PM de SP recomendado para expulsão após morte de estudante de medicina em abordagem; família denuncia manobra no processo
Um relatório interno da Polícia Militar de São Paulo recomenda a expulsão do soldado Guilherme Augusto Macedo, principal acusado pela morte do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta. O jovem foi baleado durante uma abordagem na Vila Madalena, zona oeste da capital, em novembro de 2024. O documento, que aponta a conduta do policial como “desnecessária” e “excessiva”, contrasta com a recomendação de arquivamento para o soldado Bruno Carvalho do Prado, colega de guarnição de Macedo, que também é réu no caso.
A família de Marco Aurélio reagiu com veemência às decisões administrativas, classificando-as como “aberração jurídica” e acusando tentativas de obstrução de justiça e falsidade ideológica. Segundo os advogados da família, os policiais teriam apresentado relatos falsos sobre a ação, desmentidos por imagens de câmeras corporais. Enquanto a esfera administrativa apresenta divergências, ambos os policiais aguardam julgamento pelo Tribunal do Júri por homicídio duplamente qualificado.
As informações foram divulgadas pela CNN Brasil, que busca contato com as defesas dos policiais envolvidos. O caso ganhou repercussão nacional e levanta questionamentos sobre os protocolos de abordagem policial e a apuração de responsabilidades em casos de letalidade.
Relatório aponta conduta “desnecessária” e “excessiva” de PM em morte de estudante
O Relatório Final do Processo Administrativo Disciplinar (PAD) sobre a morte do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta foi conclusivo em relação à conduta do soldado Guilherme Augusto Macedo. O documento atesta que a ação do policial foi “desnecessária” e “excessiva”, evidenciando que o jovem estava desarmado e encurralado no momento em que foi alvejado. A análise sugere que Macedo demonstrou ser “refratário aos valores e deveres policiais”, um indicativo forte para a sua expulsão da corporação.
Este parecer técnico é um passo crucial no processo interno da Polícia Militar para determinar as sanções disciplinares aplicáveis aos envolvidos. A recomendação de expulsão para um dos policiais sugere que a corporação reconhece falhas graves na atuação, o que pode ter implicações diretas na carreira e na credibilidade dos agentes.
Divergência interna: Conselho de Disciplina recomenda arquivamento para outro PM
Em um cenário de contradições dentro da própria Polícia Militar, o Conselho de Disciplina apresentou uma recomendação oposta em relação ao soldado PM Bruno Carvalho do Prado, também acusado no mesmo crime. O órgão sugeriu o arquivamento do processo contra Prado, argumentando que ele não teria contribuído diretamente para o disparo fatal. O relatório do Conselho minimiza a importância de um chute desferido por ele contra a vítima momentos antes do tiro, classificando-o como um “golpe legal”, previsto nos manuais da corporação.
Essa divergência entre o PAD e o Conselho de Disciplina levanta preocupações sobre a isenção e a uniformidade na aplicação das normas internas da Polícia Militar. A família da vítima, por meio de seus advogados, contesta enfaticamente essa decisão, argumentando que, como policial mais antigo e experiente da guarnição, Bruno Carvalho do Prado tinha o dever de intervir e conter a agressividade de seu parceiro, o soldado Macedo.
Família de vítima contesta decisões administrativas e denuncia “aberração jurídica”
A família de Marco Aurélio Cardenas Acosta não se conforma com as recomendações parciais da Polícia Militar e já apresentou um Memorial Jurídico à Secretaria de Segurança Pública e ao Comando-Geral da PM. No documento, os advogados da família classificam as decisões divergentes como uma “aberração jurídica” e argumentam que Bruno Carvalho do Prado, por ser o policial mais antigo e experiente na guarnição, tinha a responsabilidade de frear a ação impulsiva de seu colega. A omissão, segundo a defesa, configuraria cumplicidade.
O Memorial Jurídico também detalha as acusações de tentativa de obstrução de justiça e falsidade ideológica. A defesa alega que os policiais teriam elaborado relatórios mentirosos, afirmando que o estudante tentou subtrair as armas da equipe, uma versão que, segundo as imagens das câmeras corporais dos policiais, não condiz com a realidade dos fatos. A família busca garantir que a apuração administrativa reflita a gravidade do ocorrido.
Câmeras corporais desmentem versão policial sobre tentativa de roubo de arma
Um ponto crucial na investigação e na contestação da família é a análise das imagens captadas pelas câmeras corporais dos policiais. De acordo com os memoriais apresentados pela defesa da vítima, os relatos dos policiais sobre uma suposta tentativa de Marco Aurélio em subtrair suas armas foram completamente desmentidos pelas evidências visuais. Essa discrepância entre a narrativa policial e os registros audiovisuais reforça a tese de que houve uma tentativa de distorcer os fatos para justificar a ação letal.
As imagens das câmeras corporais são consideradas provas determinantes no caso, pois registram a dinâmica dos acontecimentos em tempo real e sem a interferência de testemunhas ou interpretações subjetivas. A alegação de que o estudante tentou pegar a arma de um dos policiais é fundamental para a linha de defesa que busca caracterizar a ação como legítima defesa ou estrito cumprimento do dever legal, algo que as imagens parecem refutar.
Defesa rebate alegação de uso de drogas e aponta anestésico hospitalar
Outro ponto levantado pela defesa da vítima diz respeito à tentativa de associar o comportamento alterado de Marco Aurélio ao uso de drogas. A defesa rebate essa tese com veemência, afirmando que a única substância detectada no laudo toxicológico foi um anestésico administrado pelo próprio hospital durante a cirurgia de emergência a que o estudante foi submetido após ser baleado. Essa informação é crucial para descreditar qualquer tentativa de criminalizar a vítima ou justificar a abordagem agressiva.
A apresentação de um laudo toxicológico limpo de substâncias ilícitas, com a explicação clara da presença de um anestésico hospitalar, reforça a narrativa de que Marco Aurélio era um jovem estudante, vítima de uma ação policial desproporcional. A família busca, com isso, garantir que a memória de Marco Aurélio seja preservada e que a verdade dos fatos prevaleça.
Justiça Comum envia ambos os policiais ao Tribunal do Júri por homicídio qualificado
Apesar das divergências na esfera administrativa da Polícia Militar, a situação judicial de ambos os policiais é idêntica na Justiça Comum. A 4ª Vara do Tribunal do Júri de São Paulo já proferiu a sentença de pronúncia, o que significa que há indícios suficientes para que Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado sejam levados a julgamento popular. Ambos responderão pelo crime de homicídio duplamente qualificado, uma acusação grave que pode acarretar penas significativas.
A pronúncia é um marco importante no processo penal, indicando que o juiz considerou que os elementos apresentados pela acusação são fortes o bastante para que os jurados decidam sobre a culpa ou inocência dos réus. O julgamento pelo Tribunal do Júri é onde a sociedade, representada pelos jurados, terá a palavra final sobre a conduta dos policiais.
Relembre o caso: morte de estudante em abordagem policial na Vila Madalena
O trágico evento que culminou na morte do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta ocorreu em 20 de novembro de 2024. O jovem foi baleado por um policial militar em um hotel na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Segundo o boletim de ocorrência inicial registrado pelos policiais, a versão apresentada foi a de que Acosta teria tentado pegar a arma de um dos agentes, momento em que o disparo teria ocorrido. Os policiais alegaram que o estudante estava “bastante alterado, agressivo, e resistiu à abordagem policial” após serem chamados ao local.
No entanto, as imagens de câmeras de segurança do hotel rapidamente contradisseram a narrativa oficial. Os vídeos mostraram que o estudante não tentou pegar a arma do policial, e um outro vídeo, de circuito interno, flagrou o momento da abordagem. As imagens revelam que, após ser abordado, o rapaz resiste e tenta chutar um dos policiais. Marco Aurélio foi socorrido ao Hospital Ipiranga, mas não resistiu aos ferimentos e veio a falecer, deixando uma família em busca de justiça e respostas claras sobre a ação policial.