Avô dedica vida a netas e luta por liberdade do filho preso após 8 de janeiro
O cenário é de dor e resiliência. Enquanto o país ainda debate os desdobramentos dos atos de 8 de janeiro de 2023, a história de Evandro Brasileiro, um avô de 60 anos, emerge como um retrato pungente das consequências familiares da polarização política. Evandro assumiu a criação de suas duas netas, Jasmim, de quatro anos, e Jade, de dois, desde que seu filho, o advogado Lucas Brasileiro, de 31 anos, foi preso pela primeira vez. Ele agora se desdobra para suprir a ausência paterna, trabalhando incansavelmente para garantir o sustento e o bem-estar das meninas, enquanto luta judicial e politicamente pela liberdade do filho.
Lucas Brasileiro, que morava em Brasília, foi preso no dia 8 de janeiro de 2023 após se abrigar no Palácio do Planalto durante a confusão generalizada. Ele estava na capital para realizar uma prova e, segundo seu pai, foi surpreendido pela turbulência ao deixar o local. Após quase oito meses detido na Papuda, obteve liberdade provisória com tornozeleira eletrônica, mas foi recolhido novamente em junho de 2024, sob a alegação de risco de fuga, momento em que outros 200 envolvidos nos atos de 8 de janeiro também foram detidos. Recentemente, Lucas foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos de prisão, acusado de associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. A rotina das crianças mudou drasticamente, com o avô se tornando a figura paterna principal, enquanto a mãe das meninas, nora de Evandro, também enfrenta as dificuldades impostas pela ausência do companheiro. As informações foram divulgadas em reportagens que acompanham o caso.
A jornada de Evandro é marcada por uma dupla batalha: a de pai, que busca a liberdade do filho, e a de avô, que tenta amenizar o impacto da ausência paterna na vida de suas netas. Ele relata que as crianças sofrem com a separação, adoecem após as visitas à penitenciária e que a pequena Jasmim, a mais velha, já demonstra compreensão da dura realidade, questionando as promessas do pai de que a seguirá em casa. A dedicação de Evandro se estende a todas as esferas da vida das meninas, desde levá-las à escola e a atividades extracurriculares, até preencher lacunas emocionais deixadas pelo pai. A situação, conforme detalhado por Evandro, é um reflexo das complexas e dolorosas consequências que os eventos de 8 de janeiro trouxeram para diversas famílias brasileiras.
A rotina das crianças marcada pela ausência paterna
A pequena Jasmim, com apenas quatro anos, vivencia a prisão do pai desde que era um bebê. Sua irmã mais nova, Jade, ainda estava na barriga quando Lucas Brasileiro foi detido pela segunda vez. Para Evandro, a ausência do filho é sentida em cada marco do desenvolvimento das meninas. “Ele não viu o parto, não viu os primeiros passinhos, o primeiro dia na escola, e quem tem família sabe como isso faz falta pro adulto e pra criança”, desabafa o avô. A rotina das duas irmãs é permeada pela falta do pai, e as visitas ao presídio, que deveriam ser momentos de alegria, tornam-se gatilhos para o sofrimento. Evandro conta que, após cada encontro, as meninas costumam ficar doentes, com Jasmim chegando a ter febre por três dias seguidos. A expectativa para as visitas é alta, com a menina acordando de madrugada e arrumando suas roupas, sempre brancas, conforme exigência da penitenciária, para o encontro com o pai. A alegria inicial de correr para abraçá-lo, no entanto, é seguida por uma profunda tristeza na hora da despedida.
Evandro Brasileiro: O “papai-vovô” que sustenta e cuida
Diante da ausência de Lucas, Evandro Brasileiro assumiu um papel multifacetado. Além de avô, ele se tornou a principal figura paterna para Jasmim e Jade, carinhosamente chamado por elas de “papai-vovô”. O agropecuarista, de 60 anos, sustenta financeiramente a nora e as netas, dividindo com outros familiares as tarefas cotidianas, como levar as meninas à escola, ao balé e participar de eventos como o Dia dos Pais. Essa dedicação integral visa minimizar o impacto da prisão de Lucas na vida das crianças, proporcionando-lhes um ambiente de estabilidade e afeto. A força de Evandro em manter a rotina e o ânimo das netas é um testemunho de seu amor e compromisso com a família, mesmo diante de um cenário tão adverso e doloroso. A sua presença constante busca suprir a falta que o pai faz, tentando construir memórias positivas para as meninas.
A luta incansável pela liberdade do filho
Paralelamente à sua dedicação às netas, Evandro Brasileiro dedica sua energia a divulgar o caso de seu filho e a buscar sua liberdade. Ele se tornou um ativista assíduo, participando de manifestações, audiências públicas e eventos políticos em defesa dos condenados e presos em decorrência dos atos de 8 de janeiro. Com um cartaz contendo a foto de Lucas, Evandro percorre Brasília e outras cidades, buscando sensibilizar autoridades e a opinião pública. “Enquanto eu tiver forças, lutarei pelo meu filho”, declara com firmeza. Sua atuação se estende a Brasília, onde já esteve no Senado e na Câmara dos Deputados, e em eventos com figuras políticas, como Nikolas Ferreira. A persistência de Evandro em sua jornada demonstra a profundidade de seu amor paterno e a sua convicção na inocência de Lucas, alimentando a esperança de um desfecho favorável para o filho.
O impacto da prisão na saúde e no peso de Lucas Brasileiro
A passagem de Lucas Brasileiro pelo sistema prisional foi marcada por severas dificuldades físicas e emocionais. Ao ser preso pela primeira vez, pesando 78 kg, ele chegou a emagrecer drasticamente, atingindo apenas 48 kg. Essa perda de peso acentuada, segundo Evandro, foi consequência da má alimentação, do estresse e das condições adversas enfrentadas no cárcere. “Ele ficou só uma ossada e eu tinha vontade de chorar”, relata o pai, visivelmente abalado. A preocupação com a saúde do filho se estende a outras denúncias de maus-tratos. Evandro já relatou episódios de perseguição e agressões sofridas por Lucas dentro da prisão. Um dos casos mais graves envolveu uma situação de sufocamento durante a transferência de presos, em janeiro de 2025, para a Penitenciária do Distrito Federal (PDF I). Segundo o relato do próprio Lucas, o uso de spray de pimenta e o fechamento das portas do camburão teriam gerado asfixia pela inalação da substância tóxica, situação que foi formalizada em relatório da Defensoria Pública. Evandro descreveu que, ao abrirem a porta do veículo, os presos estavam quase desmaiados, enquanto os policiais riam da cena.
Denúncias de agressões e a negativa de comparecer ao velório da avó
A luta de Evandro Brasileiro pela dignidade de seu filho na prisão se manifestou em diversas frentes. Em uma ocasião, ele denunciou que a penitenciária negou a Lucas o direito de comparecer ao velório de sua avó, Joanice, sob a justificativa de “falta de contingente”. O episódio, divulgado por meio de um vídeo gravado por Evandro que viralizou, gerou grande comoção. Após a repercussão das imagens, a Justiça autorizou que Lucas fosse levado ao enterro, mas com uma escolta policial ostensiva, composta por cerca de 35 policiais armados com fuzis. Essa situação ilustra a dificuldade enfrentada pelas famílias em garantir direitos básicos aos seus entes queridos que estão privados de liberdade, especialmente em casos que envolvem questões políticas. A negativa inicial e a posterior escolta policial reforçam a complexidade e a sensibilidade em torno do caso de Lucas Brasileiro e de outros envolvidos nos eventos de 8 de janeiro.
A fé como sustento em meio à espera pela liberdade
Após mais de três anos e meio de angústia, Evandro Brasileiro afirma que sua família tem sido sustentada pela fé em Deus. “Eu não acredito mais no homem. Rezo e espero em Deus”, declara. Essa confiança transcendental o impulsiona a renovar a esperança a cada dia de que abraçará seu filho novamente fora dos muros da prisão e testemunhará suas netas crescendo com a presença paterna. “Eu deito e fico com aquele pensamento de que o Lucas está saindo”, confessa, ansioso pelo dia em que essa espera chegará ao fim. A resiliência de Evandro, mesmo diante das adversidades, é um testemunho de sua fé inabalável e de seu profundo amor pela família, mantendo viva a chama da esperança em um futuro mais justo e reunido.
O caso Lucas Brasileiro e o contexto do 8 de janeiro
O caso de Lucas Brasileiro se insere no contexto mais amplo dos eventos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Centenas de pessoas foram presas em flagrante ou posteriormente, sendo acusadas de crimes como associação criminosa, tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O Supremo Tribunal Federal (STF) tem conduzido os julgamentos, com condenações que variam de acordo com a participação individual de cada acusado. A defesa de muitos dos envolvidos alega que eles foram presos de forma arbitrária ou que suas ações não configuram crimes graves. O episódio gerou um intenso debate sobre a polarização política no Brasil, a fragilidade das instituições democráticas e a necessidade de responsabilização dos envolvidos. A situação de Lucas Brasileiro, com a alegação de inocência por parte de seu pai e as condenações impostas, reflete a complexidade e as diferentes interpretações dos fatos ocorridos naquele dia. A luta de Evandro pela liberdade do filho, portanto, também representa um anseio por justiça e pela revisão de casos que, segundo ele e outros familiares, foram tratados de forma desproporcional.
A esperança de um pai e avô: o reencontro familiar
A história de Evandro Brasileiro é um retrato vívido da espera e da resiliência. Ele se dedica incansavelmente a cuidar de suas netas, Jasmim e Jade, e a lutar pela liberdade de seu filho, Lucas. O título “papai-vovô” resume a dupla jornada de Evandro, que busca suprir a ausência paterna e manter viva a esperança de um reencontro familiar. A cada dia, ele renova sua fé e sua determinação, sonhando com o momento em que poderá abraçar Lucas fora da prisão e ver suas netas crescendo com a presença do pai. A narrativa de Evandro ressalta as profundas feridas deixadas pelos eventos de 8 de janeiro, não apenas na esfera política, mas também na vida de famílias que sofrem as consequências da polarização e da justiça. A esperança de Evandro é a de que a liberdade de seu filho chegue logo, permitindo que a família possa, finalmente, se restabelecer e seguir em frente.