Bukele se candidata a mais um mandato presidencial em El Salvador, reforçando domínio político
Nayib Bukele, o atual presidente de El Salvador, deu mais um passo para consolidar sua permanência no poder ao ser escolhido como candidato à presidência pelo seu partido, Nuevas Ideas, para as eleições gerais de 28 de fevereiro de 2027. A escolha ocorreu durante uma votação interna, onde Bukele concorreu sem oposição, refletindo o controle absoluto que ele e seu grupo político exercem sobre as instituições salvadorenhas, incluindo os órgãos reguladores das eleições.
Autodenominando-se “ditador ‘cool'”, Bukele sinaliza que sua autoridade, estabelecida nos últimos anos, deve perdurar por um longo período. A possibilidade de um terceiro mandato se concretiza após uma emenda constitucional aprovada em julho de 2025 pela Assembleia Legislativa, majoritariamente controlada pelo Nuevas Ideas, que flexibilizou as regras para a reeleição presidencial, permitindo mandatos consecutivos por tempo indeterminado.
A cenário político salvadorenho apresenta uma nítida ausência de figuras políticas significativas que possam desafiar a hegemonia de Bukele. Partidos tradicionais como a Aliança Republicana Nacionalista (ARENA) e a Frente Farabundo Martí de Liberação Nacional (FMLN), que outrora dominaram a política do país, hoje amargam baixo apoio popular, com projeções insuficientes para sequer competir em influência política com o partido governista. As informações são baseadas em reportagens sobre o cenário político salvadorenho.
A consolidação do poder: eleições sem oposição e controle institucional
A escolha de Nayib Bukele como candidato único do Nuevas Ideas para a presidência em 2027 sublinha a ausência de concorrência interna no partido. Membros do partido também votaram presencialmente, utilizando dispositivos eletrônicos, para selecionar candidatos a cargos legislativos e conselhos municipais, um processo exigido pela legislação eleitoral salvadorenha para garantir a participação dos filiados na escolha de seus representantes. Este método de seleção interna reforça a imagem de unidade partidária em torno de Bukele.
Desde que chegou ao poder em junho de 2019, Bukele representou uma ruptura com o sistema político tradicional, que por duas décadas foi dominado pela ARENA e pela FMLN. Agora, em busca de mais um mandato, a expectativa, segundo as pesquisas de opinião, é de uma vitória certa. Caso se concretize, Bukele permanecerá na presidência até 2033, estendendo significativamente seu período de governo e consolidando o que analistas descrevem como um controle quase total do Estado.
A popularidade de Bukele, aliada à fragilidade dos partidos opositores, cria um ambiente político onde a reeleição parece ser mais uma formalidade do que uma disputa acirrada. A estrutura política de El Salvador, sob sua liderança, demonstra uma concentração de poder que levanta questões sobre o futuro da democracia no país, apesar do forte apoio popular que o presidente desfruta.
A queda dos partidos tradicionais e a ascensão do voto individual
Um dos pilares do sucesso de Nayib Bukele é a crescente desconfiança do eleitorado em relação aos partidos políticos tradicionais, um fenômeno que se estende por diversas nações da América Latina. Conforme explica Juan Ramón Maldonado, diretor da Escola de Comunicação da Universidade Don Bosco e analista político, a dinâmica do voto mudou drasticamente.
“As pessoas não votam mais em partidos ou ideologias; agora votam em indivíduos. Não votam mais em plataformas, mas sim em resultados — em ações concretas”, afirmou Maldonado. Essa percepção do eleitorado, que prioriza a figura do líder e suas ações concretas em detrimento de propostas partidárias, favorece personalidades carismáticas e com forte apelo popular como Bukele. A segurança pública, área onde Bukele tem implementado medidas drásticas, é frequentemente citada como um dos principais motivos para o apoio popular contínuo.
Harold Castillo, um membro do partido governista que participou da votação interna, corroborou essa visão: “A segurança é a principal área em que o presidente nos ajudou; é por isso que agora apoiamos a continuidade de sua liderança”. Essa declaração ilustra a prioridade que muitos salvadorenhos dão à sensação de segurança, mesmo que isso implique em concessões em outras áreas da governança.
Mudanças constitucionais abrem caminho para a reeleição irrestrita
A possibilidade de Nayib Bukele buscar um terceiro mandato presidencial foi viabilizada por uma emenda constitucional aprovada em julho de 2025 pela Assembleia Legislativa, controlada pelo partido governista Nuevas Ideas. Essa alteração permite a reeleição presidencial irrestrita, autorizando um presidente a concorrer por quantos mandatos desejar.
A partir de 2027, o mandato presidencial em El Salvador passará a ter seis anos, em vez dos cinco anos anteriores. Essa mudança visa sincronizar o ciclo eleitoral presidencial com as eleições para prefeitos e legisladores, cujos mandatos são de três anos. Para isso, foi necessário encurtar o segundo mandato de Bukele, para que ele terminasse em 2027, alinhando-se com o novo calendário.
Com essa reformulação constitucional, o público terá a oportunidade de decidir, no início e na metade do mandato presidencial, a composição da Assembleia Legislativa. Essa decisão é crucial, pois os deputados detêm o poder de eleger altas autoridades, aprovar ou alterar leis e, inclusive, modificar a própria Constituição. Além disso, para as eleições de 2027, os legisladores eliminaram o segundo turno, o que significa que a presidência será conquistada pela chapa que obtiver a maioria simples dos votos válidos, eliminando a necessidade de 50% mais um voto para vencer no primeiro turno.
Popularidade em alta: o segredo do sucesso de Bukele
Nayib Bukele construiu uma base sólida de apoio popular, refletida em altos índices de aprovação, impulsionada principalmente pela drástica redução nos níveis de violência no país. Antes de sua ascensão, El Salvador era atormentado pelo crime e pelo domínio de gangues temidas, que controlavam muitas comunidades desde os acordos de paz de 1992. A implementação de um estado de exceção, em vigor desde março de 2022, tem sido a espinha dorsal de sua política de segurança.
Sob este regime, que permite suspensões de direitos civis, as autoridades relatam a detenção de mais de 92 mil pessoas, além da apreensão de milhares de armas de fogo, veículos e celulares. Essa medida, embora criticada por defensores dos direitos humanos devido a alegações de abusos e prisões arbitrárias, tem sido amplamente aceita pela população, que reporta uma maior sensação de segurança nas ruas. A eficácia percebida na luta contra o crime superou as preocupações com a erosão das liberdades civis para muitos salvadorenhos.
A popularidade de Bukele se estende a outras áreas, como a gestão da pandemia de COVID-19 e a adoção do Bitcoin como moeda legal, embora esta última tenha gerado debates e ceticismo. O presidente tem habilmente capitalizado o descontentamento com a corrupção e a ineficiência dos governos anteriores, apresentando-se como um líder moderno e capaz de entregar resultados tangíveis, especialmente no que diz respeito à segurança.
Controle total: Executivo e Legislativo sob a mesma égide
A concentração de poder nas mãos de Nayib Bukele é evidente na completa subordinação do poder legislativo ao executivo. Seu partido, Nuevas Ideas, detém a maioria absoluta na Assembleia Legislativa, o que garante a aprovação automática de todos os projetos de lei apresentados pela Presidência. Essa simbiose entre os poderes executivo e legislativo permite a implementação rápida e sem obstáculos da agenda governamental de Bukele.
Além disso, a Assembleia Legislativa tem sido o canal para a nomeação de juízes para o Supremo Tribunal e outras altas cortes, garantindo um judiciário alinhado com os interesses do partido no poder. Um exemplo notório dessa influência foi a aprovação pela Câmara Constitucional da candidatura de Bukele a um segundo mandato, uma decisão que foi amplamente criticada como um conflito de interesses e um desrespeito à separação de poderes.
Apesar das críticas da oposição e de organizações internacionais sobre a erosão das instituições democráticas, os eleitores parecem priorizar a sensação de ordem e segurança proporcionada pelas políticas de Bukele. Essa priorização da segurança sobre as garantias democráticas tradicionais é um fator chave para entender a sua contínua popularidade e o domínio político que exerce.
Críticas e desafios: economia e a fragilidade da democracia
Apesar do forte apoio popular e da consolidação de seu poder, Nayib Bukele enfrenta desafios significativos, especialmente no campo econômico. Analistas apontam a economia como o “calcanhar de Aquiles” de seu governo, citando a falta de prestação de contas e a contínua erosão da democracia como preocupações centrais.
O desemprego e o aumento dos preços de bens essenciais e combustíveis têm gerado dificuldades financeiras para muitos salvadorenhos. A expectativa é que o governo precise apresentar soluções concretas para esses problemas, pois uma resposta inadequada poderia, eventualmente, diminuir o apoio popular, embora não o suficiente para tirá-lo do poder nas próximas eleições. O desenvolvimento econômico genuíno, em vez de um crescimento focado em setores específicos como o turismo, é visto como um desafio crucial para a sustentabilidade de longo prazo.
Organizações de direitos humanos, embora reconheçam o apoio popular às medidas de segurança drásticas, alertam para a importância de limites e mecanismos de controle do poder. A possibilidade de prisões perpétuas, mesmo para menores a partir de 12 anos, em casos de crimes graves, e a suspensão de garantias constitucionais levantam preocupações sobre a direção autoritária do país. A questão reside em equilibrar a necessidade de segurança com a preservação dos direitos fundamentais e dos princípios democráticos.
O futuro de El Salvador sob a liderança de Bukele
Com a consolidação de seu poder e a possibilidade de mandatos presidenciais estendidos, Nayib Bukele parece posicionado para moldar o futuro de El Salvador por muitos anos. A ausência de oposição política significativa, combinada com um controle institucional robusto e um forte apoio popular, cria um cenário de estabilidade política, mas também de potencial concentração excessiva de poder.
A emenda constitucional que permite a reeleição irrestrita e a eliminação do segundo turno eleitoral são marcos que redefinem o panorama democrático do país. A longevidade de seu governo dependerá, em grande parte, de sua capacidade de gerenciar os desafios econômicos e de manter a confiança da população em sua capacidade de garantir segurança e prosperidade.
Enquanto muitos salvadorenhos celebram a redução da criminalidade e a sensação de ordem, observadores internacionais e críticos internos permanecem vigilantes quanto à preservação das instituições democráticas e dos direitos humanos. O legado de Bukele será, sem dúvida, marcado por essa dualidade: a entrega de resultados em segurança versus a concentração de poder e a flexibilização de normas democráticas.