Obra-prima de Lucian Freud com nu de 90 kg pode bater recorde em leilão
Uma pintura monumental de 90 quilos, que retrata um nu artístico de proporções impressionantes, está prestes a ser leiloada em Londres, com estimativas de venda que podem chegar a R$ 239 milhões. A obra em questão é “Dormindo ao Lado do Tapete de Leões” (1996), do renomado artista britânico Lucian Freud.
A tela, que exigiu quatro homens para ser erguida, retrata Sue Tilley, uma supervisora de benefícios aposentada, em uma pose adormecida. A obra, considerada por especialistas como uma das mais importantes de Freud, será o destaque da Coleção Lewis em um leilão na Sotheby’s no próximo mês, gerando grande expectativa no mercado de arte.
Tilley, que posou para Freud na década de 1990, expressou surpresa com os valores estimados, contrastando com sua própria realidade financeira. “É uma sensação muito estranha, porque eu nunca ganhei muito dinheiro”, comentou, em meio a risos sobre a possibilidade de seu valor de mercado superar seu patrimônio líquido. As informações são baseadas em reportagem da Sotheby’s.
O Retrato de Sue Tilley: Uma Conexão Inesperada
A história por trás de “Dormindo ao Lado do Tapete de Leões” é tão fascinante quanto a própria obra. Sue Tilley, hoje uma mulher de sessenta e poucos anos, viajou de sua casa para um reencontro incomum com a pintura que a imortalizou. A obra, um óleo sobre tela de dimensões consideráveis, retrata seu corpo nu em um fundo claro, com a pele em tons azulados, desdobrando-se em dobras que conferem uma presença quase escultural à figura adormecida.
Olivier Barker, presidente da Sotheby’s Europa, descreveu a pintura como “a obra-prima de Lucian”, evidenciando sua importância dentro do cânone do artista. A expectativa é que a venda, agendada para 24 de junho, reflita esse status, com estimativas que variam entre 25 e 35 milhões de libras, aproximadamente R$ 171 a R$ 239 milhões. Esse valor potencial coloca a obra entre as mais caras já leiloadas de Freud.
Tilley, ao se deparar com seu retrato monumental, compartilhou suas reflexões sobre a discrepância entre o valor artístico atribuído à obra e sua experiência pessoal. “Acho que às vezes meu patrimônio líquido deve estar em torno de 100 milhões de libras”, disse ela, com um sorriso, referindo-se ironicamente ao valor de mercado da pintura que a retrata. “Que absurdo!” Essa declaração sublinha a complexidade da relação entre o artista, o modelo e o mercado de arte.
A Colaboração Freud e Tilley: Mais que um Retrato
A relação artística entre Lucian Freud e Sue Tilley remonta à década de 1990, um período prolífico para ambos. Tilley, que trabalhava como supervisora de benefícios, posou para Freud em diversas ocasiões, recebendo uma modesta diária por seu tempo. “As pessoas pensam que eu entrei na sala e disse ‘Uau, vamos trabalhar na pintura mais cara do mundo’. Não foi nada disso”, explicou Tilley, desmistificando a ideia de uma colaboração guiada pela fama ou pelo valor financeiro iminente.
Ao longo de sua parceria, Freud e Tilley criaram juntos quatro retratos notáveis: “Noite no Estúdio” (1993), “Supervisora de Benefícios Descansando” (1994), “Supervisora de Benefícios Dormindo” (1995) e, a obra em destaque, “Dormindo ao Lado do Tapete de Leão” (1996). Dois desses retratos já alcançaram valores recordes em leilões anteriores, demonstrando o crescente interesse e valorização da obra de Freud.
Em 2008, o retrato de 1995 foi vendido na Christie’s em Nova York por US$ 33,6 milhões, estabelecendo um novo recorde para a obra de um artista vivo na época. Posteriormente, em 2015, a pintura de 1994 atingiu a marca de US$ 56,2 milhões na mesma casa de leilões, consolidando ainda mais a reputação de Freud como um dos artistas mais valorizados do mundo. A atual obra em leilão, “Dormindo ao Lado do Tapete de Leões”, tem o potencial de superar esses marcos.
O Elo com Leigh Bowery: A Conexão com a Vanguarda
A ponte entre Lucian Freud e Sue Tilley foi estabelecida por um amigo em comum: Leigh Bowery. Bowery, uma figura icônica e pioneira na cena artística performática, no design de figurinos e na vida noturna londrina, foi fundamental para unir o artista e sua futura musa. Ele era conhecido por sua extravagância e por sua determinação em vivenciar intensamente a cultura e a vida sobre as quais lia em revistas.
Tilley e Bowery mantinham uma amizade próxima desde que se conheceram em uma boate. Essa conexão pessoal facilitou a aproximação com Freud, que, por sua vez, buscava se manter imerso na cena de vanguarda londrina. “O coração pulsante do que realmente estava acontecendo em Londres naquele momento específico”, descreveu Barker, referindo-se à efervescência cultural que atraía Freud.
Freud, interessado em capturar a essência dessa atmosfera artística, retratou não apenas Bowery, mas também Tilley e uma variedade de personalidades ligadas ao seu círculo social e à vida noturna. Barker explicou que Tilley, em particular, “preenchia algo que (Freud) precisava em seus modelos”, sugerindo que ela possuía qualidades únicas que o artista buscava expressar em suas obras. A influência de Bowery foi crucial para a formação dessa importante fase artística de Freud.
O Processo Criativo: Desafios e Descobertas
Posar para Lucian Freud foi uma experiência descrita por Tilley como “fantástica”, permeada por conversas sobre diversos temas, desde a vida cotidiana e fofocas entre amigos até corridas de cavalos. No entanto, o processo não foi isento de desafios e desconfortos, especialmente para Tilley, que nunca havia posado nua antes.
A ansiedade inicial de Tilley foi atenuada pela presença de Bowery, que a acompanhou em sua primeira sessão e a incentivou a praticar o desnudamento em casa. As instruções de Bowery, que Tilley descreveu como “apavorantes”, visavam prepará-la para o que viria. Contudo, ao conhecer Freud, ela sentiu uma liberdade inesperada e passou a agir instintivamente.
“Acho que é por isso que ele gostou de mim”, confidenciou Tilley. “Eu o desobedeci o tempo todo.” Essa aparente rebeldia, na verdade, parece ter sido um dos elementos que atraíram Freud, que buscava modelos com personalidade própria e que não se submetessem cegamente às suas vonturas. A dinâmica entre artista e modelo era complexa, com momentos de tensão e cumplicidade.
A Rotina de Posar e a Busca por Descanso
A rotina de posar para Freud era intensa e exigente. Tilley chegava ao estúdio por volta das 7h30, tomava café da manhã e, em seguida, a pintura começava. Freud raramente fazia pausas, o que tornava os momentos de descanso de Tilley ainda mais preciosos. O toque do telefone no estúdio era um alívio bem-vindo, oferecendo breves instantes para recuperar as energias.
Em algumas ocasiões, Tilley chegava a cochilar enquanto posava, chegando a sonhar que Freud lhe concedia alguns minutos de folga. Ela acordava rapidamente, temendo ser repreendida, mas, em geral, o artista acabava cedendo à necessidade de pausa. “No fim, ele frequentemente cedia, então funcionava”, relatou Tilley, indicando uma flexibilidade surpreendente na rigidez do processo criativo.
Apesar da dedicação, Tilley não se via como a típica “musa” de um artista, um termo que passou a detestar. “Sempre penso em uma garota frágil, apaixonada pelo artista, cheirando sais de amônia porque estava prestes a desmaiar”, explicou, contrastando com sua própria personalidade forte e independente. Essa visão contrasta com a representação de corpos femininos muitas vezes idealizados na arte.
O Corpo na Arte: Beleza, Imperfeição e Representatividade
Os nus de Freud, pintados durante um período marcado pela estética “heroína chic” e pela magreza extrema de modelos como Kate Moss, apresentavam um contraponto com o corpo voluptuoso de Tilley. Inicialmente, ela confessou odiar o retrato em particular, pois a fazia “parecer horrível”. No entanto, com o tempo, sua percepção mudou.
“Acho que me acostumei. Sou o que sou”, disse ela, ao ser questionada sobre seus sentimentos em relação à obra. Tilley defende a diversidade corporal, argumentando que “é preciso ter todos os tipos de corpos no mundo para que haja algo para se admirar”. Ela se vê como um símbolo de empoderamento para outras mulheres, especialmente as de corpos maiores, incentivando a aceitação e a autoconfiança.
Freud, conhecido por sua abordagem realista e por não idealizar seus modelos, frequentemente exagerava certas características. Tilley revelou que “não tenho um grande caroço marrom na parte inferior da barriga, na vida real ele não existe”, indicando que o artista adicionava elementos para acentuar a representação. Ele também focava em imperfeições, pintando-as sem apagar as anteriores, o que resultava em uma obra que era, em parte, dela e, em parte, ficção. “É como se fosse outra pessoa, e são tão familiares, mas ao mesmo tempo tão estranhas”, concluiu.
O Mercado de Arte e o Legado de Freud
Com a iminente venda de “Dormindo ao Lado do Tapete de Leões”, o mercado de arte se prepara para mais um capítulo na história de Lucian Freud. A obra tem o potencial de quebrar recordes e reafirmar o valor de suas pinturas no cenário internacional. A Sotheby’s está otimista quanto ao resultado do leilão, com Barker afirmando ser “uma oportunidade única”.
Até o momento, os retratos de Tilley feitos por Freud encontraram seu caminho em coleções particulares de alto valor, pertencentes a figuras como o bilionário Roman Abramovich e Joe Lewis, ex-proprietários de clubes de futebol ingleses. A nova disputa pelo quadro levanta a questão sobre quem será o próximo guardião da obra.
Tilley expressou o desejo de que a pintura vá para “alguém que realmente ame a obra pelo que ela é, e não por dinheiro”. Ela lamenta o fato de obras de arte serem frequentemente escondidas em coleções privadas, gerando lucro sem serem apreciadas pelo público. “Pelo menos seria melhor doá-las a uma galeria, para que as pessoas pudessem vê-las e admirá-las”, sugeriu, defendendo o acesso à arte e sua função cultural.
Exibição Pública e Expectativas para o Leilão
A obra “Dormindo ao Lado do Tapete de Leão” (1996) está em exibição gratuita na Sotheby’s em Londres desde 10 de junho, oferecendo ao público a oportunidade de admirar de perto a magnitude e os detalhes da pintura antes do leilão.
A expectativa é alta para o leilão da Coleção Lewis, que promete ser um dos eventos mais importantes do calendário artístico de 2024. A presença de uma obra tão significativa de Lucian Freud, com uma história tão rica e um valor estimado tão elevado, atrai colecionadores e entusiastas de arte de todo o mundo.
O sucesso da venda não apenas definirá um novo recorde para Freud, mas também reforçará a importância de sua contribuição para a arte do século XX e XXI, especialmente em sua abordagem crua e honesta do corpo humano e da experiência humana. A história de Sue Tilley, a mulher por trás do nu monumental, adiciona uma camada de profundidade e humanidade a essa obra de arte que transcende o valor monetário.