Israel, aderem à definição sem problemas.
Lula Compara Ações de Israel a Hitler: Uma Crise Diplomática sem Precedentes
O ponto de ebulição na crise diplomática entre Brasil e Israel ocorreu em 18 de fevereiro de 2024, quando o presidente Lula comparou as ações de Israel na Faixa de Gaza ao extermínio de judeus promovido por Hitler durante o Holocausto. Em declarações que chocaram a comunidade internacional, Lula afirmou que “o que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu: quando o Hitler resolveu matar os judeus”.
A comparação foi duramente repudiada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e pelo ministro das Relações Exteriores israelense, Israel Katz, que convocou o embaixador brasileiro e declarou Lula persona non grata em Israel. A CONIB também repudiou a fala, definindo-a como uma “distorção perversa da realidade que ofende a memória das vítimas do Holocausto e de seus descendentes”. A crise gerou repercussão negativa até mesmo entre aliados de Lula, como o senador Jaques Wagner (PT-BA), que, sendo judeu, criticou a comparação por “ferir sentimentos”.
Daphne Klajman classificou a comparação como um “desrespeito absoluto à memória do Holocausto”. A crise diplomática se estendeu a outras áreas, com o Ministério da Defesa apontando em outubro de 2024 que “questões ideológicas” barraram uma licitação entre Brasil e Israel, relacionada a uma guerra e ao Hamas. O governo brasileiro, por sua vez, se recusa a permitir a nomeação de um novo embaixador israelense em Brasília desde a saída de Daniel Zoshine, há um ano.
O Seminário Sobre Antissemitismo: Um “Circo” para o Ano Eleitoral?
Em abril de 2024, em meio a um ano eleitoral e temendo o impacto de suas políticas na sua reeleição, o governo Lula, através do Itamaraty, organizou um seminário sobre “Enfrentamento ao Antissemitismo”. A iniciativa, vista por muitos como reativa e tardia, já que a cobrança por ações contra o antissemitismo vinha de anos, foi criticada por alguns por parecer mais um “circo” para fins eleitorais.
Embora o evento tenha contado com a participação de vozes relevantes como a doutora Sofia Débora Levy e o presidente da CONIB, Claudio Lottenberg, o seminário foi marcado por discursos anti-Israel protagonizados por figuras da extrema-esquerda, como os professores Arlene Clemesha e Michel Gherman. Clemesha, conhecida por defender que Israel comete apartheid e por negar a classificação de grupos como Hamas e Hezbollah como terroristas, chegou a questionar se os ataques de 7 de outubro foram terroristas, enquanto rotulou ações israelenses como terroristas. Gherman, por sua vez, já foi alvo de repúdio da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) por usar sua origem judaica para validar discursos que ferem a comunidade judaica e por comparar apoiadores de Bolsonaro a nazistas.
Daphne Klajman contestou a presença de Clemesha no evento, afirmando que suas falas não colaboram para o fim do antissemitismo e que ela instrumentaliza a memória do Holocausto para sustentar um discurso político anti-Israel. O seminário, segundo relatos, incluiu comparações entre o Gueto de Varsóvia e o massacre do Carandiru, e acusações de genocídio, em um ambiente onde, segundo a reportagem, não havia opositores políticos presentes para um debate equilibrado. Para Klajman, a dificuldade do governo em distinguir críticas legítimas a Israel do antissemitismo é um reflexo de uma visão distorcida e perigosa.