O monumental resgate de fauna silvestre durante a construção de Itaipu: um marco ecológico na América Latina

Em uma das mais impressionantes operações de resgate de animais silvestres da história, a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, um empreendimento binacional entre Brasil e Paraguai, mobilizou uma equipe dedicada a salvar milhares de vidas de seu habitat natural. Entre 1982 e 1983, sob a liderança do engenheiro agrônomo paraguaio Darío Pérez Chena, uma força-tarefa de quase 400 pessoas trabalhou contra o tempo para retirar animais de diversas espécies de uma área que seria inundada para a formação do reservatório da usina.

A iniciativa, batizada de Mymba Kuéra – que significa “os animais” em guarani – no lado paraguaio, foi pioneira na América Latina e resultou na salvação de aproximadamente 39 mil animais, incluindo cobras, tatus, macacos e tarântulas. A complexa operação, que envolveu um extenso inventário da fauna local e treinamento especializado para os socorristas, tornou-se um legado para a conservação da biodiversidade na região.

O resgate, detalhado pelo próprio Pérez Chena em entrevista à BBC, não apenas salvou inúmeras vidas, mas também contribuiu significativamente para o conhecimento científico sobre a rica Floresta Atlântica do Alto Paraná. A história de Mymba Kuéra é um testemunho da capacidade humana de conciliar grandes projetos de engenharia com a proteção do meio ambiente, estabelecendo bases para futuras ações de conservação.

Um Colosso de Engenharia e um Tesouro de Biodiversidade

A construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, iniciada em 1975, foi um empreendimento de proporções titânicas. Com mais de 7 quilômetros de extensão, a usina se tornou, na época, a maior do mundo em capacidade instalada. Para a edificação, foi necessário desviar temporariamente o curso do Rio Paraná, escavando um canal que, após a conclusão das obras em 1982, seria fechado para dar lugar a um reservatório com cerca de 1.350 km².

No entanto, a área destinada à formação do reservatório era parte integrante da Floresta Atlântica do Alto Paraná, um dos biomas mais biodiversos do planeta. Este ecossistema exuberante abrigava uma vasta quantidade de espécies de plantas e animais, incluindo grandes felinos como onças-pardas e pintadas, além de centenas de espécies de aves. A iminência da inundação representava uma ameaça direta à sobrevivência de toda essa vida selvagem.

A construção de Itaipu coincidiu com um momento crucial na história ambiental global: a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972. Este evento marcou a ascensão da ecologia como uma questão de importância internacional, impulsionando a necessidade de medidas de proteção ambiental em grandes projetos de infraestrutura. Diante desse cenário, a possibilidade de realizar um resgate em larga escala da fauna da região inundada ganhou força, despertando interesse global.

Mymba Kuéra: A Missão de Salvar a Fauna Paraguaia

No lado paraguaio, a iniciativa de resgate recebeu o nome de Mymba Kuéra, uma expressão em guarani que significa “os animais”. O projeto foi concebido para mitigar o impacto ambiental da formação do reservatório, buscando salvar o máximo possível de espécies da fauna terrestre que habitavam a área a ser alagada. O engenheiro agrônomo Darío Pérez Chena foi o nome à frente dessa missão monumental.

Com 43 anos na época, Pérez Chena, que possuía pós-graduação na Alemanha e era diretor do Serviço Florestal Nacional do Paraguai, aceitou o desafio de liderar a equipe de resgate. Ele se mudou com a família para Puerto Stroessner (atual Ciudad del Este), na fronteira com o Brasil, para assumir a responsabilidade pela fauna e flora terrestre em Itaipu. Seu trabalho não apenas salvou animais, mas também lançou as bases para a proteção contínua da biodiversidade na região.

A preparação para o resgate foi extensa e envolveu anos de planejamento. Uma das etapas cruciais foi a realização de um inventário detalhado da área a ser inundada. Botânicos, zoólogos, engenheiros florestais e outros especialistas foram mobilizados para catalogar as espécies presentes, identificar seus habitats e registrar seus rastros. Esse levantamento minucioso foi fundamental para a organização da operação de resgate.

O Inventário da Fauna: A Base para o Resgate

O processo de inventário da fauna paraguaia para o projeto Mymba Kuéra foi uma tarefa complexa e inovadora para a época. A equipe utilizou uma combinação de métodos para registrar a presença e a distribuição das espécies. Cada avistamento era meticulosamente documentado, e os animais eram identificados não apenas visualmente, mas também por meio de seus rastros, como pegadas e materiais fecais.

Darío Pérez Chena destacou a importância desse levantamento: “O relevo permitiu a construção de um grande arquivo da fauna paraguaia”, relatou à BBC. “Contribuímos muito para o conhecimento daquela região. E também oferecemos a oportunidade de aprender a muitos alunos de biologia, veterinária e agronomia.” Essa vasta coleta de dados não só serviu como base para a operação de resgate, mas também representou um avanço significativo no estudo da biodiversidade local.

O inventário permitiu que a equipe de resgate tivesse um mapa detalhado das áreas de maior concentração de animais e das espécies que necessitariam de atenção especial. Essa informação foi crucial para a otimização dos esforços e para a alocação eficiente dos recursos humanos e materiais durante a fase de resgate ativo, que se aproximava rapidamente com o avanço das obras.

A Equipe de 189 Heróis e a Tecnologia da Época

A operação de resgate em si foi confiada a uma equipe de 189 pessoas, cuidadosamente selecionadas e lideradas por Pérez Chena. Os critérios de seleção incluíam juventude, boa condição física, habilidade de natação e sentidos aguçados, como visão e audição. A intenção era formar um time ágil e preparado para os desafios que enfrentariam em um ambiente selvagem e em constante mudança.

A comunicação e o deslocamento da equipe eram realizados com a tecnologia disponível em 1982. Os socorristas se moviam em lanchas e se comunicavam por meio de rádios antigos, que, segundo Pérez Chena, eram “menos desenvolvidos que os atuais”. Ele relembra com nostalgia: “Usávamos equipamentos que hoje, praticamente, são peças de museu, mas fizemos com eles algo que, hoje em dia, é sempre analisado e recordado.” Essa resiliência tecnológica demonstra a dedicação e a engenhosidade da equipe.

Além da equipe principal de resgate, havia um robusto time de apoio com mais de 150 pessoas. Este grupo era composto por profissionais essenciais como médicos, enfermeiros, pilotos de helicóptero, mecânicos e bombeiros, que ficavam baseados em complexos habitacionais construídos especificamente para as obras de Itaipu. A equipe de resgate também recebeu treinamento especializado de técnicos brasileiros e de outros países, garantindo que estivessem bem preparados para lidar com a diversidade de fauna e os riscos envolvidos.

Corrida Contra o Tempo: A Inundação Começa

No dia 13 de outubro de 1982, a contagem regressiva para o resgate atingiu seu ápice. As comportas do canal de desvio do Rio Paraná foram fechadas, e a água começou a subir, iniciando o processo de inundação da vasta área que se tornaria o reservatório de Itaipu. A partir desse momento, a operação de resgate se transformou em uma corrida contra o tempo.

Inicialmente, o número de animais resgatados era modesto, mas rapidamente aumentou, atingindo um pico impressionante de mais de 600 animais em um único dia. A estratégia principal era focar naqueles animais que não possuíam habilidades de natação ou que ficavam em desvantagem na água. Como explicou Pérez Chena: “Salvamos apenas os animais que não sabiam nadar”. Ele esclarece que animais como a onça-pintada, conhecidas por serem excelentes nadadoras, não foram prioridade, pois eram capazes de se auto-salvar, inclusive atravessando o próprio rio Paraná.

A vulnerabilidade de muitas espécies na água era evidente. “Na água, muitos animais são totalmente indefesos”, observou o engenheiro. “Eles concentram toda a sua energia em se salvar. Por isso, é fácil pegá-los com uma rede ou laço.” A cena de macacas com filhotes agarrados ao pescoço, buscando refúgio na água, era comovente, transmitindo uma sensação de perda e desespero.

Desafios e Surpresas: Cobras, Aves e a Realidade da Natureza

A equipe de resgate foi treinada para lidar com uma ampla gama de animais, incluindo os mais perigosos. O manejo de tarântulas e serpentes venenosas era uma constante preocupação. “Existem víboras com veneno tão tóxico que é preciso agir em poucos minutos”, alertou Pérez Chena, destacando a importância dos kits de soro antiofídico disponíveis em cada lancha para emergências.

Uma surpresa inesperada foi a quantidade de aves que precisaram de resgate. Originalmente, a expectativa era de que aves pudessem voar para áreas mais seguras. No entanto, muitas foram encontradas na água, com suas penas de cauda, essenciais para o voo, molhadas e pesadas. “Elas subiam nos ramos das árvores para caçar insetos e, às vezes, molhavam as penas da cauda, que é o timão delas. Precisamos começar a buscar jaulas especiais para recolher aves”, relembrou o agrônomo.

A operação de resgate se estendeu por vários meses, culminando em 10 de janeiro de 1983. Ao final, foram resgatados 27.150 animais apenas no lado paraguaio. Desse total, impressionantes 45% eram cobras, com metade delas sendo venenosas. No lado brasileiro, a operação, embora menor devido à menor área de floresta impactada, conseguiu salvar cerca de 11 mil animais. Somando os dois lados, o número total de animais resgatados chegou a quase 39 mil, um feito sem precedentes na América do Sul até então.

O Destino dos Animais Resgatados e o Legado de Mymba Kuéra

Após o resgate, o destino dos animais foi cuidadosamente planejado para garantir sua sobrevivência e adaptação a novos ambientes. Muitos dos animais foram trasladados para mais de 100 mil hectares de áreas protegidas dentro do mesmo ecossistema da Mata Atlântica, permitindo que permanecessem em habitats semelhantes aos que foram retirados.

Um caso notável foi o das centenas de víboras encaminhadas ao Instituto Butantan, em São Paulo, referência mundial em pesquisas biológicas e produção de soros antiofídicos. “Às seis horas da manhã, saía todos os dias o primeiro avião que levava os caixotes com as cobras rumo a São Paulo”, recordou Pérez Chena, evidenciando a logística complexa envolvida.

Outro exemplo fascinante é o dos tatupebas, que foram enviados para estudos científicos no Japão. “Ele é um dos poucos animais resistentes à lepra”, explicou o engenheiro, justificando a importância desses animais para a pesquisa biomédica internacional. Apesar do sucesso da operação, Pérez Chena reconhece que nem todos os animais puderam ser salvos. “Insetos, por exemplo. Não sabemos quantos animais que moravam embaixo da terra passaram a fazer parte da matéria orgânica do solo.” Ele admite que houve erros, mas enfatiza que foram fruto da inexperiência e não da negligência, sempre com a consciência de estar fazendo algo positivo.

Um Orgulho e um Exemplo para o Futuro

Atualmente, a Usina de Itaipu é um dos maiores complexos hidrelétricos do mundo, fornecendo energia para o Paraguai e o Brasil. A obra, embora superada em tamanho pela represa de Três Gargantas na China, ainda detém o recorde mundial de energia produzida acumulada ao longo de seus mais de 40 anos de operação.

Darío Pérez Chena, hoje com 87 anos, vive em Assunção e relembra com orgulho a operação Mymba Kuéra. Ele expressa gratidão pela sobrevivência de toda a equipe de resgate, da qual apenas uma fração ainda está viva. O resgate, segundo ele, definiu as bases para a criação de reservas e projetos de biodiversidade que existem até hoje, como o Centro Ambiental Tekotopa de Itaipu.

A operação Mymba Kuéra recebeu diversos reconhecimentos internacionais, mas para Pérez Chena, o maior prêmio foi ter feito algo positivo pela biodiversidade. Ele acredita que a história é a grande professora da vida e que é fundamental divulgar o que aconteceu em Itaipu para que os erros do passado não se repitam. “Para nós, foi um orgulho termos trabalhado na recuperação dos animais antes que eles se perdessem. Deixamos uma pegada que é seguida até hoje”, concluiu o engenheiro paraguaio, destacando o legado duradouro de coragem, dedicação e respeito pela natureza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

Vazamento de dados fiscais de Lulinha, guerra de banqueiros e preocupação dos EUA com China marcam semana de tensões políticas

Dados fiscais de Lulinha expostos em meio a polêmicas na CPMI do…

Onda de Protestos no Brasil: Movimentos Populares Inspirados em Lutas Internacionais Exigem Liberdade e Fim de Regime

Brasil em Movimento: Protestos Nacionais Pedem Liberdade e Criticam “Ditadura da Toga”…

Túnel no Morro do Vieira na BR-280: Abertura em 2026 para Eliminar Gargalo Histórico e Aumentar Segurança

Túnel Duplo na BR-280: Nova Era para o Tráfego no Norte de…

Desconfiança em Urnas Eletrônicas Dispara no Brasil: O Efeito Streisand e o Ceticismo Crescente

Por que a desconfiança nas urnas eletrônicas cresceu no Brasil e o…