Desde os anos 2000, as principais facções criminosas brasileiras consolidaram parcerias internacionais, inicialmente com cartéis latinos para o fornecimento de entorpecentes ao mercado nacional. Posteriormente, estabeleceram sociedades com máfias europeias, como a italiana ‘Ndrangheta, para a distribuição de drogas no Velho Mundo.

Agora, a África se tornou o novo foco nas rotas de narcotráfico a partir do Brasil. Desde 2020, o continente africano tem se consolidado como um dos mais importantes centros de redistribuição de cocaína no mundo. Ele desempenha um papel central na conexão entre a produção latino-americana, a logística brasileira e os mercados consumidores da Europa, do Oriente Médio e da Ásia.

A cooperação entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) com organizações africanas, cartéis andinos e máfias europeias aponta para a formação de consórcios criminais transnacionais. Esses grupos são capazes de movimentar grandes volumes de cocaína, operar sistemas sofisticados de lavagem de dinheiro e explorar fragilidades institucionais em múltiplos países. Tais dados são revelados por investigações da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal em conjunto com a Interpol, além de informações oficiais analisadas no estudo “Floresta em pó”, do Instituto Fogo Cruzado em parceria com a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política de Drogas e a Drug Policy Reform & Environmental Justice International Coalition, entre outras instituições.

Golfo da Guiné e os Corredores Africanos do Narcotráfico

Na África, o Golfo da Guiné emerge como o principal corredor contemporâneo do narcotráfico no continente. Portos em Lagos, na Nigéria, Tema, em Gana, e Abidjan, na Costa do Marfim, foram integrados a redes logísticas altamente sofisticadas. Essas redes são controladas por facções brasileiras, com destaque para o PCC, em parceria com organizações criminosas nigerianas e cartéis colombianos, conforme aponta o relatório internacional.

Nesse circuito, portos brasileiros estratégicos como Santos, em São Paulo, Paranaguá, no Paraná, e Suape, em Pernambuco, desempenham um papel central. Eles são responsáveis pelo escoamento de grandes remessas de drogas, principalmente cocaína, que frequentemente são ocultadas em cargas de frutas, café, carnes congeladas e produtos industrializados. Além disso, a rede de pontos de partida brasileiros se expande para outros portos pelo país.

A Rota Atlântica e a Vulnerabilidade Institucional na África

Do outro lado do Atlântico, um eixo fundamental se desenvolve no Atlântico Central, englobando Cabo Verde, Senegal e Guiné-Bissau. Nesta rota de narcotráfico Brasil-África, a posição geográfica privilegiada e a fragilidade institucional são fatores determinantes para o sucesso das operações criminosas.

Guiné-Bissau, por exemplo, é considerada um narcoestado em relatórios recentes do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). O país tornou-se um ponto crucial de armazenamento e transbordo de cocaína, com destino principal à Península Ibérica e ao norte da Europa. A análise também revela que

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