‘Grande Sertão: Veredas’ é coroado o melhor livro brasileiro de ficção em votação da Gazeta do Povo
A complexidade e a riqueza da literatura brasileira foram postas à prova em uma votação interna promovida pela redação da Gazeta do Povo. O desafio: definir qual obra se consagraria como o melhor livro brasileiro de ficção de todos os tempos. Longe de critérios objetivos ou comissões de especialistas, a escolha se baseou na memória, nas preferências pessoais e nas leituras que marcaram a trajetória de cada jornalista.
O resultado, como esperado, não foi unânime, apresentando uma diversidade de estilos e épocas. No entanto, um título emergiu com força e consenso entre os votantes, consolidando seu lugar no panteão da literatura nacional. Publicado em 1956, “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, foi a obra mais citada e aclamada pelos profissionais.
Este romance icônico, mais de sete décadas após sua publicação, continua a desafiar e encantar leitores, sendo reconhecido não apenas como uma história de jagunços, mas como uma profunda investigação sobre o bem e o mal, um intenso romance de amor e, sobretudo, uma experiência radical com a linguagem. A escolha foi divulgada pela própria redação da Gazeta do Povo.
A escolha democrática da redação: um mergulho na subjetividade literária
A pergunta que moveu a redação da Gazeta do Povo era, à primeira vista, simples: qual o melhor livro brasileiro de ficção? Contudo, a ausência de métricas preestabelecidas, como vendas, popularidade em vestibulares ou presença em vitrines, abriu espaço para um debate genuinamente literário. Cada jornalista foi convidado a revisitar seu acervo pessoal de leituras, buscando aquela obra que, de fato, deixou uma marca indelével.
O processo de escolha, desprovido de fórmulas ou critérios rígidos, permitiu que a subjetividade e a paixão pela leitura guiassem as indicações. Essa abordagem democrática e pessoal resultou em uma pluralidade de vozes e preferências, refletindo a vasta e multifacetada paisagem da produção literária brasileira. Autores consagrados como Machado de Assis e Jorge Amado, assim como outras figuras importantes da literatura nacional, receberam seus devidos votos, evidenciando a riqueza de diferentes épocas, estilos e abordagens narrativas, desde o regionalismo até a experimentação.
‘Grande Sertão: Veredas’: a obra que transcende o tempo e a linguagem
Apesar da diversidade de indicações, “Grande Sertão: Veredas” se sobressaiu, conquistando o título de obra mais votada pela redação. O romance de João Guimarães Rosa, publicado em 1956, é uma obra monumental que desafia classificações fáceis. Ele se apresenta simultaneamente como uma saga de jagunços no sertão, uma profunda reflexão filosófica sobre a dualidade entre o bem e o mal, um romance de amor complexo e uma ousada exploração das potencialidades da língua portuguesa.
O protagonista, Riobaldo, narra suas experiências em mais de 600 páginas, buscando compreender os eventos de sua vida. Entre guerras, pactos, traições e paisagens que moldam sua alma, ele conta sua história a um interlocutor quase silencioso. Essa estrutura narrativa confere ao livro uma qualidade que pode, em alguns momentos, parecer densa e impenetrável, mas em outros, revelar uma precisão e uma clareza surpreendentes. É essa complexidade intrínseca que, talvez, garanta sua perene relevância.
“O sertão está em toda parte”, escreve Guimarães Rosa, uma frase que encapsula a universalidade de sua obra. O sertão de Riobaldo não é apenas um local geográfico, mas um espaço moral, psicológico e linguístico que o leitor é convidado a atravessar por conta própria. Essa jornada íntima e pessoal é um dos pilares da força duradoura do romance.
A musicalidade hipnótica e a profundidade filosófica de Guimarães Rosa
Omar Godoy, editor de Ideias da Gazeta do Povo, reconhece a aparente dificuldade de acesso que “Grande Sertão: Veredas” pode apresentar a alguns leitores. No entanto, ele destaca que, ao se permitir imergir no ritmo da prosa de Guimarães Rosa, a obra revela uma musicalidade quase hipnótica.
“O sertão deixa de ser apenas uma paisagem e vira um cenário para discutir o mal, a dúvida, a liberdade e o destino. E ainda há a intensidade do personagem Riobaldo, um narrador que afirma uma coisa, volta atrás, corrige o próprio raciocínio, muda de ideia. Poucos romances conseguem reunir filosofia, poesia e humanidade sem perder a força narrativa”, ponderou Godoy, ressaltando a capacidade do livro de entrelaçar temas existenciais profundos com uma narrativa envolvente.
Complementando a análise, o colunista Paulo Polzonoff Jr., outro entusiasta da obra, oferece uma justificativa concisa e com um toque de humor: “[Grande Sertão: Veredas é uma] mistura perfeita de estilo inventivo, prosa cativadora e um subtexto extremamente profundo. Não tem igual, e quem disser o contrário está errado”. Essa declaração enfática sublinha a convicção sobre a singularidade e a excelência do romance de Guimarães Rosa.
‘Capitães da Areia’: a denúncia social e a força do regionalismo de Jorge Amado
O regionalismo, uma vertente fundamental da literatura brasileira, também marcou presença significativa nas indicações. “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, publicado originalmente em 1937, foi outra obra aclamada pelos jornalistas. O romance narra a vida de um grupo de meninos em situação de rua na Salvador da época, explorando suas lutas pela sobrevivência em meio à pobreza e ao abandono.
Essas crianças, que roubam, brigam e desafiam a autoridade policial, são retratadas com uma complexidade que vai além de estereótipos de delinquentes. Personagens como Pedro Bala, Professor, Sem-Pernas e Gato demonstram uma gama de emoções e comportamentos, exibindo brutalidade, mas também solidariedade, medo, desejo e sonhos. O livro se aprofunda nas suas vivências, tornando difícil enxergá-los apenas como uma ameaça à ordem social.
Por trás das ações dos meninos, “Capitães da Areia” levanta uma questão social crucial: o que uma sociedade faz com aqueles que ela mesma abandonou? O romance não se esquiva de mostrar a dureza da realidade, mas o faz com uma humanidade que convida à reflexão sobre as origens da marginalidade e a responsabilidade coletiva.
A censura e a atualidade de ‘Capitães da Areia’
Hermano Freitas, editor da Gazeta do Povo, relembra um episódio marcante na história de “Capitães da Areia”: a censura durante a Era Vargas. A apreensão e queima pública de mais de 800 exemplares em Salvador, descrita por ele como “uma cena que parece saída de um filme sobre os anos do nazismo”, atesta o impacto e a força transgressora da obra na época.
Freitas destaca a dualidade do livro, que funciona como “uma história de romance adolescente e denúncia social do menor abandonado, um problema atual até os dias de hoje”. Ele elogia a construção de Pedro Bala como um “primeiro protagonista delinquente infantil da ficção”, ressaltando que suas ações são apresentadas sem excesso de julgamento moral, focando nas consequências. “Tecnicamente, não tem o realismo mágico que muitos consideram irritante no restante da obra de Jorge Amado”, acrescenta, valorizando a abordagem mais direta e realista do romance.
‘Tudo é Rio’: a literatura contemporânea e suas zonas de desconforto
A cena literária contemporânea também foi representada na lista de indicações com “Tudo é Rio”, de Carla Madeira. Publicado em 2014, o romance da escritora mineira tece uma narrativa onde amor, desejo, violência e culpa se entrelaçam de forma indissociável, evocando a imagem de um rio cujas águas carregam consigo as complexidades da experiência humana.
A obra se destaca por sua habilidade em explorar as “áreas cinzentas” das relações humanas, onde afeto e crueldade coexistem e os personagens são confrontados com sentimentos contraditórios. Carla Madeira conduz o leitor por territórios morais desconfortáveis, incentivando a compreensão em vez de oferecer respostas fáceis. O romance não busca que o leitor goste dos personagens, mas que se esforce para entendê-los, reconhecendo que ninguém sai ileso das experiências que moldam suas vidas.
A força avassaladora das emoções em ‘Tudo é Rio’
Bruno Maffi, editor da equipe de Brasil da Gazeta do Povo, ressalta a capacidade de “Tudo é Rio” em abordar emoções humanas profundas de maneira “avassaladora”. Ele descreve a escrita de Madeira como fluida e envolvente, comparando-a ao próprio rio que dá título ao livro, “puxando o leitor para dentro de uma história intensa sobre amor, dor, ciúme e perdão”.
A força do romance reside na construção de personagens tão realistas que o leitor se sente intrinsecamente envolvido com suas escolhas e dilemas. “No fim, a obra não entrega apenas um ótimo enredo, mas sim uma experiência emocionante que marca quem lê para sempre”, conclui Maffi, evidenciando o impacto duradouro que “Tudo é Rio” pode ter sobre seus leitores, consolidando a literatura contemporânea como um campo fértil para obras de grande relevância.
A diversidade de indicações reforça a riqueza da ficção brasileira
A votação interna da redação da Gazeta do Povo para eleger o melhor livro brasileiro de ficção revelou não apenas um consenso em torno de “Grande Sertão: Veredas”, mas também a vasta diversidade e a riqueza da produção literária nacional. Clássicos de Machado de Assis, obras de Jorge Amado que retratam a identidade e as contradições sociais do Brasil, e produções contemporâneas que exploram as complexidades da alma humana, todos encontraram seu espaço e seus defensores entre os jornalistas.
Essa pluralidade de vozes e gêneros literários demonstra que a literatura brasileira é um campo em constante ebulição, capaz de dialogar com diferentes épocas, públicos e sensibilidades. A escolha de “Grande Sertão: Veredas” como o livro mais votado não diminui o valor das outras obras indicadas, mas sim reforça a ideia de que a excelência na ficção brasileira se manifesta de múltiplas formas, enriquecendo o patrimônio cultural do país.